Branca de Neve
Contos de Fadas

Branca de Neve

por Irmãos Grimm

Idades 10-12
22 min de leitura

Era uma vez, em pleno inverno, quando os flocos de neve caíam do céu como plumas, uma rainha que estava sentada à janela, costurando. A moldura da janela era de ébano negro. E enquanto costurava e olhava a neve lá fora, ela espetou o dedo na agulha, e três gotas de sangue caíram sobre a neve. O vermelho ficou tão bonito sobre o branco que ela pensou consigo mesma:

— Quem dera eu tivesse uma criança branca como a neve, vermelha como o sangue e negra como a madeira desta janela.

Pouco tempo depois, ela teve uma filhinha branca como a neve, vermelha como o sangue e de cabelos negros como o ébano. Por isso a menina foi chamada de Branca de Neve. E, quando a criança nasceu, a Rainha morreu.

Passado um ano, o Rei tomou outra esposa. Era uma mulher bonita, mas orgulhosa e altiva, que não suportava a ideia de alguém a superar em beleza. Ela tinha um espelho maravilhoso e, quando parava diante dele para se olhar, perguntava:

— Espelho, espelho meu, existe nesta terra alguém mais bela do que eu?

E o espelho respondia:

"Minha Rainha, é você

a mais bela que este espelho vê."

— O Espelho

Então ela ficava satisfeita, pois sabia que o espelho falava a verdade.

Branca de Neve, porém, ia crescendo e ficando cada vez mais bonita. Quando completou sete anos, era linda como a luz do dia, mais linda que a própria Rainha. E um dia, quando a Rainha perguntou ao espelho quem era a mais bela de todas, ele respondeu:

"De todas daqui, a mais bela é você,

mas Branca de Neve, é fácil de ver,

cresceu mais formosa que a própria Rainha,

mais bela que ela este espelho não tinha."

— O Espelho

A Rainha levou um susto e ficou amarela e verde de inveja. Daquela hora em diante, sempre que olhava para Branca de Neve, o coração se revirava no peito, de tanto que odiava a menina.

A inveja e o orgulho foram crescendo no coração dela como erva daninha, e ela não tinha mais sossego, nem de dia nem de noite. Por fim, chamou um caçador e ordenou:

— Leve a menina para o fundo da floresta. Não quero mais vê-la diante dos meus olhos. Mate-a e traga-me o coração dela como prova.

O caçador obedeceu e a levou. Mas, quando puxou a faca e já ia atravessar o coração inocente de Branca de Neve, ela começou a chorar e disse:

— Ah, querido caçador, deixe-me viver! Eu fujo para a floresta e nunca mais volto para casa.

Como ela era tão bonita, o caçador teve pena e disse:

— Corra, então, pobre criança.

"Os bichos selvagens logo darão cabo dela", pensou ele; mesmo assim, foi como se tirassem uma pedra do seu coração, por não precisar matá-la. E como, naquele instante, um filhote de javali veio passando, ele o abateu, tirou-lhe o coração e o levou à Rainha como prova. O cozinheiro teve de cozinhá-lo com sal, e a mulher malvada o comeu inteiro, certa de que tinha comido o coração de Branca de Neve.

Agora a pobre menina estava sozinha na floresta imensa, com tanto medo que olhava para cada folha das árvores sem saber o que fazer. Começou a correr, e correu por cima de pedras pontudas e por entre espinhos, e os animais selvagens passavam saltando ao seu lado, mas nenhum lhe fez mal.

Ela correu enquanto as pernas aguentaram, até quase anoitecer. Então avistou uma casinha pequena e entrou para descansar. Dentro da casinha, tudo era pequenino, mas limpo e arrumado como não se pode imaginar. Havia uma mesinha com uma toalha branca como a neve e, sobre ela, sete pratinhos, cada um com sua colherzinha, e sete faquinhas e garfinhos, e sete copinhos. Encostadas na parede, sete caminhas enfileiradas, forradas com lençóis brancos como a neve.

Branca de Neve estava com tanta fome e tanta sede que comeu um pouco de legumes e de pão de cada pratinho e bebeu uma gota de vinho de cada copinho, pois não queria tirar tudo de um só. Depois, de tão cansada, foi se deitar, mas nenhuma cama lhe servia: uma era comprida demais, outra curta demais. Enfim a sétima ficou boa, e nela ela se deitou, entregou-se a Deus e adormeceu.

