Um dia, um jovem alto e forte chegou a Camelot. Ele era bonito e bem-feito de corpo, com mãos grandes e firmes, mas suas roupas eram simples, e ninguém ali imaginou que fosse nobre. O jovem atravessou o salão e se ajoelhou diante do Rei Arthur.
— Majestade, tenho três pedidos para fazer.
— Fale — disse Arthur, curioso.
— Primeiro, quero comida e abrigo por um ano. Segundo, ao final desse ano, farei meus outros dois pedidos. E o terceiro... bem, esse ainda deve esperar.
Arthur ficou intrigado com aquele rapaz tão estranho.
— Qual é o seu nome?
— Não posso dizer meu nome, senhor. Mas podem me chamar como quiserem.
Sir Kay, o mestre da despensa, riu do jovem.
— Olhem para essas mãos grandes e limpas. Belas mãos, que nunca trabalharam. Vou chamá-lo de Beaumains, Belas Mãos. Venha, você vai trabalhar na cozinha.
E assim o jovem misterioso foi trabalhar nas cozinhas de Camelot.
Beaumains trabalhou na cozinha por um ano inteiro. Lavava pratos, carregava água, limpava panelas e ajudava a preparar os banquetes. Sir Kay era duro com ele, sempre zombando e reservando para o rapaz as tarefas mais pesadas, mas Beaumains nunca reclamava. Trabalhava com vontade e sorria.
Os outros servos gostavam dele. Diziam que Beaumains era forte como um touro e carregava sozinho o que três homens carregavam. Mas o que mais impressionava era a sua bondade. Ele era gentil com todos, ajudava os servos mais fracos e não se zangava nunca, nem quando Kay o tratava mal.
Sir Lancelot e Sir Gawain às vezes o viam trabalhando.
— Há algo especial nesse rapaz — disse Lancelot. — Ele não é um servo comum.
— Concordo — disse Gawain. — A forma como ele se move, como ele se porta... há nobreza nele.
Mas Beaumains continuava seu trabalho humildemente, esperando.
Um ano se passou, e chegou a festa de Pentecostes, o dia em que Arthur esperava por alguma aventura antes de se sentar para comer. De repente, uma donzela entrou no salão, aflita.
— Rei Arthur, preciso de ajuda! Minha irmã, Lady Lyonesse, está presa em seu próprio castelo. Um terrível cavaleiro, o Cavaleiro Vermelho, mantém o castelo sitiado. Por favor, envie um cavaleiro para salvá-la.
Arthur olhou para seus cavaleiros. Mas antes que alguém pudesse se oferecer, Beaumains saiu da cozinha e se ajoelhou diante do rei.
— Majestade, há um ano pedi comida e abrigo, e o senhor me deu. Agora faço meu segundo pedido: deixe-me ir nesta aventura e salvar Lady Lyonesse.
O salão ficou em silêncio. Todos olhavam, surpresos. O rapaz da cozinha queria ser cavaleiro?
Sir Kay riu alto.
— Beaumains quer ser cavaleiro? Ele mal sabe segurar uma espada. Só sabe lavar pratos.
Mas Arthur viu algo nos olhos de Beaumains.
— Você terá esta aventura, Beaumains. Mas sem armadura nem cavalo apropriado, como irá?
— Esse é o meu terceiro pedido, majestade: que Sir Lancelot, o maior dos cavaleiros, me faça cavaleiro quando eu provar ser digno.
Lancelot sorriu.
— Aceito. Quando você provar o seu valor, eu mesmo o farei cavaleiro.
A donzela, chamada Linet, ficou furiosa.
— O quê? Vocês me dão um rapaz da cozinha? Eu pedi um cavaleiro de verdade, não um lavador de pratos!
Ela partiu em seu cavalo, muito brava. Beaumains conseguiu um cavalo velho e a seguiu. E Sir Kay, ainda zombando, foi atrás deles, dizendo que ia ensinar uma lição àquele rapaz de cozinha.
Na estrada, Sir Kay alcançou Beaumains.
— Volte para a cozinha, Beaumains. Este não é lugar para você.
Kay atacou com a lança. Mas Beaumains, que durante aquele ano havia treinado em segredo com os guardas, desviou do golpe e derrubou Kay do cavalo. Kay ficou atordoado no chão, e Beaumains recolheu a armadura e as armas dele.
