Sir Gawain e o Cavaleiro Verde
Medieval & Lendário

Sir Gawain e o Cavaleiro Verde

por Lendas Arturianas

Idades 10-12
13 min de leitura

Conteúdo Sensível

Esta história contém uma cena de decapitação mágica (não real). Adequado para leitores mais velhos que entendem a diferença entre magia e realidade.

Era véspera de Ano Novo em Camelot. O grande salão estava enfeitado com ramos verdes e bagas vermelhas, e o Rei Arthur, a Rainha Guinevere e todos os Cavaleiros da Távola Redonda estavam reunidos para um magnífico banquete. Havia música, risadas e alegria por toda parte, pois era a festa mais importante do ano.

Arthur tinha uma tradição: no Ano Novo, ele não comia enquanto algo maravilhoso não acontecesse — uma aventura extraordinária, uma história incrível ou um desafio digno de seus cavaleiros. Todos esperavam para ver que maravilha aconteceria naquele ano.

De repente, as grandes portas do salão se abriram com um estrondo.

Entrou a figura mais estranha que alguém já tinha visto. Era um cavaleiro imenso, montado num cavalo gigante, e tudo nele era verde. A pele era verde como grama, o cabelo, verde como folhas, as roupas, verde-esmeralda. Até o cavalo era verde como musgo, e a armadura brilhava em mil tons de verde. Nas mãos, ele carregava duas coisas: um machado enorme e um ramo de azevinho.

O salão ficou em silêncio absoluto. Todos olhavam de boca aberta enquanto o Cavaleiro Verde cavalgava até o centro do salão. Então ele falou, com uma voz que parecia trovão:

— Onde está o capitão desta companhia? Tenho um jogo para propor. Qual cavaleiro de Camelot é corajoso o bastante para aceitar meu desafio?

Arthur se levantou.

— Eu sou Arthur, rei desta terra. Seja bem-vindo a Camelot. Que jogo você propõe?

O Cavaleiro Verde riu, uma risada profunda e estranha.

— Um jogo simples. Alguém aqui pode me dar um golpe com este machado. Um único golpe, tão forte quanto quiser.

Os cavaleiros se entreolharam. Aquilo parecia fácil demais.

— Mas há uma condição — continuou o Cavaleiro Verde, com um sorriso sombrio. — Daqui a um ano e um dia, aquele que me golpear deve vir me encontrar na minha Capela Verde. Lá, eu darei nele um golpe igual ao que ele me deu.

Agora os cavaleiros entenderam. Quem golpeasse o Cavaleiro Verde teria de receber um golpe de volta, um ano depois. Ninguém se moveu, e ninguém falou.

Arthur ficou vermelho de raiva ao ver seus cavaleiros parados como covardes. Ele mesmo pegou o machado.

— Se ninguém aceita, aceito eu.

Mas antes que Arthur pudesse agir, um jovem cavaleiro se levantou.

— Meu rei — disse o jovem —, permita que eu aceite este desafio. Sou o mais fraco e o menos sábio destes cavaleiros; se eu falhar, a perda será pequena. Mas você, meu rei, é precioso demais para se arriscar.

Era Sir Gawain, sobrinho de Arthur e um dos cavaleiros mais nobres da Távola Redonda. Arthur hesitou, mas viu a determinação nos olhos do sobrinho.

— Que seja, então. O desafio é seu, Sir Gawain.

Gawain pegou o machado gigante. O Cavaleiro Verde desceu do cavalo, ajoelhou-se e inclinou a cabeça, expondo o pescoço.

— Dê seu golpe, Sir Gawain. Não tenha medo.

Gawain ergueu o machado no ar e respirou fundo. Então, com toda a sua força, golpeou. A cabeça do Cavaleiro Verde voou pelo ar e rolou pelo chão. Todos esperavam que o corpo caísse morto. Mas não caiu.

O corpo sem cabeça se levantou. Caminhou com toda a calma até onde a cabeça havia rolado, pegou-a pelos cabelos e a ergueu no alto. Os olhos da cabeça se abriram, e a boca falou:

— Bem golpeado, Sir Gawain. Agora lembre-se do seu juramento. Daqui a um ano e um dia, venha me encontrar na Capela Verde, e lá você receberá o golpe que me deu. Não falhe, ou será chamado de covarde para sempre.

O Cavaleiro Verde montou em seu cavalo, ainda segurando a própria cabeça, cavalgou para fora do salão, e as portas se fecharam atrás dele. O silêncio era absoluto. O que eles haviam acabado de presenciar?

Gawain olhou para o machado em suas mãos. Ele havia feito um juramento: dali a um ano, teria de encontrar o Cavaleiro Verde e receber um golpe de machado no pescoço.

— Este machado ficará pendurado acima da Távola Redonda — ordenou Arthur —, para lembrar a todos do juramento de Sir Gawain.

O ano passou depressa. Veio o verão, depois o outono, depois o inverno, e Gawain viveu como sempre, lutando e sendo um bom cavaleiro. Mas nunca esqueceu sua promessa. Quando o outono chegou de novo, ele soube que era hora de partir.

No dia de Todos os Santos, vestiu sua melhor armadura. Em seu escudo havia uma estrela de cinco pontas dourada, símbolo de suas cinco virtudes: generosidade, fraternidade, castidade, cortesia e compaixão.

