O Pequeno Polegar - Parte 2: As Botas de Sete Léguas
Contos de Fadas

O Pequeno Polegar - Parte 2: As Botas de Sete Léguas

por Charles Perrault

Idades 10-12
13 min de leitura

Conteúdo Sensível

Esta continuação do conto clássico tem momentos intensos, em que alguns personagens sofrem, contados do jeito dos contos de fadas tradicionais. A história fala de esperteza, coragem e justiça. Os pais podem preferir ler antes, ou conversar com os filhos depois. Recomendada para maiores de 10 anos.

— Ah — disse o Ogro —, é assim que você quer me enganar, mulher maldita? Não sei por que não como você também; sorte sua ser uma carne velha e dura. Mas aqui está uma boa caça, que chega bem a tempo para receber três Ogros amigos meus, que vêm me visitar num dia ou dois.

Dizendo isso, arrastou os meninos de debaixo da cama, um por um. As pobres crianças caíram de joelhos, pedindo perdão; mas estavam diante de um dos Ogros mais cruéis do mundo que, longe de sentir pena, já os devorava com os olhos. Ele disse à esposa que aqueles meninos seriam um prato fino, servidos com um bom molho.

Pegou então uma grande faca e, aproximando-se das pobres crianças, foi afiando a lâmina numa pedra de amolar que segurava na mão esquerda. Já tinha agarrado um dos meninos quando a esposa lhe disse:

— Para que fazer isso a esta hora? Amanhã não dá tempo de sobra?

— Não se meta — disse o Ogro. — Assim eles ficam mais macios.

— Mas você já tem tanta carne — respondeu a mulher. — Não há necessidade. Veja: um bezerro, dois carneiros e metade de um porco.

— É verdade — disse o Ogro. — Então dê comida a eles à vontade, para que não emagreçam, e ponha todos na cama.

A boa mulher, aliviada, serviu aos meninos uma boa ceia; mas eles estavam com tanto medo que não conseguiram engolir um bocado. Quanto ao Ogro, voltou a se sentar para beber, muito satisfeito por ter com que agradar os amigos. Bebeu uma dúzia de copos além do costume, o vinho lhe subiu à cabeça, e ele precisou ir se deitar.

O Ogro tinha sete filhas, todas ainda pequenas. Aquelas jovens Ogras tinham a pele muito bonita, porque comiam carne fresca como o pai; mas tinham olhinhos cinzentos e redondos, nariz adunco, boca enorme e dentes compridos e afiados, bem separados uns dos outros. Ainda não eram lá muito malvadas, mas prometiam: já mordiam as criancinhas para chupar seu sangue.

Tinham sido postas na cama cedo, cada uma com uma coroa de ouro na cabeça. No mesmo quarto havia outra cama, do mesmo tamanho, e foi nela que a mulher do Ogro acomodou os sete meninos. Depois, foi se deitar ao lado do marido.

O Pequeno Polegar tinha reparado nas coroas de ouro das filhas do Ogro. Com medo de que o Ogro se arrependesse de não ter acabado com eles naquela mesma noite, levantou-se lá pela meia-noite, pegou o seu gorro e os gorros dos irmãos e, bem de mansinho, colocou-os nas cabeças das sete pequenas Ogras, depois de lhes tirar as coroas de ouro. As coroas, ele pôs na própria cabeça e nas dos irmãos, para que o Ogro os tomasse pelas filhas, e tomasse as filhas pelos meninos que queria matar.

Tudo saiu como ele havia planejado. O Ogro acordou por volta da meia-noite e, arrependido de ter deixado para a manhã o que podia ter feito na véspera, pulou da cama às pressas e pegou sua grande faca.

— Vamos ver — disse ele — como andam nossos espertinhos. Melhor resolver tudo de uma vez.

Subiu então, tateando no escuro, até o quarto das filhas, e chegou à cama onde estavam os meninos, todos dormindo profundamente. Todos, menos o Pequeno Polegar, que quase morreu de susto quando sentiu a mão do Ogro apalpar sua cabeça, como havia apalpado a dos irmãos. O Ogro, sentindo as coroas de ouro, disse:

— Bonito serviço eu ia fazer. Está visto que bebi demais ontem à noite.

Foi então até a cama onde estavam as meninas e, encontrando os gorrinhos dos meninos, disse:

— Ah, cá estão os nossos rapazes. Mãos à obra.

E, dizendo essas palavras, sem hesitar, na sua confusão, tirou por engano a vida das suas sete filhas.

Muito satisfeito com o que julgava ter feito, voltou a deitar-se ao lado da esposa. Assim que ouviu o Ogro roncar, o Pequeno Polegar acordou os irmãos e mandou que se vestissem depressa e o seguissem. Desceram de mansinho até o jardim e pularam o muro. Correram quase a noite inteira, tremendo o tempo todo, sem saber para onde iam.

O Ogro, quando acordou, disse à esposa:

— Suba lá e vá cuidar daqueles rapazes que chegaram ontem à noite.

