Mãe Holle
Contos de Fadas

Mãe Holle

por Irmãos Grimm

Idades 7-9
8 min de leitura

Era uma vez uma viúva que tinha duas filhas: uma era bonita e trabalhadora; a outra, feia e preguiçosa. A viúva gostava muito mais da feia e preguiçosa, porque essa era sua filha de verdade, e a outra, que era enteada, tinha de fazer todo o trabalho e ser a gata borralheira da casa. Todos os dias, a pobre menina precisava se sentar junto a um poço, na beira da estrada, e fiar, fiar, até os dedos sangrarem.

Um dia, a lançadeira ficou manchada com seu sangue. Ela então a mergulhou no poço para lavar a mancha, mas a lançadeira escorregou de sua mão e afundou até o fundo. A menina começou a chorar e correu para contar à madrasta o que tinha acontecido. Mas a madrasta a repreendeu com dureza e foi tão impiedosa que disse:

— Já que você deixou a lançadeira cair, vá buscá-la de volta.

A menina voltou ao poço sem saber o que fazer e, na tristeza do seu coração, pulou dentro dele para pegar a lançadeira. Perdeu os sentidos e, quando acordou, estava em um lindo prado, onde o sol brilhava e milhares de flores cresciam. Caminhando por esse prado, chegou a um forno de padeiro cheio de pão, e o pão gritou:

— Ai, me tire daqui, me tire daqui! Senão eu queimo; já estou assando faz muito tempo.

Ela se aproximou e, com a pá de padeiro, tirou os pães um por um. Depois seguiu adiante, até chegar a uma árvore carregada de maçãs, que a chamou:

— Ai, me sacuda, me sacuda! Nós, maçãs, já estamos todas maduras.

Então ela sacudiu a árvore até as maçãs caírem como chuva, e continuou sacudindo até a última vir ao chão. Juntou todas em um monte e seguiu seu caminho.

Por fim, chegou a uma casinha, de onde uma velha espiava. A velha tinha dentes tão grandes que a menina se assustou e já ia fugir. Mas a velha a chamou:

— Do que você tem medo, querida criança? Fique comigo. Se fizer direitinho todo o trabalho da casa, tudo correrá bem para você. Só precisa caprichar na minha cama e sacudi-la com força, até as penas voarem — porque então neva lá na terra. Eu sou a Mãe Holle.

Como a velha falava com tanta doçura, a menina criou coragem e aceitou ficar a seu serviço. Cuidava de tudo a contento da patroa e sempre sacudia a cama com tanto vigor que as penas voavam como flocos de neve. Assim, levava uma vida boa com a velha: nunca uma palavra ríspida, e carne cozida ou assada todos os dias.

Ela ficou um bom tempo com a Mãe Holle, e então começou a andar triste. No começo, nem sabia direito o que sentia; por fim, descobriu que era saudade de casa. Ainda que ali estivesse mil vezes melhor do que em casa, mesmo assim queria voltar. Um dia, disse à velha:

— Estou com saudade de casa. Por melhor que eu esteja aqui embaixo, não consigo ficar mais; preciso subir e voltar para os meus.

A Mãe Holle respondeu:

— Fico contente que você sinta saudade da sua casa. E, como me serviu com tanta fidelidade, eu mesma vou levá-la de volta.

Tomou-a pela mão e a conduziu até uma grande porta. A porta se abriu e, no instante em que a menina estava parada sob o batente, caiu sobre ela uma forte chuva de ouro. E todo o ouro foi ficando grudado nela, até cobri-la por inteiro.

— Isso é seu, porque você foi muito trabalhadora — disse a Mãe Holle, devolvendo também a lançadeira que tinha caído no poço.

Então a porta se fechou, e a menina se viu de novo lá em cima, sobre a terra, não muito longe da casa da mãe.

Quando ela entrou no quintal, o galo, pousado na beira do poço, cantou:

Cocoricó, cocoricá,

a menina de ouro de volta está.

— O Galo

Ela entrou em casa e, como chegou coberta de ouro, foi bem recebida pela mãe e pela irmã. A menina contou tudo o que tinha acontecido, e a mãe, mal ouviu como ela conseguira tanta riqueza, ficou ansiosa para dar a mesma sorte à filha feia e preguiçosa. Esta teve de se sentar junto ao poço e fiar; e, para manchar a lançadeira de sangue, meteu a mão em um arbusto de espinhos e espetou o dedo. Depois jogou a lançadeira no poço e pulou atrás dela.

Chegou, como a outra, ao belo prado e andou pelo mesmo caminho. Quando passou pelo forno, o pão gritou de novo:

— Ai, me tire daqui, me tire daqui! Senão eu queimo; já estou assando faz muito tempo.

Mas a preguiçosa respondeu:

— E eu lá quero me sujar? — e seguiu em frente.

Logo chegou à macieira, que gritou:

— Ai, me sacuda, me sacuda! Nós, maçãs, já estamos todas maduras.

Mas ela respondeu:

— Essa é boa. E se uma de vocês cai na minha cabeça? — e continuou andando.

Quando chegou à casa da Mãe Holle, não teve medo, pois já sabia dos dentes grandes, e logo se ofereceu para o serviço. No primeiro dia, forçou-se a trabalhar direito e obedecia à Mãe Holle em tudo o que ela pedia, pensando no ouro que ia ganhar. Mas no segundo dia começou a preguiça, no terceiro foi pior ainda, e depois ela nem se levantava mais de manhã. Também não arrumava a cama da Mãe Holle como devia, nem a sacudia para as penas voarem. A Mãe Holle logo se cansou daquilo e a mandou embora. A preguiçosa ficou até contente de ir, pensando que agora viria a chuva de ouro. A Mãe Holle a levou também até a grande porta; mas, quando ela estava parada embaixo, em vez de ouro, despejou-se sobre ela um caldeirão cheio de piche.

— Essa é a recompensa pelo seu serviço — disse a Mãe Holle, e fechou a porta.

A preguiçosa foi para casa toda coberta de piche, e o galo, na beira do poço, assim que a viu, cantou:

Cocoricó, cocoricá,

a menina de piche de volta está.

— O Galo

E o piche ficou grudado nela, e não saiu mais enquanto ela viveu.

❤️ ✝️ ❤️

Moral da História

O trabalho feito com capricho e o coração generoso trazem boas recompensas, enquanto a preguiça e o egoísmo acabam mal. Quem faz o bem por onde passa, como a menina do poço, encontra bênçãos pelo caminho.

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