Morgana le Fay, a Feiticeira
Medieval & Lendário

Morgana le Fay, a Feiticeira

por Lendas Arturianas

Idades 10-12
13 min de leitura

Temas Maduros

Esta história contém temas complexos incluindo traição familiar, vingança e ambiguidade moral. Adequada para leitores mais velhos que podem entender que nem tudo é simplesmente "bem" ou "mal".

Nas lendas de Camelot, há uma figura envolta em mistério e poder. Ela foi feiticeira, curandeira, rainha e inimiga. Seu nome era temido por uns e reverenciado por outros. Ela era Morgana le Fay, "Morgana, a Fada", a mais poderosa feiticeira que já viveu.

Mas quem era Morgana, de verdade? Era a bruxa malvada dos contos, ou havia mais em sua história do que parece? Esta é a verdade sobre Morgana le Fay.

Morgana nasceu princesa. Era filha de Igraine, Duquesa da Cornualha, a mesma Igraine que depois se tornaria mãe de Arthur. Isso fazia de Morgana meio-irmã de Arthur. Mas enquanto Arthur foi criado em segredo por Merlin, Morgana cresceu na corte, aprendendo os caminhos da nobreza e também os da magia.

Desde pequena, Morgana mostrou dons extraordinários. Fazia flores crescerem com um toque, ouvia os pensamentos das pessoas, via em sonhos visões do futuro. Sua mãe, Igraine, ficou assustada e chamou Merlin.

— Minha filha tem poderes estranhos. O que devo fazer?

Merlin veio e examinou a jovem Morgana. Seus olhos brilharam, como se a reconhecessem.

— Esta criança tem o dom — disse ele. — A antiga magia corre nas veias dela: o poder da terra, da lua, das estações. É a magia que existia antes dos reis, antes das igrejas, antes das espadas.

— É perigoso? — perguntou Igraine.

— Pode ser — admitiu Merlin. — Mas também pode ser maravilhoso. Deixe-me ensiná-la. Vou mostrar a ela como controlar seus poderes e usá-los com sabedoria.

E assim Morgana se tornou aprendiz de Merlin, do mesmo modo que Arthur um dia seria aprendiz de cavalaria. Merlin lhe ensinou muitas coisas: curar com ervas, ler as estrelas, falar com os animais, viajar em sonhos, mudar a própria aparência. Morgana era uma aluna brilhante, mais brilhante até que Nimue, aquela que mais tarde aprisionaria Merlin. Ela absorvia conhecimento como a terra seca absorve a chuva.

Mas havia uma diferença entre Morgana e Merlin. Merlin via a magia como uma ferramenta para ajudar os outros. Morgana via a magia como poder, e ela queria esse poder.

— Por que devemos servir aos reis? — perguntava Morgana. — Nós, que temos magia, somos mais poderosos do que eles. Por que não governamos nós mesmos?

— Porque poder sem sabedoria leva à tirania — respondia Merlin. — Governar não é mandar; é servir. Lembre-se disso, Morgana.

Mas Morgana não gostava dessas respostas. Em seu coração crescia, em silêncio, uma ambição ardente.

Quando Arthur puxou a espada da pedra e se tornou rei, Morgana tinha cerca de dezoito anos, e foi a Camelot conhecer o meio-irmão. No começo, os dois se deram bem. Morgana usava sua magia para ajudar Camelot: curava cavaleiros feridos, avisava sobre perigos que via em suas visões, tecia encantamentos de proteção para as muralhas do castelo.

Arthur confiava nela.

— Irmã — dizia ele —, sou abençoado por ter sua sabedoria e sua magia ao meu lado.

Mas, aos poucos, as coisas mudaram. Arthur se casou com Guinevere, e Morgana não gostou dela; murmurava que a nova rainha era fraca, que não era digna do trono. Arthur passou a ouvir mais os conselhos de seus cavaleiros do que os dela, e Morgana se sentiu deixada de lado. Merlin sempre dissera que ela era poderosa; por que o próprio irmão não a escutava?

E, pior de tudo para ela: Arthur começou a espalhar o cristianismo pelo reino, enquanto Morgana seguia as crenças antigas. As velhas formas, a magia, os rituais da natureza, a adoração da lua e das estações, iam sendo esquecidas. Morgana pensava, com raiva, que estavam destruindo a antiga magia, e que Arthur, seu próprio sangue, estava ajudando.

A verdadeira ruptura veio por causa de um segredo terrível. Morgana descobriu como Arthur havia sido concebido: como Uther, usando a magia de Merlin, enganou sua mãe Igraine, e como o pai dela, o Duque da Cornualha, foi morto naquela mesma noite. Para Morgana, Arthur não era um rei legítimo; seu nascimento nascera de engano e traição, e Merlin tinha ajudado em tudo.

Ela confrontou o velho mago.

— Hipócrita! Você me ensinou a usar a magia para o bem, mas usou a sua para criar Arthur com engano e traição!

Merlin suspirou, triste.