Quando já estava bem escuro, chegaram os donos da casinha: eram sete anões que cavavam e escavavam as montanhas em busca de minério. Acenderam suas sete velinhas e, quando a luz encheu a casinha, viram que alguém havia estado ali, pois nem tudo estava na ordem em que tinham deixado.

O primeiro disse:

— Quem se sentou na minha cadeirinha?

O segundo:

— Quem comeu do meu pratinho?

O terceiro:

— Quem beliscou o meu pãozinho?

O quarto:

— Quem provou dos meus leguminhos?

O quinto:

— Quem mexeu no meu garfinho?

O sexto:

— Quem cortou com a minha faquinha?

O sétimo:

— Quem bebeu do meu copinho?

Então o primeiro olhou em volta, viu uma marca funda em sua cama e perguntou:

— Quem subiu na minha caminha?

Os outros vieram correndo, e cada um exclamou:

— Alguém se deitou na minha também.

Mas o sétimo, quando olhou para a sua cama, encontrou Branca de Neve, deitada e adormecida. Chamou os outros, que acorreram com gritinhos de espanto, ergueram as sete velinhas e deixaram a luz cair sobre Branca de Neve.

— Oh, céus — disseram —, que criança linda!

E ficaram tão contentes que não a acordaram, deixando-a dormir na caminha. O sétimo anão dormiu com os companheiros, uma hora com cada um, e assim a noite passou.

Quando amanheceu, Branca de Neve acordou e, ao ver os sete anões, assustou-se. Mas eles foram gentis e perguntaram:

— Qual é o seu nome?

— Meu nome é Branca de Neve — respondeu ela.

— E como você chegou à nossa casa? — quiseram saber os anões.

Então ela contou que a madrasta mandara matá-la, mas que o caçador lhe poupara a vida, e que ela havia corrido o dia inteiro, até enfim encontrar aquela casinha.

Os anões disseram:

— Se você cuidar da nossa casa, cozinhar, arrumar as camas, lavar, costurar e tricotar, e mantiver tudo limpo e em ordem, pode ficar conosco, e nada lhe faltará.

— Sim — disse Branca de Neve —, de todo o coração.

E ficou com eles. Mantinha a casa em ordem; de manhã, eles subiam às montanhas em busca de minério e ouro; à noite, voltavam, e o jantar precisava estar pronto. Como a menina passava o dia inteiro sozinha, os bons anões a preveniram:

— Cuidado com a sua madrasta. Logo ela vai saber que você está aqui. Não deixe ninguém entrar.

A Rainha, acreditando ter comido o coração de Branca de Neve, só conseguia pensar que era de novo a primeira e a mais bela de todas. Foi até o espelho e perguntou:

— Espelho, espelho meu, existe nesta terra alguém mais bela do que eu?

E o espelho respondeu:

"De todas daqui, a mais bela é você,

mas, longe, nos montes, se pode saber:

na casa onde moram os sete anões,

vive Branca de Neve, e mais bela não há, não."

— O Espelho

Ela ficou espantada, pois sabia que o espelho nunca mentia, e entendeu que o caçador a enganara e que Branca de Neve continuava viva.

Então pensou e tornou a pensar em como poderia matá-la, pois, enquanto não fosse a mais bela de toda a terra, a inveja não a deixaria descansar. Quando enfim teve uma ideia, pintou o rosto e vestiu-se como uma velha vendedora ambulante, ficando irreconhecível. Assim disfarçada, atravessou as sete montanhas até a casa dos sete anões, bateu à porta e anunciou:

— Belas mercadorias à venda, bem baratinhas, bem baratinhas.

Branca de Neve espiou pela janela e disse:

— Bom dia, boa mulher. O que você tem para vender?

— Coisa boa, coisa bonita — respondeu ela. — Cadarços de todas as cores.

E mostrou um, trançado em seda colorida.

"Essa mulher honesta eu posso deixar entrar", pensou Branca de Neve. Destrancou a porta e comprou o lindo cadarço.

— Menina — disse a velha —, veja como você está desajeitada. Venha, deixe-me apertar esse corpete direito, ao menos uma vez.

Branca de Neve, sem desconfiar de nada, pôs-se diante dela e deixou que a amarrasse com o cadarço novo. Mas a velha passou o cadarço depressa e o apertou tanto, tanto, que Branca de Neve perdeu o fôlego e caiu como morta.

— Agora quem era a mais bela era você — disse a velha, e saiu às pressas.

