Pele de Burro - Parte 1: A Fuga
Contos de Fadas

Pele de Burro - Parte 1: A Fuga

por Charles Perrault

Idades 10-12
18 min de leitura

Temas Maduros

Este conto de fadas clássico aborda uma situação séria e imprópria: um pai que, tendo perdido a razão por causa do luto, faz à filha uma proposta de casamento que não deveria fazer. A história mostra a princesa escapando dessa situação com coragem, com a ajuda de sua fada madrinha, e fala sobre proteger os próprios limites e buscar segurança. Recomendamos que os pais leiam primeiro e conversem com as crianças mais velhas. Indicado para maiores de 10 anos.

Era uma vez um Rei tão grande, tão querido pelo povo e tão respeitado pelos vizinhos e aliados que bem se podia dizer que era o monarca mais feliz do mundo. Sua boa sorte ficava ainda maior pela esposa que escolhera, uma Princesa tão bela quanto virtuosa, com quem vivia em perfeita felicidade. Desse casamento nasceu uma filha enfeitada de tantos dons que os dois nunca lamentaram não ter tido outros filhos.

No palácio reinavam a riqueza, o bom gosto e a fartura. Havia ministros sábios e prudentes, cortesãos virtuosos e dedicados, criados fiéis e trabalhadores. As estrebarias espaçosas guardavam os cavalos mais bonitos do mundo, cobertos de mantas ricas; mas o que mais espantava os estrangeiros que vinham admirá-las era ver, no lugar de honra, um burro de grandes orelhas compridas.

Não era por capricho, mas por um bom motivo, que o Rei dava a esse burro um lugar tão especial. As qualidades daquele animal raro mereciam a honra: a natureza o fizera de um jeito tão extraordinário que a sua cama, em vez de ser como a dos outros burros, amanhecia todos os dias coberta de belas moedas de ouro de todo tipo, que os criados recolhiam a cada manhã.

Mas as reviravoltas da vida alcançam os Reis tanto quanto os seus súditos, e o bem anda sempre misturado com o mal. Aconteceu que a Rainha foi de repente atingida por uma doença sem cura e, apesar da ciência e da habilidade dos médicos, nenhum remédio foi encontrado. O luto tomou conta de toda a terra.

O Rei, que apesar do velho ditado de que o casamento é o túmulo do amor era profundamente apegado à esposa, afligiu-se sem medida. Fez votos fervorosos em todos os templos do reino e ofereceu a própria vida em troca da vida da sua amada companheira; mas chamou pelos deuses e pelas Fadas em vão.

A Rainha, sentindo chegar a sua última hora, disse ao marido, desfeito em lágrimas:

— É bom que eu lhe fale de um certo assunto antes de morrer. Se acaso você quiser se casar de novo...

A essas palavras o Rei rompeu em soluços, tomou as mãos da esposa entre as suas e garantiu que era inútil falar de um segundo casamento.

— Não, minha querida esposa — disse ele por fim. — Fale antes de como eu posso segui-la.

— O Estado — continuou a Rainha, com uma firmeza que só aumentou os lamentos do Rei — exige sucessores e, como eu só lhe dei uma filha, vão insistir para que você tenha filhos que se pareçam com você. Mas eu lhe peço com todo o coração: não ceda aos pedidos do seu povo enquanto não encontrar uma Princesa mais bela e mais perfeita do que eu. Jure isso para mim, e eu morrerei em paz.

Talvez a Rainha, que não era de pouca autoestima, tenha exigido esse juramento por acreditar que não havia no mundo ninguém igual a ela, e assim ficasse certa de que o Rei nunca mais se casaria. Seja como for, ela morreu, e nunca um marido chorou tanto. O Rei soluçava dia e noite, e cumprir um por um os ritos do luto, até os menores, tornou-se a sua única ocupação.

Mas nem as grandes tristezas duram para sempre. Passado um tempo, os grandes do Estado se reuniram e vieram pedir ao Rei que tomasse outra esposa. No começo, o pedido lhe pareceu duro e lhe arrancou novas lágrimas. Ele lembrou o juramento feito à Rainha e desafiou os conselheiros a encontrar uma Princesa mais bela e mais bem-feita do que ela fora, certo de que isso era impossível.

O Conselho, porém, tratou a promessa como coisa pequena, e disse que a beleza pouco importava, contanto que a nova Rainha fosse virtuosa e desse herdeiros; pois o Estado precisava de Príncipes para a sua paz e prosperidade. E, embora a Princesa, sua filha, tivesse todas as qualidades de uma grande Rainha, teria por força de escolher um marido estrangeiro, e o estrangeiro a levaria embora consigo.

