A Bela Adormecida no Bosque - Parte 1: O Encantamento
Contos de Fadas

A Bela Adormecida no Bosque - Parte 1: O Encantamento

por Charles Perrault

Idades 7-9
10 min de leitura

Era uma vez um Rei e uma Rainha que viviam tristes, muito tristes, porque não tinham filhos. Tão tristes que nem dá para contar. Foram a todas as águas do mundo, fizeram promessas e peregrinações, tentaram todos os meios — e nada. Até que, por fim, a Rainha descobriu que esperava um bebê, e deu à luz uma menina.

O batizado foi uma festa muito bonita. A Princesa teve como madrinhas todas as fadas que se pôde encontrar no reino inteiro — acharam sete —, para que cada uma lhe desse um dom, como era o costume das fadas naquele tempo. Assim, a menina haveria de ter todas as perfeições que se pode imaginar.

Quando as cerimônias do batizado terminaram, todos voltaram ao palácio do Rei, onde estava preparado um grande banquete para as fadas. Diante de cada uma delas foi posto um lugar magnífico, com um estojo de ouro maciço em que havia colher, faca e garfo, tudo de ouro puro, cravejado de diamantes e rubis.

Mas, na hora em que todos se sentavam à mesa, viram entrar no salão uma fada muito velha, que ninguém havia convidado. Fazia mais de cinquenta anos que ela não saía de uma certa torre, e todos acreditavam que estivesse morta ou encantada. O Rei mandou pôr um lugar para ela, mas não pôde lhe dar um estojo de ouro como o das outras, porque só tinham sido feitos sete, um para cada uma das sete fadas.

A velha fada achou que estava sendo desprezada e resmungou uma ameaça entre os dentes. Uma das fadas jovens, sentada ao seu lado, ouviu o resmungo. Desconfiando de que a velha poderia dar à pequena Princesa algum dom infeliz, ela se levantou da mesa assim que pôde e foi se esconder atrás das cortinas — desse jeito falaria por último e poderia consertar, tanto quanto fosse possível, o mal que a velha fada quisesse fazer.

Enquanto isso, as fadas começaram a dar seus presentes à Princesa. A mais jovem lhe deu o dom de ser a pessoa mais bonita do mundo; a segunda, o de ter a inteligência de um anjo; a terceira, uma graça maravilhosa em tudo o que fizesse; a quarta, o dom de dançar perfeitamente bem; a quinta, o de cantar como um rouxinol; e a sexta, o de tocar todo tipo de música com a maior perfeição.

Então chegou a vez da velha fada. Com a cabeça tremendo mais de rancor do que de idade, ela disse que a Princesa furaria a mão num fuso e morreria daquele ferimento. O dom terrível fez a companhia inteira estremecer, e todos caíram em pranto.

Nesse mesmo instante, a jovem fada saiu de trás das cortinas e disse em voz alta:

— Fiquem tranquilos, Rei e Rainha: sua filha não vai morrer desse desastre. É verdade que não tenho poder para desfazer por completo o que a minha anciã fez. A Princesa vai mesmo furar a mão num fuso; mas, em vez de morrer, cairá apenas num sono profundo, que durará cem anos. E, no fim desses cem anos, o filho de um rei virá despertá-la.

O Rei, para evitar a desgraça anunciada pela velha fada, mandou proclamar na mesma hora, por todo o reino, que ninguém podia fiar com roca e fuso, nem sequer guardar um fuso em casa, sob pena de morte.

Uns quinze ou dezesseis anos depois, o Rei e a Rainha tinham ido a uma de suas casas de campo, e a jovem Princesa se divertia correndo pelo palácio, subindo e descendo, de um aposento em outro. Foi assim que ela chegou a um quartinho no alto de uma torre, onde uma boa velhinha, sozinha, fiava com seu fuso. Aquela boa mulher nunca tinha ouvido falar da proibição do Rei.

— O que você está fazendo aí, vovó? — perguntou a Princesa.