Por sorte, já era quase noite, hora de os sete anões voltarem para casa. Quando viram Branca de Neve estendida no chão, imóvel como morta, eles a ergueram e, percebendo o corpete apertado demais, cortaram o cadarço. Aos poucos ela voltou a respirar e, pouco a pouco, tornou à vida. Quando os anões ouviram o que havia acontecido, disseram:

— Aquela velha vendedora não era ninguém menos que a Rainha malvada. Tome cuidado, e não deixe entrar ninguém quando não estivermos com você.

A mulher malvada, mal chegou em casa, foi ao espelho e perguntou:

— Espelho, espelho meu, existe nesta terra alguém mais bela do que eu?

E ele respondeu como antes:

"De todas daqui, a mais bela é você,

mas, longe, nos montes, se pode saber:

na casa onde moram os sete anões,

vive Branca de Neve, e mais bela não há, não."

— O Espelho

Quando ouviu isso, todo o sangue lhe correu ao coração, de tanto susto, pois viu claramente que Branca de Neve tornara a viver.

— Pois agora — disse ela — vou inventar uma coisa que dê fim a você de uma vez.

E, com artes de bruxaria, que ela conhecia bem, fez um pente envenenado. Depois se disfarçou, tomando a figura de outra velha. Assim atravessou as sete montanhas até a casa dos sete anões, bateu à porta e anunciou:

— Boas mercadorias à venda, baratinhas, baratinhas.

Branca de Neve olhou para fora e disse:

— Vá embora. Não posso deixar ninguém entrar.

— Mas olhar você pode — disse a velha, e puxou o pente envenenado, erguendo-o no ar.

O pente agradou tanto à menina que ela se deixou enganar e abriu a porta. Fechado o negócio, a velha disse:

— Agora deixe eu pentear esse cabelo direito, ao menos uma vez.

A pobre Branca de Neve, sem desconfiar de nada, deixou a velha fazer como quisesse. Mas mal o pente lhe tocou os cabelos, o veneno fez efeito, e a menina caiu desacordada.

— Você, modelo de beleza — disse a mulher malvada —, agora está acabada.

E foi embora. Por sorte, faltava pouco para a noite, hora de os sete anões voltarem. Quando viram Branca de Neve caída no chão como morta, desconfiaram na mesma hora da madrasta, procuraram e acharam o pente envenenado. Mal o tiraram de seus cabelos, Branca de Neve voltou a si e contou o que tinha acontecido. Então eles a avisaram mais uma vez que ficasse alerta e não abrisse a porta para ninguém.

Em casa, a Rainha postou-se diante do espelho e perguntou:

— Espelho, espelho meu, existe nesta terra alguém mais bela do que eu?

E ele respondeu como antes:

"De todas daqui, a mais bela é você,

mas, longe, nos montes, se pode saber:

na casa onde moram os sete anões,

vive Branca de Neve, e mais bela não há, não."

— O Espelho

Ao ouvir o espelho falar assim, ela tremeu e sacudiu-se de raiva.

— Branca de Neve vai morrer — gritou —, nem que me custe a própria vida!

Então se trancou num quarto escondido e solitário, aonde ninguém nunca ia, e ali preparou uma maçã envenenadíssima. Por fora, era linda de se ver, branca com a face vermelha, de dar vontade em qualquer um; mas quem comesse um pedacinho certamente morreria.

Quando a maçã ficou pronta, ela pintou o rosto, vestiu-se de camponesa e atravessou as sete montanhas até a casa dos sete anões. Bateu à porta. Branca de Neve pôs a cabeça para fora da janela e disse:

— Não posso deixar ninguém entrar. Os sete anões me proibiram.

— Para mim tanto faz — respondeu a mulher. — Logo, logo me livro das minhas maçãs. Tome, esta aqui eu lhe dou de presente.

— Não — disse Branca de Neve. — Não posso aceitar nada.

— Está com medo de veneno? — disse a velha. — Olhe, vou cortar a maçã em duas metades: você come a parte vermelha, e eu como a branca.

Mas a maçã fora feita com tanta astúcia que só a parte vermelha estava envenenada. Branca de Neve ficou com vontade de provar a linda maçã e, quando viu a camponesa comer a sua metade, não resistiu mais: estendeu a mão e pegou a metade envenenada. Mal o primeiro pedaço lhe entrou na boca, ela caiu morta no chão.

A Rainha a encarou com olhos terríveis, deu uma gargalhada e disse:

— Branca como a neve, vermelha como o sangue, negra como o ébano. Desta vez os anões não vão poder acordar você.

