Era Pentecostes em Camelot, e todos os Cavaleiros da Távola Redonda estavam reunidos. A mesa estava posta para o grande banquete, e Arthur, como sempre, esperava que algo maravilhoso acontecesse antes de comer.
De repente, um trovão ecoou pelo salão, embora não houvesse tempestade lá fora. As portas e as janelas se fecharam sozinhas, e uma luz dourada e suave encheu tudo — mais brilhante que o sol, mas sem machucar os olhos.
Então, flutuando no ar acima da Távola Redonda, apareceu algo extraordinário: uma taça coberta com um pano branco que resplandecia. A taça irradiava luz e paz, e todos que a olhavam sentiam o coração se encher de alegria e de amor.
A visão durou apenas alguns instantes e depois desapareceu, tão misteriosamente quanto havia chegado. O salão ficou em silêncio. Todos sabiam o que haviam visto: o Santo Graal, a taça que Jesus Cristo havia usado na Última Ceia.
Sir Gawain foi o primeiro a falar, ainda atordoado pela visão.
— Irmãos, vimos o Santo Graal, mas ele estava coberto e desapareceu. Por isso faço um juramento solene: partirei em busca do Graal até vê-lo desvelado, ou morrerei tentando.
Um por um, todos os cavaleiros da Távola Redonda se levantaram e fizeram o mesmo juramento. Cento e cinquenta cavaleiros juraram buscar o Graal.
O Rei Arthur, porém, ficou triste.
— Meus nobres cavaleiros, temo que esta seja a última vez que estaremos todos juntos. A busca do Graal é perigosa. Muitos partirão e nunca voltarão, e a Távola Redonda pode nunca mais estar completa.
Mas os cavaleiros estavam decididos. Merlin havia previsto que apenas o cavaleiro mais puro e perfeito encontraria o Graal. Quem seria esse cavaleiro?
Entre os cavaleiros que partiram estava Sir Percival. Ele era jovem, puro de coração e determinado. Mas a história dele havia começado de um jeito muito diferente.
Percival crescera escondido numa floresta distante. Sua mãe, Lady Acheflour, o havia criado longe de tudo, pois o pai e os irmãos dele haviam morrido em batalhas, e ela não queria que Percival se tornasse cavaleiro. Um dia, porém, quando Percival tinha quinze anos, ele viu cinco cavaleiros atravessando a floresta. As armaduras brilhavam ao sol, e o menino nunca tinha visto nada tão magnífico.
— Mãe! Mãe! Vi anjos na floresta! — gritou ele.
Sua mãe suspirou.
— Não eram anjos, filho. Eram cavaleiros.
— Então eu serei um cavaleiro — declarou Percival.
Sua mãe chorou, mas sabia que não podia impedi-lo. Deu a ele um cavalo velho e roupas simples, esperando que voltasse logo. Mas Percival partiu para Camelot.
Quando Percival chegou a Camelot em suas roupas rústicas, montado no cavalo velho, muitos riram dele. Mas Arthur viu algo especial naquele jovem.
— Você deseja ser cavaleiro? — perguntou Arthur.
— Mais do que tudo, majestade.
Arthur o aceitou e o treinou. Percival aprendeu depressa, pois tinha talento natural e, mais importante ainda, um coração puro. Ele não lutava por glória nem por ouro, mas porque acreditava no que era certo.
Os anos se passaram, e Percival se tornou um dos melhores cavaleiros da Távola Redonda. E agora partia na maior aventura de todas: a busca do Santo Graal.
Percival cavalgou por muitas terras. Atravessou florestas escuras onde as árvores sussurravam, passou por vales onde dragões dormiam, cruzou rios onde sereias cantavam. Em sua jornada, enfrentou muitos cavaleiros malvados e os venceu, salvou donzelas do perigo e defendeu aldeias contra bandidos. Mas o Graal continuava escondido.
Um dia, Percival chegou a um rio largo. Do outro lado, via-se um castelo magnífico sobre uma colina, mas não havia ponte alguma. Enquanto ele pensava no que fazer, apareceu um barco com um velho pescador.
— Precisa atravessar, jovem cavaleiro? — perguntou o velho.
— Sim, senhor. Busco o Santo Graal.
O velho sorriu de um jeito misterioso.