— Desculpe, Sir Kay, mas vou precisar disto.
Linet viu tudo e ficou surpresa.
— Talvez você não seja apenas um rapaz de cozinha... mas ainda tem muito o que provar.
Eles seguiram viagem. Logo encontraram outro cavaleiro bloqueando o caminho: o Cavaleiro Negro.
— Ninguém passa por aqui! — rugiu ele.
Beaumains, agora de armadura, avançou. A batalha foi feroz, mas ele lutou com tanta habilidade que venceu o Cavaleiro Negro.
— Quem treinou você? — perguntou Linet, admirada.
— Pratiquei em segredo, à noite — disse Beaumains. — E aprendi observando os grandes cavaleiros de Camelot.
A jornada continuou. Beaumains venceu o Cavaleiro Verde numa floresta escura e, depois, o Cavaleiro Azul, perto de um rio fundo. A cada combate, lutava com mais habilidade e mais coragem, e Linet começou a admirá-lo.
— Você não é só corajoso, é nobre — disse ela. — Quem é você, afinal?
— Logo saberá — prometeu Beaumains.
Enfim chegaram ao castelo de Lady Lyonesse. Ali estava o terrível Cavaleiro Vermelho, um gigante de homem, com a armadura vermelha como sangue.
— Mais um cavaleiro para morrer? — riu ele. — Venha, então!
Foi a batalha mais dura de todas. Durou horas; o sol nasceu e se pôs enquanto os dois lutavam. Beaumains foi ferido, mas não desistiu. O Cavaleiro Vermelho era forte, porém Beaumains era determinado. Por fim, com um golpe poderoso, ele derrubou o Cavaleiro Vermelho e encostou a espada no pescoço dele.
— Misericórdia! — gritou o Cavaleiro Vermelho.
— Vá a Camelot — disse Beaumains. — Ajoelhe-se diante do Rei Arthur e peça perdão pelos seus crimes.
As portas do castelo se abriram, e Lady Lyonesse saiu, ainda mais linda que a irmã. Quando viu Beaumains, seu coração disparou. Ali estava o seu salvador.
— Quem é você, nobre cavaleiro? — perguntou ela.
Havia chegado a hora de revelar a verdade. Beaumains tirou o elmo.
— Meu nome é Gareth — disse ele. — Sou filho do Rei Lot das Ilhas e irmão de Sir Gawain. Sou príncipe por nascimento.
Todos ficaram espantados. O rapaz da cozinha era, na verdade, um príncipe.
— Mas por que você se escondeu? — perguntou Linet. — Por que trabalhou como servo?
— Porque eu queria provar meu valor pelas minhas ações, não pelo meu nome — explicou Gareth. — Qualquer um pode nascer príncipe, mas ser verdadeiramente nobre, isso se conquista. Trabalhei humildemente para aprender humildade. Fui zombado para aprender paciência. Lutei sem nome para provar que a honra vem do que você faz, não de quem você é.
Sir Lancelot, que havia acompanhado a aventura de longe, apareceu sorrindo.
— Você provou ser digno além de qualquer dúvida. Ajoelhe-se, Gareth.
Gareth se ajoelhou, e Lancelot tocou a espada em seus ombros.
— Eu o faço cavaleiro. Levante-se, Sir Gareth de Orkney.
Voltaram todos a Camelot em grande procissão, e o Cavaleiro Vermelho veio junto, para pedir perdão. Quando chegaram, Arthur abraçou Gareth.
— Sobrinho, você me encheu de orgulho. Não por ser príncipe, mas por ter tido a coragem de provar seu valor do jeito mais difícil.
Sir Kay, envergonhado, ajoelhou-se diante de Gareth.
— Perdoe-me, Sir Gareth. Fui cruel quando você trabalhava nas cozinhas.
Gareth sorriu e o ajudou a se levantar.
— Não há nada a perdoar, Sir Kay. Você me ensinou humildade, a maior de todas as virtudes.
Gareth se tornou um dos cavaleiros mais amados da Távola Redonda e se casou com Lady Lyonesse, e os dois viveram felizes. Mas ele nunca esqueceu o que aprendeu. Tratava sempre os servos e as pessoas simples com respeito, porque sabia bem como era ser tratado como inferior. E essa bondade o tornou ainda mais nobre.
Reflexão