Arthur e todos os cavaleiros estavam tristes, pois acreditavam que Gawain ia ao encontro da morte. Como alguém poderia sobreviver a um golpe de machado no pescoço? Mas Gawain era corajoso.

— Dei minha palavra. Um cavaleiro não quebra sua palavra.

Ele montou seu cavalo e partiu em busca da Capela Verde.

Gawain viajou por muitas terras desoladas. Lutou contra lobos, ursos e bandidos, passou frio nas montanhas e calor nos vales, e ninguém sabia dizer onde ficava a Capela Verde. Na véspera de Natal, quando já estava quase desistindo, ele avistou um lindo castelo no meio de uma floresta.

Bateu nos portões e foi recebido pelo senhor do castelo, um homem grande, alegre e hospitaleiro, de barba vermelha.

— Seja bem-vindo, Sir Gawain. Fique conosco para o Natal. A Capela Verde é perto daqui; você pode ir até lá no dia marcado.

Gawain, aliviado e grato, passou o Natal no castelo. E o senhor lhe propôs um jogo:

— Vou sair para caçar por três dias. Tudo o que eu caçar, darei a você. E tudo o que você ganhar aqui no castelo, dará a mim. Aceita?

Gawain aceitou. Parecia um jogo inofensivo.

Nos três dias seguintes, coisas estranhas aconteceram. O senhor saía para caçar, e Gawain ficava descansando no castelo. Mas a esposa do senhor vinha visitá-lo e tentava seduzi-lo com palavras doces e belos presentes.

Gawain se viu num dilema difícil. Ela era linda e gentil, mas ele era um cavaleiro honrado e não podia trair a hospitalidade de seu anfitrião. No primeiro dia, ela lhe deu um beijo, e à noite, como parte do jogo, Gawain deu um beijo ao senhor. No segundo dia foram dois beijos, e Gawain devolveu os dois. No terceiro dia, três beijos... e um cinto verde mágico.

— Este cinto protegerá você de qualquer ferimento — disse ela. — Use-o quando encontrar o Cavaleiro Verde.

Gawain aceitou o cinto. À noite, deu os três beijos ao senhor, mas não disse nada sobre o cinto. Pela primeira vez, Gawain havia quebrado sua palavra. Havia escondido alguma coisa.

No dia marcado, Gawain partiu para a Capela Verde. Encontrou um lugar sinistro, uma gruta coberta de verde ao lado de um riacho. E lá estava ele: o Cavaleiro Verde, afiando o machado.

— Ah, Sir Gawain, você veio. Manteve sua palavra. Agora ajoelhe-se e receba seu golpe.

Gawain se ajoelhou e expôs o pescoço. Seu coração batia forte, mas ele não ia fugir. O Cavaleiro Verde ergueu o machado, e Gawain ouviu o assobio da lâmina cortando o ar. Não conseguiu evitar: estremeceu. O machado parou a centímetros de seu pescoço.

— Ora — zombou o Cavaleiro Verde. — Os cavaleiros de Camelot tremem?

— Golpeie de novo — disse Gawain, decidido. — Não vou me mover.

O Cavaleiro Verde levantou o machado outra vez. Desta vez, Gawain não se moveu. O machado desceu... e parou de novo.

— Mais uma vez — disse o Cavaleiro Verde, sorrindo.

Pela terceira vez ele ergueu o machado, e desta vez golpeou de verdade. Mas a lâmina apenas arranhou de leve o pescoço de Gawain, um pequeno corte que mal sangrou.

Gawain pôs-se de pé num salto, aliviado.

— Recebi meu golpe, e minha honra está satisfeita. Se você atacar de novo, vou me defender!

O Cavaleiro Verde riu alto.

— Não é preciso. Seu teste acabou.

Então aconteceu algo espantoso. A pele verde do cavaleiro desapareceu, e ali estava o senhor do castelo, o homem de barba vermelha.

— Eu sou o senhor do castelo, Sir Gawain. Fui transformado em Cavaleiro Verde por magia, para pôr à prova os cavaleiros de Camelot.

— Os três golpes eram testes — explicou ele. — Duas vezes você foi perfeitamente honesto e devolveu os beijos; por isso, duas vezes eu o poupei. Mas no terceiro dia você escondeu o cinto verde. Daí o pequeno corte no pescoço: a marca da sua pequena desonestidade.

Gawain ficou envergonhado. Ele havia falhado; havia escondido o cinto por medo.

— Perdoe-me — disse Gawain. — Fui covarde. Guardei o cinto porque tinha medo de morrer.

— Você é humano — disse o cavaleiro. — E é honesto sobre a sua falha; isso também é honra. Guarde o cinto verde como lembrança: a perfeição é impossível, mas devemos sempre buscar ser melhores.

Gawain voltou para Camelot usando o cinto verde por cima da armadura, como uma lembrança de humildade, e contou toda a história. Os cavaleiros o abraçaram e disseram que qualquer um deles teria falhado pior, e que ser honesto sobre a própria falha era a verdadeira nobreza. E desde então, todos os Cavaleiros da Távola Redonda passaram a usar um cinto verde, para lembrar que são humanos, e não perfeitos, mas que devem sempre buscar a honra e a verdade.

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Reflexão

Gawain aprendeu que ter honra não é nunca falhar, mas ser sincero sobre as próprias falhas e tentar sempre fazer melhor. A verdadeira nobreza está em reconhecer os erros e seguir em frente com humildade.

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