Cinderela; ou, O Sapatinho de Cristal
Contos de Fadas

Cinderela; ou, O Sapatinho de Cristal

por Charles Perrault

Idades 7-9
14 min de leitura

Era uma vez um cavalheiro que se casou, em segundas núpcias, com a mulher mais orgulhosa e arrogante que jamais se viu. Ela tinha, do primeiro casamento, duas filhas do mesmo gênio, parecidas com ela em tudo. Ele também tinha, de outra esposa, uma filha ainda jovem, mas de uma bondade e de uma doçura sem igual — herdadas da mãe, que tinha sido a melhor criatura do mundo.

Mal as festas do casamento terminaram, a madrasta mostrou quem realmente era. Ela não suportava as boas qualidades daquela menina, ainda mais porque, perto dela, suas próprias filhas pareciam ainda mais antipáticas. Deu-lhe os trabalhos mais pesados da casa: era a menina quem lavava a louça e esfregava as escadas, quem arrumava o quarto da senhora e os das suas filhas. A pobrezinha suportava tudo com paciência e não ousava se queixar ao pai, que só iria repreendê-la, pois a esposa o governava por completo.

Quando terminava o trabalho, ela costumava se sentar no canto da chaminé, entre as cinzas e os carvões — e por isso na casa a chamavam de Menina das Cinzas. Só a irmã mais nova, que não era tão grosseira quanto a mais velha, a chamava de Cinderela. E, mesmo assim, com suas roupas humildes, Cinderela era cem vezes mais bonita do que as irmãs, por mais ricamente que elas se vestissem.

Aconteceu que o filho do Rei deu um baile e convidou todas as pessoas importantes. Nossas duas senhoritas também foram convidadas, pois faziam grande figura entre a nobreza. Ficaram contentíssimas com o convite e maravilhosamente ocupadas em escolher os vestidos e os penteados que melhor lhes caíssem. Trabalho novo para Cinderela, é claro: era ela quem passava as roupas das irmãs e engomava seus babados.

Cinderela ainda era consultada em tudo, porque tinha muito bom gosto e sempre aconselhava para o melhor. Ofereceu-se até para penteá-las, o que elas aceitaram de muito boa vontade. Enquanto as penteava, elas lhe disseram:

— Cinderela, você não gostaria de ir ao baile?

— Ah, vocês estão caçoando de mim — disse ela. — Baile não é lugar para alguém como eu.

— Você tem razão — responderam elas. — Todo mundo iria rir de ver uma Menina das Cinzas num baile.

Enfim o grande dia chegou. As duas partiram para a Corte, e Cinderela as seguiu com os olhos enquanto pôde. Quando as perdeu de vista, começou a chorar.

Cinderela chorando enquanto as meias-irmãs partem para o baile
Cinderela assiste tristemente enquanto as meias-irmãs partem para o baile real.

Sua madrinha, que a viu toda em lágrimas, perguntou o que ela tinha.

— Eu queria tanto... eu queria tanto... — Mas ela não conseguia dizer o resto, de tanto que chorava e soluçava.

A madrinha, que era Fada, disse:

— Você queria ir ao baile, não é verdade?

— Queria — respondeu Cinderela, com um grande suspiro.

— Pois bem: seja uma boa menina, que eu dou um jeito de você ir. — Levou-a então para o quarto e disse: — Corra até o jardim e traga-me uma abóbora.

Cinderela foi na mesma hora colher a mais bonita que encontrou e a trouxe para a madrinha, sem conseguir imaginar como uma abóbora poderia levá-la ao baile. A madrinha escavou a abóbora por dentro, deixando só a casca; depois bateu nela com a varinha, e a abóbora virou, num instante, uma bela carruagem toda dourada.

Foi então olhar a ratoeira, onde encontrou seis camundongos vivos, e mandou Cinderela erguer um pouquinho a portinhola. Em cada camundongo que saía ela dava um toquinho de varinha, e o camundongo virava na hora um belo cavalo — e assim se formou uma magnífica parelha de seis cavalos, de um bonito cinza rajado.

Faltava um cocheiro, e Cinderela disse:

— Vou ver se não há uma ratazana na outra armadilha. Podemos fazer dela um cocheiro.