A Ogra ficou espantada com tanta bondade do marido, sem desconfiar do que ele queria dizer com aquilo. Pensando que era para ajudá-los a se vestir, subiu ao quarto. Lá em cima, encontrou as sete filhas sem vida, banhadas em sangue, e o espanto foi tão grande que ela desmaiou ali mesmo, como acontece a quase todas as mulheres em casos assim.

O Ogro, achando que a esposa estava demorando demais para cumprir a ordem, subiu para ajudá-la. E não ficou menos horrorizado do que ela diante daquela cena terrível.

— Ah, o que foi que eu fiz? — gritou ele. — Aqueles malditos vão me pagar, e agora mesmo.

Jogou então um jarro de água no rosto da esposa e, quando ela voltou a si, gritou:

— Traga depressa as minhas botas de sete léguas, que eu vou atrás deles.

E lá se foi. Depois de percorrer uma extensão enorme de terra, para um lado e para o outro, chegou por fim à estrada onde estavam as pobres crianças, a nem cem passos da casa do pai. Os meninos avistaram o Ogro, que ia de montanha em montanha numa passada só, e atravessava rios como quem pula um riacho. O Pequeno Polegar, vendo uma rocha oca perto de onde estavam, escondeu ali os irmãos e se enfiou junto, sempre de olho no que o Ogro ia fazer.

O Ogro, que se sentia muito cansado de tanto caminhar à toa (pois as botas de sete léguas fatigam demais quem as usa), teve vontade de descansar e, por acaso, foi sentar-se justamente na rocha onde os meninos estavam escondidos. Como estava esgotado, adormeceu ali mesmo e, depois de algum tempo, pôs-se a roncar tão medonhamente que as pobres crianças sentiram tanto medo quanto na hora em que ele erguera a grande faca.

O Pequeno Polegar, menos assustado que os irmãos, disse-lhes que corressem para casa enquanto o Ogro dormia tão pesado, e que não se preocupassem com ele. Os irmãos seguiram o conselho e logo chegaram em casa.

O Pequeno Polegar, então, aproximou-se do Ogro, tirou-lhe as botas devagarinho e calçou-as ele mesmo. As botas eram compridas e enormes; mas, como eram encantadas pelas Fadas, tinham o dom de crescer e diminuir conforme as pernas de quem as usava. Assim, ajustaram-se aos pés e às pernas dele como se tivessem sido feitas sob medida.

Foi direto à casa do Ogro, onde encontrou a mulher chorando amargamente pelas filhas que perdera.

— Seu marido — disse o Pequeno Polegar — está em grande perigo. Foi pego por um bando de ladrões, que juraram matá-lo se ele não entregar todo o seu ouro e toda a sua prata. Na hora em que já encostavam os punhais na garganta dele, ele me avistou e me pediu que viesse contar à senhora a situação em que se encontra, e que a senhora me entregue tudo o que ele tem de valor, sem guardar nada; senão, eles acabam com ele sem piedade. Como o caso é urgente, ele quis que eu usasse as botas dele, que a senhora está vendo nos meus pés, para eu ir mais depressa e também para provar que não estou mentindo.

A boa mulher, morrendo de medo, entregou-lhe tudo o que tinha; pois aquele Ogro, apesar de comer criancinhas, era um marido muito bom. O Pequeno Polegar, carregando toda a riqueza do Ogro, voltou para a casa do pai, onde foi recebido com imensa alegria.

Há muita gente que não concorda com esse final e garante que o Pequeno Polegar nunca roubou o Ogro; que ele apenas achou, com a consciência tranquila, que podia ficar com as botas de sete léguas, já que o Ogro não as usava para outra coisa senão correr atrás de criancinhas.

Essas pessoas afirmam saber de tudo muito bem, até por terem comido e bebido muitas vezes na casa do lenhador. Contam elas que, quando o Pequeno Polegar calçou as botas do Ogro, foi até a Corte, onde soube que todos andavam aflitos por causa de um exército que estava a duzentas léguas dali, e do resultado de uma batalha.

Ele foi, dizem, falar com o Rei, e prometeu que, se o Rei quisesse, traria notícias do exército antes do anoitecer. O Rei lhe prometeu uma boa soma de dinheiro por isso. O Pequeno Polegar cumpriu a palavra e voltou naquela mesma noite com as notícias. Essa primeira missão o tornou conhecido, e dali em diante ele ganhava o que quisesse: o Rei lhe pagava muito bem por levar ordens ao exército, e muitas damas lhe davam qualquer preço por notícias de seus namorados; esse era o seu maior ganho.

Havia também algumas senhoras casadas que lhe mandavam cartas para os maridos, mas pagavam tão mal que nem valia a pena. Depois de exercer por um tempo o ofício de mensageiro, e de juntar com ele grande riqueza, ele voltou para a casa do pai, onde a alegria do reencontro foi impossível de descrever.

Ele deixou toda a família em boa situação, comprou cargos para o pai e para os irmãos, e assim estabeleceu todos muito bem na vida, enquanto ele próprio subia cada vez mais no favor do Rei.

❤️ ✝️ ❤️

Moral da História

A coragem e o pensamento rápido podem vencer até os maiores perigos. O Pequeno Polegar, o menor de todos, foi quem salvou os irmãos e amparou a família inteira. Às vezes é o mais quieto da casa quem enxerga mais longe.

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