Há muito tempo, na Inglaterra, o bom rei Uther Pendragon morreu sem deixar um herdeiro conhecido. O reino ficou sem rei, e os senhores poderosos passaram a lutar entre si pelo trono. Foram anos de guerra e de tristeza, e o povo esperava por um rei justo que trouxesse de volta a paz.
O sábio mago Merlin sabia que existia um verdadeiro rei, escolhido pelo destino. Mas guardava o segredo, esperando o momento certo de revelá-lo.
Então, certo dia, algo extraordinário apareceu na praça da grande catedral de Londres. Era uma enorme pedra de mármore, e sobre ela, uma bigorna de aço. Atravessando a bigorna, fincada até o meio da lâmina, brilhava uma espada magnífica. Em letras douradas, gravadas na pedra, lia-se: "Quem tirar esta espada desta pedra e desta bigorna é, por direito de nascimento, rei de toda a Inglaterra."

Todos os grandes senhores da Inglaterra vieram tentar puxar a espada, e cada um acreditava que seria o novo rei. Um por um, eles seguraram o punho e puxaram com toda a força. A espada, porém, não se movia nem um pouco, como se estivesse fundida ao aço e à pedra. Os cavaleiros mais fortes tentaram, e nada. Os lordes mais nobres tentaram, e nada. Os anos passaram, e a espada continuava ali, esperando.

Longe da cidade, no castelo de Sir Ector, vivia um jovem chamado Arthur. Ele não sabia, mas havia sido entregue a Sir Ector ainda bebê, sob a proteção secreta de Merlin. Arthur tinha uns quinze anos e não era príncipe nem nobre. Era apenas o escudeiro de Kay, o filho de Sir Ector, e cuidava das armas e do cavalo do irmão de criação.
Arthur era humilde, trabalhador e bondoso. Todos gostavam dele, mas ninguém imaginava que aquele menino pudesse ser alguém especial.
Um dia, foi anunciado um grande torneio em Londres. Kay, que acabara de ser feito cavaleiro, mal podia esperar para participar. Sir Ector, Kay e Arthur viajaram juntos para a cidade, e Arthur levava todo o equipamento de Kay: a armadura, o escudo, as lanças.

No dia do torneio, quando chegaram ao campo, Kay percebeu algo terrível: havia esquecido a espada.
— Arthur! — gritou Kay. — Esqueci minha espada na hospedaria. Corra e traga-a para mim, depressa.
Arthur montou no cavalo e galopou de volta. Mas, quando chegou, a hospedaria estava fechada e trancada, pois todos tinham ido ao torneio.
— O que eu faço agora? — pensou Arthur. — Sem espada, Kay não pode lutar.
Ele cavalgou aflito pelas ruas vazias de Londres, procurando uma espada em algum lugar. Foi então que viu algo brilhando na praça da catedral: era a espada fincada na bigorna, sobre a pedra. Arthur não sabia nada da profecia. Nunca tinha ouvido falar dela. Para ele, aquela era apenas uma espada, e Kay precisava de uma.

Arthur desceu do cavalo, aproximou-se da pedra e segurou o punho da espada. Não pensou muito, não fez discurso. Apenas puxou. E a espada deslizou para fora da bigorna com toda a facilidade, como se estivesse só encostada ali.
Arthur ficou surpreso de ver como tinha sido fácil. Olhou a espada magnífica brilhando ao sol e pensou que Kay ficaria contente. Depois cavalgou de volta ao campo de torneio e entregou a espada ao irmão.
Kay reconheceu a espada no mesmo instante, e seus olhos se arregalaram.
— Pai, olhe! Eu tirei a espada da pedra. Eu sou o rei da Inglaterra!
Sir Ector olhou a espada com desconfiança.
— Você tirou esta espada da pedra? Você mesmo?
Kay hesitou. Não podia mentir para o pai.
— Não... Foi Arthur quem a trouxe para mim.

Sir Ector ficou muito sério.
— Arthur, onde você conseguiu esta espada?
— Na pedra da praça da catedral, senhor — respondeu Arthur, sem entender. — Kay tinha esquecido a espada dele, e eu precisava de uma.
— Mostre-me — disse Sir Ector, solene.
Foram todos até a praça. Sir Ector olhou para a bigorna vazia, depois para Arthur, e ordenou que ele colocasse a espada de volta. Arthur, confuso mas obediente, enfiou a lâmina na bigorna, e ela ficou presa como antes.
— Agora, Kay, tente tirá-la — disse Sir Ector.
Kay puxou com todas as suas forças, e a espada não se moveu. Então o próprio Sir Ector segurou o punho e puxou também, com os braços fortes de velho cavaleiro. A espada continuou firme, sem ceder um dedo.
— Agora você, Arthur.

Arthur segurou o punho e puxou. A espada saiu tão facilmente quanto antes. Então Sir Ector e Kay se ajoelharam diante dele.
— Pai, Kay, o que estão fazendo? — exclamou Arthur, assustado. — Levantem-se, por favor.
Sir Ector tinha lágrimas nos olhos.
— Meu filho, eu não sou seu verdadeiro pai. Merlin trouxe você para mim quando era bebê, para que crescesse em segurança. Mas agora chegou a sua hora. Você é o verdadeiro rei da Inglaterra.
Arthur mal podia acreditar.
— Eu? Um rei? Mas eu sou apenas um escudeiro...
— Você tirou a espada da pedra — disse Sir Ector. — Só o verdadeiro rei poderia fazer isso. É o seu destino.
A notícia se espalhou depressa, e logo toda Londres se reuniu na praça da catedral. Os grandes senhores ficaram furiosos. Um menino, um simples escudeiro, rei da Inglaterra? Exigiram que a prova fosse repetida diante de todos.
Um por um, cada grande senhor tentou puxar a espada, e nenhum conseguiu. Então Arthur, sob os olhos de todos, puxou-a mais uma vez, e ela saiu com facilidade, brilhando ao sol.
Um velho cavaleiro se ajoelhou.
— Salve, Arthur, nosso rei!
Depois outro se ajoelhou, e mais outro. Logo a multidão inteira estava de joelhos, aclamando o Rei Arthur.

Alguns senhores ainda duvidavam e resmungavam. Mas Merlin, o grande mago, apareceu diante do povo e confirmou tudo.
— Este é Arthur, filho do rei Uther Pendragon. Ele foi escondido para sua proteção, mas agora chegou o momento dele. Ele tirou a espada que nenhum outro pôde tirar. Ele é o rei escolhido pelo destino.
Na catedral de Londres, Arthur foi coroado rei da Inglaterra. Era jovem e estava assustado, mas também decidido. Diante de todos, fez um juramento solene: prometeu ser um rei justo, proteger os fracos, defender o que é certo e trazer paz a toda a Inglaterra.
O jovem que fora apenas um escudeiro agora era o Rei Arthur. E este foi só o começo de sua lenda. Arthur ainda construiria Camelot, reuniria os Cavaleiros da Távola Redonda e se tornaria o maior rei que a Inglaterra já conheceu.

Tudo porque, sem saber, ele puxou uma espada de uma pedra. Não para si mesmo, mas para ajudar o irmão. E às vezes é assim que os verdadeiros heróis se revelam: fazendo o que é certo, mesmo sem saber que são especiais.
Reflexão