— Você tem razão — respondeu a madrinha. — Vá ver.

Cinderela trouxe a armadilha, e dentro havia três ratazanas enormes. A Fada escolheu a de barba mais comprida e a tocou com a varinha; ela virou um cocheiro gordo e bem-disposto, dono dos bigodes mais elegantes que já se viram.

Depois a madrinha lhe disse:

— Volte ao jardim, que atrás do regador você vai encontrar seis lagartixas. Traga todas para mim.

Mal Cinderela as trouxe, a madrinha as transformou em seis lacaios, que subiram no mesmo instante para a traseira da carruagem, com libres enfeitadas de ouro e prata. A Fada disse então a Cinderela:

— Pronto: aí está com que ir ao baile. Você não está contente?

— Estou, sim — respondeu ela. — Mas será que vou assim mesmo, com estas roupas feias?

A madrinha apenas a tocou com a varinha e, no mesmo momento, as roupas de Cinderela se transformaram em vestes de ouro e prata, todas bordadas de pedrarias. Por fim, deu-lhe um par de sapatinhos de cristal, os mais bonitos do mundo inteiro.

A fada madrinha transformando Cinderela
A fada madrinha transforma Cinderela para o baile.

Assim vestida, ela subiu na carruagem. Mas a madrinha lhe recomendou, acima de tudo, que não passasse da meia-noite, avisando que, se ficasse no baile um instante a mais, a carruagem voltaria a ser abóbora; os cavalos, camundongos; o cocheiro, ratazana; os lacaios, lagartixas; e as roupas ficariam como eram antes.

Ela prometeu à madrinha que sairia do baile antes da meia-noite, sem falta. E partiu, mal cabendo em si de alegria. O filho do Rei, avisado de que tinha chegado uma grande princesa que ninguém conhecia, correu para recebê-la. Deu-lhe a mão quando ela desceu da carruagem e a conduziu ao salão, no meio de todos os convidados.

Fez-se então um silêncio profundo. As danças pararam, os violinos se calaram, de tão atentos que todos ficaram contemplando a beleza daquela desconhecida. Só se ouvia um murmúrio de admiração: como aquela moça era linda. O próprio Rei, velho como era, não se cansava de olhá-la, e comentou baixinho com a Rainha que fazia muito tempo que não via criatura tão bela e encantadora.

O filho do Rei a levou ao lugar de honra e depois a tirou para dançar. Ela dançou com tanta graça que a admiração só aumentou. Foi sentar-se ao lado das irmãs e as tratou com mil gentilezas, repartindo com elas as laranjas e as cidras que o Príncipe lhe dera — o que as deixou muito espantadas, pois não a reconheceram.

Enquanto conversava assim com as irmãs, Cinderela ouviu o relógio bater onze horas e três quartos. Fez logo uma grande reverência a todos e saiu o mais depressa que pôde.

Chegando em casa, correu à procura da madrinha e, depois de agradecer, disse que gostaria muito de voltar ao baile no dia seguinte, porque o filho do Rei a tinha convidado. Estava ainda contando à madrinha tudo o que acontecera no baile, quando as duas irmãs bateram na porta. Cinderela correu a abrir.

— Como vocês demoraram — disse ela, bocejando, esfregando os olhos e se espreguiçando como quem acabou de acordar.

— Se você tivesse ido ao baile, não teria sentido o tempo passar — disse uma das irmãs. — Apareceu lá a princesa mais bela que olhos já viram. Ela nos fez mil gentilezas e nos deu laranjas e cidras.

Cinderela não cabia em si de contentamento. Perguntou o nome da tal princesa; mas elas responderam que ninguém sabia, e que o filho do Rei daria tudo para descobrir.

No dia seguinte, as duas irmãs voltaram ao baile — e Cinderela também, ainda mais magnificamente vestida do que da primeira vez. O filho do Rei não saiu do seu lado nem um momento, sempre com elogios e palavras carinhosas. Nada daquilo era cansativo, e Cinderela acabou esquecendo por completo a recomendação da madrinha. Quando pensava que ainda não eram onze horas, ouviu soar a primeira badalada da meia-noite.