— Estou fiando, minha linda menina — respondeu a velhinha, que não sabia quem ela era.

— Ah, que bonito — disse a Princesa. — Como é que se faz? Deixe-me tentar, para ver se eu também consigo.

Mal pegou o fuso na mão — fosse por pressa, fosse por falta de jeito, fosse porque o decreto da fada assim mandava —, ele lhe furou a mão, e ela caiu desmaiada.

A boa velhinha, sem saber direito o que fazer, gritou por socorro. Veio gente de todos os lados, e em grande número. Jogaram água no rosto da Princesa, afrouxaram suas roupas, bateram de leve nas palmas de suas mãos, esfregaram suas têmporas com água. Nada a fazia voltar a si.

O Rei, que subiu ao ouvir o barulho, lembrou-se da previsão das fadas. Entendendo que aquilo tinha mesmo de acontecer, já que as fadas o haviam dito, mandou levar a Princesa para o mais belo aposento do palácio e deitá-la numa cama toda bordada de ouro e prata.

Quem a visse a tomaria por um anjo, de tão bonita que era, pois o desmaio não tinha apagado nada da cor do seu rosto. Suas bochechas continuavam rosadas, e seus lábios pareciam coral. Os olhos estavam fechados, é verdade, mas dava para ouvi-la respirar de mansinho — e assim todos ao seu redor souberam que ela não estava morta. O Rei ordenou que ninguém a perturbasse e que a deixassem dormir em paz, até que chegasse a sua hora de despertar.

A boa fada que lhe salvara a vida, trocando a morte por um sono de cem anos, estava no reino de Matakin, a doze mil léguas dali, quando o acidente aconteceu. Mas foi avisada num instante por um anãozinho que tinha botas de sete léguas. A fada partiu na mesma hora e chegou, mais ou menos uma hora depois, numa carruagem de fogo puxada por dragões.

O Rei a ajudou a descer da carruagem, e ela aprovou tudo o que ele tinha feito. Mas, como tinha muita previdência, pensou que, quando a Princesa acordasse, poderia se sentir perdida, sozinha naquele palácio antigo.

E foi isto o que ela fez: tocou com sua varinha tudo o que havia no palácio, menos o Rei e a Rainha. Tocou as governantas, as damas de honra, as camareiras, os cavalheiros, os oficiais, os mordomos, os cozinheiros, os ajudantes de cozinha, os guardas, os pajens, os lacaios. Tocou também todos os cavalos dos estábulos, com seus tratadores, os cães grandes do pátio de fora e até a pequena Mopsey, a cachorrinha da Princesa, que estava deitada na cama, ao lado dela.

Assim que a varinha os tocava, todos caíam no sono — para que não acordassem antes de sua senhora e estivessem prontos para servi-la quando ela precisasse. Até os espetos no fogo, carregados de perdizes e faisões, adormeceram; e o fogo adormeceu também. Tudo isso se fez num momento, que fada não demora para fazer o seu trabalho.

Então o Rei e a Rainha beijaram a filha querida, sem acordá-la, saíram do palácio e mandaram proclamar que ninguém ousasse chegar perto dali. Nem era preciso: em quinze minutos cresceu, ao redor do parque, uma quantidade tão grande de árvores grandes e pequenas, de arbustos e espinheiros entrelaçados uns nos outros, que nem homem nem bicho conseguia atravessar. Só se via, e ainda assim de muito longe, o alto das torres do palácio.

Ninguém duvidou de que aquilo era uma amostra da arte da fada: enquanto dormisse, a Princesa não teria nada a temer dos curiosos.

E o palácio inteiro dormiu, esperando o dia em que um príncipe viria quebrar o encantamento e despertar a bela adormecida.

❤️ ✝️ ❤️

Moral da História

Algumas coisas boas pedem tempo, e esperar também faz parte da história. A Princesa dormiu até que chegasse a sua hora, e a hora certa sempre chega. Quem espera com o coração tranquilo encontra a alegria no momento em que ela deve vir.

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