— Ah, o Graal... Venha, eu o levarei. E depois, jante comigo em meu castelo.
Percival aceitou. O velho o levou pelo rio e o convidou para o castelo — que, para surpresa de Percival, era o mesmo que ele tinha visto da margem.
— Quem é o senhor? — perguntou Percival, admirado.
— Sou o Rei Pescador, guardião do Castelo do Graal — respondeu o velho.
O Rei Pescador era muito idoso e carregava uma ferida que nunca sarava. Só conseguia pescar sentado, e por isso o chamavam de Rei Pescador. O reino inteiro sofria com ele: as terras eram estéreis, nada crescia. Diziam que apenas o cavaleiro que encontrasse o Graal poderia curá-lo.
Naquela noite, Percival jantou no castelo. O salão era magnífico, mas triste, e servidores silenciosos traziam a comida. Foi então que algo extraordinário aconteceu.
Uma procissão entrou no salão. Primeiro veio um jovem carregando uma lança que sangrava — mas o sangue subia pela lança, em vez de descer. Depois, uma donzela com uma bandeja prateada. E, por fim, outra donzela trazendo uma taça coberta com um pano branco. Era o Santo Graal.
Percival sentiu o coração bater forte. Ele queria perguntar sobre a lança, sobre o Graal, sobre a ferida do rei. Mas se lembrou das lições de cortesia que havia aprendido: um cavaleiro não deve fazer perguntas demais. Então Percival ficou em silêncio e não perguntou nada.
A procissão passou e desapareceu em outra sala. A refeição continuou, e Percival foi dormir.
Na manhã seguinte, Percival acordou e encontrou o castelo vazio. Completamente vazio: não havia servos, não havia o Rei Pescador, não havia ninguém. Confuso e assustado, ele montou seu cavalo e saiu. Assim que passou pelos portões, eles se fecharam atrás dele com um estrondo.
Uma voz gritou das muralhas:
— Cavaleiro tolo! Você viu o Graal e não perguntou! Se tivesse feito a pergunta certa, o Rei Pescador teria sido curado e o reino, restaurado. Agora o Graal está perdido de novo.
Percival ficou arrasado. Por ser educado demais, por não fazer perguntas, havia perdido a chance de encontrar o Graal e de curar o Rei Pescador. Ele chorou amargamente e fez um novo juramento:
— Vou buscar o Graal outra vez. Não descansarei até encontrá-lo. E, desta vez, farei as perguntas certas.
Percival continuou sua busca por anos. Enfrentou tentações terríveis, quando demônios disfarçados de belas mulheres tentaram desviá-lo do caminho. Cavaleiros malvados tentaram matá-lo. Ele passou frio, fome e solidão. Mas nunca desistiu: sua fé o mantinha forte, ele orava todas as noites, ajudava a todos que encontrava e lutava apenas por causas justas.
Um dia, encontrou um eremita que vivia numa caverna — um homem santo e sábio.
— Meu filho — disse o eremita —, você busca o Graal com pureza de coração, e isso é bom. Mas o Graal não é apenas uma taça. É um sinal da graça de Deus, do amor divino. Só quem tem fé e coração puro pode vê-lo.
— Eu falhei uma vez — confessou Percival. — Vi o Graal, mas não fiz as perguntas certas.
— Então você aprendeu — sorriu o eremita. — Compaixão vale mais que cortesia, e perguntar com amor é melhor que um silêncio educado. Continue buscando, Percival. Você está no caminho certo.
Percival seguiu viagem, mais sábio e mais determinado. Agora ele sabia que buscar o Graal não era apenas procurar uma taça encantada: era tornar-se melhor, mais puro, mais compassivo. Outras aventuras o aguardavam. Ele lutou contra o terrível Cavaleiro Negro numa ilha assombrada, salvou uma rainha de um castelo encantado e venceu um dragão que assustava uma aldeia. Em cada aventura, sua fé se fortalecia e seu coração se purificava.
Mas o Graal ainda lhe escapava. Onde estaria? Quem o encontraria? A resposta viria, mas não por Percival. Pois havia outro cavaleiro, ainda mais puro, destinado a encontrar o Santo Graal. Essa, porém, é a segunda parte da história.
Reflexão