O Rei, tocado por esses argumentos, prometeu pensar no assunto. Começou então a busca, entre todas as Princesas casadoiras, de uma que lhe servisse. Todos os dias lhe traziam belos retratos, mas nenhum prometia a beleza da falecida Rainha. Em vez de se decidir, ele remoía a sua tristeza, até que, por fim, a razão o abandonou.

Nos seus delírios, imaginou-se outra vez um homem jovem, e tomou a Princesa, sua filha, na juventude e na beleza dela, pela Rainha dos tempos de noivado. Vivendo assim no passado, pôs-se a insistir com a infeliz moça para que se tornasse depressa a sua noiva.

A jovem Princesa, que era virtuosa e pura, atirou-se aos pés do Rei, seu pai, e implorou, com toda a eloquência de que era capaz, que não a obrigasse a consentir naquele desejo que ia contra a natureza.

O Rei, na sua loucura, não conseguia entender aquela recusa desesperada, e pediu a um velho sacerdote druida que acalmasse a consciência da Princesa. Esse druida, menos religioso que ambicioso, sacrificou a causa da inocência e da virtude para agradar a tão grande monarca; e, em vez de tentar devolver o juízo ao Rei, alimentou o seu delírio.

A jovem Princesa, fora de si de tanta aflição, lembrou-se enfim da Fada Lilás, sua madrinha. Decidida a consultá-la, partiu naquela mesma noite numa linda carruagenzinha puxada por uma grande ovelha que conhecia todas as estradas. Quando ela chegou, a Fada, que amava a afilhada, disse que já sabia de tudo o que ela vinha contar, mas que não tivesse medo: nada de mal lhe aconteceria se seguisse fielmente as suas instruções.

— Minha querida menina — disse a Fada —, seria um grande erro ceder à vontade de seu pai, mas você pode escapar disso sem desagradá-lo. Diga a ele que, para satisfazer um capricho seu, ele precisa lhe dar um vestido da cor do tempo. Por mais que ele a ame e por maior que seja o seu poder, isso ele nunca vai conseguir.

A Princesa agradeceu à madrinha de todo o coração e, na manhã seguinte, falou ao Rei como a Fada tinha aconselhado: ninguém teria a sua mão enquanto não lhe dessem um vestido da cor do tempo. O Rei, alegre e cheio de esperança, reuniu os artesãos mais habilidosos e encomendou o vestido, avisando que, se não o fizessem, seriam enforcados. Mas não precisou chegar a tanto: já no segundo dia, trouxeram-lhe o vestido tão desejado.

Nem o céu, quando se cinge de nuvens douradas, é de um azul mais bonito do que era aquele vestido quando o desdobraram. A Princesa ficou muito triste com aquilo e não sabia o que fazer.

Mais uma vez ela procurou a Fada madrinha que, espantada por ver o plano fracassar, mandou que pedisse agora um vestido da cor da lua. O Rei tornou a reunir os melhores mestres e ordenou expressamente um vestido da cor da lua; e ai deles se, entre a encomenda e a entrega, se passassem mais de vinte e quatro horas.

A Princesa, encantada com o vestido quando o recebeu, entregou-se de novo à angústia assim que ficou a sós com suas damas e sua ama. A Fada Lilás, que sabia de tudo, veio depressa consolá-la e disse:

— Ou eu me engano muito, ou desta vez, se você pedir um vestido da cor do sol, nós enfim venceremos o Rei, seu pai, pois nunca há de ser possível fazer um vestido assim. De todo jeito, ganharemos tempo.

A Princesa pediu então mais esse vestido, como a Fada mandara. O Rei, cego de afeição, não sabia negar nada à filha, e deu sem pena todos os diamantes e rubis da sua coroa para ajudar naquela obra soberba; nada devia ser poupado para que o vestido ficasse tão belo quanto o sol. E de fato, quando o vestido apareceu, todos os que o desdobraram tiveram de fechar os olhos, de tão deslumbrados. Dizem até que foi daquela época que surgiram os óculos escuros.

O que podia fazer a Princesa? Nunca se vira vestido tão belo e tão bem-feito. Ela ficou muda de espanto e, com a desculpa de que aquele brilho lhe machucava os olhos, retirou-se para o seu quarto, onde a Fada a esperava.

Ao ver o vestido cor de sol, a Fada Lilás ficou vermelha de raiva.

— Ah, desta vez, minha menina — disse ela à Princesa —, vamos pôr o Rei numa prova terrível. Por mais louco que esteja, acho que ele vai se espantar com o pedido que aconselho você a fazer: peça a ele a pele daquele burro que ele tanto estima, e que lhe dá com tanta fartura o dinheiro de todas as suas despesas. Vá, e não deixe de dizer que quer essa pele.