— Você tem razão, Morgana. Fiz coisas de que não me orgulho. Mas Arthur, apesar de tudo, tem se mostrado um bom rei. O que importa mais: como alguém nasce, ou como vive?

— Importa a justiça — declarou Morgana. — E haverá justiça.

Naquele dia, Morgana deixou Camelot. Foi para a Ilha de Avalon, uma ilha mística envolta em névoa, onde a antiga magia ainda era forte. Lá, ela se tornou Rainha das Fadas e Grande Sacerdotisa.

De Avalon, Morgana começou a trabalhar contra Arthur. Mas seus métodos eram... complicados. Às vezes ela enviava monstros e cavaleiros encantados para desafiar os cavaleiros de Arthur, mas esses desafios sempre deixavam uma chance de vitória, como se ela os estivesse testando, e não destruindo. Ela roubou a bainha mágica de Excalibur, a bainha que protegia Arthur de ferimentos; mas quando Arthur enfrentou seu maior perigo, misteriosamente a bainha voltou. Ela criava ilusões e enganos para causar problemas em Camelot e, ainda assim, de vez em quando, mandava avisos secretos quando um perigo de verdade ameaçava o rei.

Era como se Morgana não soubesse ao certo o que queria. Uma parte dela odiava Arthur e desejava destruí-lo. Mas outra parte, a que se lembrava do irmão, da família, das promessas de ajudar os outros, ainda se importava.

O maior plano de Morgana envolveu seu filho, ou, em algumas versões, seu sobrinho: Mordred. Mordred também tinha uma ligação complicada com Arthur. Morgana o criou em Avalon, treinando-o em magia e combate, enchendo sua cabeça com histórias de injustiça e traição.

— Você tem tanto direito ao trono quanto Arthur — disse Morgana a Mordred. — Vá. Junte-se à Távola Redonda. Quando chegar o momento certo, você reclamará o que é seu.

Mordred foi para Camelot e se tornou cavaleiro, e Arthur, sem saber dos planos de Morgana, confiou nele. Mas aqui está o estranho: quando Mordred enfim se rebelou contra Arthur, Morgana não estava lá para ajudá-lo. Era como se, depois de pôr tudo em movimento, ela tivesse hesitado no último momento.

Alguns dizem que Morgana percebeu que tinha ido longe demais. Outros dizem que ela sempre soube que Camelot, o sonho de Arthur, estava destinado a cair, e que isso precisava acontecer para que algo novo pudesse nascer.

A parte mais surpreendente da história de Morgana vem no final, na Batalha de Camlann, onde Arthur e Mordred se enfrentaram pela última vez. Arthur foi ferido mortalmente. Seus cavaleiros choravam; o rei estava morrendo.

E então, através da névoa, veio um barco. Nele estavam três mulheres vestidas de preto. A que ia à frente era Morgana.

— Irmão — disse ela, com doçura, sem ódio e sem triunfo, apenas com tristeza e amor. — Venha. Vou levá-lo a Avalon. Lá, tentarei curar as suas feridas.

Arthur, fraco demais para perguntar qualquer coisa, foi colocado no barco, e Morgana o levou para Avalon. Ninguém sabe ao certo o que aconteceu lá. Alguns dizem que Arthur morreu e que Morgana o enterrou com honras. Outros dizem que ela o curou, e que ele ainda dorme em Avalon, esperando o dia em que a Bretanha precisar dele de novo.

Mas uma coisa ficou clara: no final, Morgana escolheu a família em vez da vingança. Escolheu curar em vez de destruir. Escolheu o amor em vez do ódio.

Então, quem era realmente Morgana le Fay? Ela foi vilã? Sim, às vezes: fez coisas cruéis, tramou contra o irmão, causou sofrimento. Foi heroína? Também: defendeu as formas antigas, lutou contra o que via como injustiça e, no fim, socorreu Arthur.

A verdade é que Morgana era todas essas coisas. Brilhante, mas orgulhosa. Poderosa, mas insegura. Amorosa, mas vingativa. Havia nela muitas pessoas ao mesmo tempo, como há em todos nós. Sua história nos lembra que as pessoas raramente são só "boas" ou só "más": somos complicados, contraditórios, capazes de grande bondade e também de grande crueldade.

Dizem que Morgana ainda vive em Avalon, a ilha que existe entre os mundos. Ela e as outras sacerdotisas guardam a antiga sabedoria e a antiga magia, esperando o tempo em que o mundo estará pronto para elas outra vez. E dizem que, quando Arthur voltar de Avalon, será Morgana, não Merlin, não Guinevere, quem estará ao lado dele.

Pois, no final, apesar de tudo, de todas as traições, de todos os planos, de toda a raiva, eles ainda eram irmão e irmã. E nada, nem mesmo a magia mais poderosa, consegue romper de todo os laços de sangue e de amor.

❤️ ✝️ ❤️

Reflexão

Morgana nos lembra que as pessoas raramente são só boas ou só más, e que todo dom que recebemos pede responsabilidade. Ela passou anos alimentando a raiva, mas, na hora mais escura, escolheu o amor e a cura. Nunca é tarde para fazer a escolha certa.

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