Levantou-se e fugiu, ligeira como uma corça. O Príncipe correu atrás, mas não conseguiu alcançá-la. Na pressa, ela deixou cair um dos sapatinhos de cristal, que o Príncipe apanhou com todo o cuidado.

Cinderela chegou em casa esbaforida, sem carruagem, sem lacaios, com as roupas velhas de sempre. De toda a sua elegância só restava um dos sapatinhos, o par daquele que tinha deixado cair. Perguntaram aos guardas do portão do palácio se não tinham visto sair uma princesa. Eles disseram que não viram sair ninguém, a não ser uma moça muito malvestida.

Quando as duas irmãs voltaram do baile, Cinderela perguntou se tinham se divertido e se a bela dama estivera lá de novo. Elas disseram que sim, mas que ela saíra correndo quando soou a meia-noite, com tanta pressa que deixou cair um dos seus sapatinhos de cristal, o mais lindo do mundo — e que o filho do Rei o apanhara. Contaram ainda que o Príncipe estava perdidamente apaixonado e que daria tudo para saber quem era a dona do sapatinho.

Alguns dias depois, o filho do Rei mandou anunciar, ao som de trombetas, que se casaria com aquela em cujo pé o sapatinho servisse com perfeição. Os enviados começaram experimentando o sapatinho nas princesas, depois nas duquesas e em toda a Corte, mas foi em vão. Levaram-no às duas irmãs, que fizeram tudo o que podiam para enfiar o pé no sapatinho, sem conseguir.

Cinderela, que assistia a tudo e reconheceu o seu sapatinho, disse rindo:

— Deixem-me ver se ele não serve em mim.

As irmãs caíram na risada e começaram a caçoar dela. Mas o cavalheiro encarregado da prova olhou para Cinderela com atenção e, achando-a muito bonita, disse que era justo: ele tinha ordens de deixar todas experimentarem.

Pediu a Cinderela que se sentasse e, calçando o sapatinho no seu pé, viu que ele entrava sem esforço nenhum e lhe assentava como se fosse de cera. Grande foi o espanto das duas irmãs — e maior ainda quando Cinderela tirou do bolso o outro sapatinho e o calçou no outro pé.

Nisso entrou a madrinha, que tocou com a varinha as roupas de Cinderela e as fez mais ricas e magníficas do que todas as que ela já tinha usado.

Então as duas irmãs reconheceram nela a bela dama que tinham visto no baile. Atiraram-se aos seus pés, pedindo perdão por todos os maus-tratos que lhe tinham feito sofrer. Cinderela as levantou e as abraçou, dizendo, com lágrimas nos olhos, que as perdoava de todo o coração e que só pedia que elas a amassem sempre.

Levaram-na ao jovem Príncipe, vestida como estava. Ele a achou mais encantadora do que nunca e, poucos dias depois, casou-se com ela.

E Cinderela, que era tão boa quanto bela, deu às duas irmãs aposentos no palácio e, naquele mesmo dia, casou as duas com dois grandes senhores da Corte.

❤️ ✝️ ❤️

Moral da História

A beleza encanta, mas a bondade vale ainda mais. Um coração gentil, que sabe perdoar, brilha mais do que a joia mais fina e o vestido mais elegante — e foi esse brilho que fez de Cinderela uma rainha.

📖 Histórias Similares

O Gato de Botas

O Gato de Botas

12 min de leitura

De herança, o filho mais novo do moleiro recebeu apenas um gato. Mas era um gato de muitas ideias — e, com um saco, um par de botas e muita lábia, ele vai apresentar ao Rei o senhor Marquês de Carabás.

Ler história→
O Pequeno Polegar - Parte 1: Perdidos na Floresta

O Pequeno Polegar - Parte 1: Perdidos na Floresta

13 min de leitura

O caçula de sete irmãos é pequenino como um polegar, mas atento como ninguém. Quando os meninos se veem perdidos na floresta escura, é a esperteza dele que aponta o caminho de casa.

Ler história→
Rique do Topete

Rique do Topete

14 min de leitura

Um príncipe muito inteligente, mas nada bonito, e uma princesa muito bonita, mas nada esperta, descobrem juntos que o carinho muda o jeito como enxergamos as pessoas.

Ler história→