A Princesa, feliz por encontrar mais uma saída, pois pensava que o pai jamais teria coragem de sacrificar o burro, foi ao seu encontro e apresentou o seu último desejo.

O Rei estranhou o capricho, mas não hesitou em atendê-lo. O pobre burro foi sacrificado, e a pele, trazida com toda a cerimônia à Princesa que, não vendo mais nenhum meio de escapar da sua desgraça, caiu em desespero.

Nesse momento chegou a madrinha.

— Que é isso, minha menina? — perguntou ela, vendo a Princesa arrancar os cabelos, as belas faces molhadas de lágrimas. — Este é o momento mais feliz da sua vida. Envolva-se nessa pele, saia do palácio e caminhe enquanto houver chão para levá-la. Quando alguém entrega tudo pela virtude, os deuses sabem recompensar. Vá, que eu cuido para que os seus pertences a acompanhem: aonde quer que você pare, o baú com as suas roupas e as suas joias seguirá os seus passos. E aqui está a minha varinha, que lhe dou: bata com ela no chão quando precisar do baú, e ele aparecerá diante dos seus olhos. Mas apresse-se em partir, não demore.

A Princesa abraçou a madrinha muitas vezes e implorou que nunca a abandonasse. Depois, esfregou fuligem da chaminé no rosto, envolveu-se naquela pele feia e saiu do magnífico palácio sem ser reconhecida por uma só pessoa.

A ausência da Princesa causou um alvoroço enorme. O Rei, que tinha mandado preparar um banquete suntuoso, ficou inconsolável. Mandou mais de cem guardas e mais de mil mosqueteiros à sua procura; mas a Fada Lilás a tornara invisível até para os buscadores mais espertos, e assim ela escapou de todos.

Enquanto isso, a Princesa caminhou para longe, para muito longe, e mais longe ainda. Procurava um lugar onde descansar e, embora por caridade lhe dessem comida, andava tão maltrapilha e suja que ninguém queria acolhê-la. Chegou por fim a uma bela cidade, junto de cujo portão havia uma pequena fazenda. A mulher do fazendeiro precisava justamente de uma criada para lavar a louça e cuidar dos gansos e dos porcos e, vendo uma andarilha tão suja, ofereceu-lhe o trabalho.

A Princesa, que já estava muito cansada, aceitou de bom grado. Puseram-na num canto da cozinha, onde nos primeiros dias teve de aguentar as brincadeiras grosseiras dos criados, de tão suja e estranha que a pele de burro a fazia parecer. Com o tempo eles se cansaram das zombarias; além disso, ela era tão caprichosa no trabalho que a mulher do fazendeiro a tomou sob sua proteção.

Ela cuidava das ovelhas e as recolhia na hora certa, e levava os gansos ao pasto com tanto jeito que parecia nunca ter feito outra coisa na vida. Tudo o que as suas belas mãos faziam ficava bem-feito.

Um dia, ela estava sentada perto de uma fonte de água clara, aonde costumava ir lamentar a sua triste sorte, quando teve a ideia de se olhar na água. A horrível pele de burro que a cobria da cabeça aos pés a entristeceu. Com vergonha, lavou o rosto e as mãos, que ficaram mais brancas que marfim, e a sua pele delicada recobrou o frescor natural. A alegria de se ver tão bonita deu-lhe vontade de se banhar na fonte, e assim ela fez. Mas teve de vestir de novo a pele humilde antes de voltar à fazenda.

Por sorte, o dia seguinte era feriado, e ela teve tempo de chamar o baú com a varinha da fada, arrumar-se, pentear e empoar os lindos cabelos e vestir o belo vestido da cor do tempo; mas o quartinho era tão pequeno que a cauda nem podia se abrir por inteiro.

A bela Princesa olhou-se no espelho e, com razão, admirou-se tanto que resolveu ir usando os seus vestidos magníficos, um de cada vez, nos feriados e domingos, só para o seu próprio contentamento. E assim fazia, pontualmente. Entremeava flores e diamantes nos lindos cabelos com arte admirável, e muitas vezes suspirava por não ter outras testemunhas da sua beleza além das ovelhas e dos gansos, que a amavam do mesmo jeito na horrível pele de burro que lhe dera o apelido na fazenda.

❤️ ✝️ ❤️

Moral da História

A coragem e a virtude sempre encontram um caminho para escapar do que é errado. Com sabedoria, e com a ajuda de quem nos ama de verdade, é possível guardar a própria dignidade mesmo nos tempos mais escuros.

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