E, quando chegou em casa, perguntou ao espelho quem era a mais bela de todas. E enfim ele respondeu:

"Ó minha Rainha, é fácil dizer:

nesta terra inteira, a mais bela é você."

— O Espelho

Então o seu coração invejoso teve descanso — tanto descanso quanto um coração invejoso pode ter.

Os anões, quando voltaram para casa à noitinha, encontraram Branca de Neve estendida no chão. Não saía mais fôlego algum de sua boca: estava morta. Eles a levantaram, procuraram alguma coisa envenenada, desataram seu corpete, pentearam seus cabelos, lavaram-na com água e com vinho, mas nada adiantou. A querida menina estava morta, e morta ficou. Deitaram-na num caixão, sentaram-se os sete ao redor e a choraram, e choraram por três dias inteiros. Iam enterrá-la, mas ela parecia ainda viva, com suas lindas faces coradas.

Eles disseram:

— Não podemos deitá-la na terra escura.

E mandaram fazer um caixão transparente, todo de vidro, para que pudesse ser vista de todos os lados, e a colocaram dentro dele, e escreveram nele o seu nome em letras douradas, e que era filha de um rei. Depois levaram o caixão para o alto da montanha, e um deles sempre ficava por perto, velando. E vieram também os pássaros chorar por Branca de Neve: primeiro uma coruja, depois um corvo e, por último, uma pombinha.

E Branca de Neve ficou muito, muito tempo deitada no caixão, e não se desfez; parecia apenas dormir, pois continuava branca como a neve, vermelha como o sangue, com os cabelos negros como o ébano.

Aconteceu, porém, que o filho de um rei entrou na floresta e chegou à casa dos anões para passar a noite. Viu o caixão na montanha, e dentro dele a bela Branca de Neve, e leu o que estava escrito em letras douradas. Então disse aos anões:

— Deixem-me levar o caixão. Eu lhes dou o que quiserem por ele.

Mas os anões responderam:

— Não nos separamos dele nem por todo o ouro do mundo.

Então ele disse:

— Deem-no a mim de presente, pois não posso mais viver sem ver Branca de Neve. Vou honrá-la e estimá-la como o meu bem mais precioso.

Diante dessas palavras, os bons anões tiveram pena dele e lhe deram o caixão.

O príncipe mandou que seus criados o carregassem nos ombros. E aconteceu que eles tropeçaram num arbusto e, com o solavanco, o pedaço de maçã envenenada que Branca de Neve havia mordido saltou-lhe da garganta. Pouco depois ela abriu os olhos, ergueu a tampa do caixão, sentou-se e estava viva outra vez.

— Oh, céus, onde estou? — exclamou ela.

O príncipe, cheio de alegria, disse:

— Você está comigo.

Contou-lhe tudo o que havia acontecido e disse:

— Eu amo você mais do que tudo no mundo. Venha comigo ao castelo do meu pai; você será minha esposa.

Branca de Neve aceitou de bom grado e foi com ele, e o casamento foi celebrado com grande esplendor e magnificência.

Para a festa, porém, também foi convidada a madrasta malvada de Branca de Neve. Depois de se vestir com roupas belíssimas, ela foi ao espelho e perguntou:

— Espelho, espelho meu, existe nesta terra alguém mais bela do que eu?

O espelho respondeu:

"De todas daqui, a mais bela é você,

mas a jovem Rainha, é fácil de ver,

é mil vezes mais bela ainda."

— O Espelho

Então a mulher malvada soltou uma praga e ficou tão aflita, tão completamente aflita, que não sabia o que fazer. Primeiro não queria ir ao casamento de jeito nenhum; mas não teve sossego: precisava ir e ver a jovem Rainha. E, quando entrou, reconheceu Branca de Neve e ficou paralisada de raiva e de medo, sem conseguir se mexer. Mas sapatos de ferro já tinham sido postos sobre brasas, e foram trazidos com tenazes e colocados diante dela. Ela foi obrigada a calçar os sapatos em brasa e a dançar com eles, até cair morta.

Você reparou como Branca de Neve foi salva tantas vezes? Primeiro pela pena do caçador, depois pelo cuidado dos anões. Deus costuma proteger os pequenos assim: pelas mãos boas das pessoas que cruzam o caminho deles.

❤️ ✝️ ❤️

Moral da História

A inveja e o orgulho não deixam o coração descansar e acabam derrubando quem os alimenta. Já a bondade e a pureza de coração, mesmo passando por provações, encontram no fim o cuidado, a amizade e o amor.

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