Pele de Burro - Parte 2: O Anel
Contos de Fadas

Pele de Burro - Parte 2: O Anel

por Charles Perrault

Idades 7-9
17 min de leitura

Num dia de feriado, quando Pele de Burro tinha vestido o seu vestido cor de sol, o filho do Rei dono daquelas terras parou na fazenda para descansar, de volta da caça. O Príncipe era jovem e belo, querido do pai e da Rainha, sua mãe, e adorado pelo povo. Depois de aceitar a refeição simples que lhe ofereceram, saiu a percorrer o pátio da fazenda e todos os seus cantos e recantos.

Andando assim de um lugar para outro, entrou num corredor escuro, no fundo do qual havia uma porta fechada. A curiosidade o fez espiar pelo buraco da fechadura. Imagine o seu espanto ao ver ali uma Princesa tão bela, tão ricamente vestida e de ar tão nobre e digno que ele a tomou por uma divindade. Naquele momento, o ímpeto do coração quase o fez arrombar a porta; só não o fez pelo respeito que aquela figura encantadora lhe inspirou.

Foi com dificuldade que ele se afastou daquele corredor sombrio, decidido a descobrir quem morava no quartinho. Disseram-lhe que era uma criada chamada Pele de Burro, por causa da pele que usava sempre, e que era tão suja e desagradável que ninguém reparava nela nem lhe dirigia a palavra; tinham-na aceitado por caridade, para cuidar dos gansos.

O Príncipe, pouco satisfeito com a resposta, viu que aquela gente simples não sabia mais nada, e que era inútil perguntar. Voltou então ao palácio do Rei, seu pai, apaixonado além do que as palavras podem dizer, trazendo o tempo todo diante dos olhos a bela imagem da deusa que tinha visto pelo buraco da fechadura. Arrependia-se de não ter batido à porta e prometeu a si mesmo que, na próxima vez, não deixaria de bater.

Mas o ardor daquele amor lhe causou tamanha agitação que, naquela mesma noite, ele foi tomado por uma febre terrível, e logo estava às portas da morte. A Rainha, que não tinha outro filho, desesperava-se ao ver que todos os remédios eram inúteis. Em vão prometia grandes recompensas aos médicos; por mais que usassem toda a sua ciência, nada curava o Príncipe.

Por fim, eles concluíram que alguma grande tristeza era a causa daquela febre, e contaram à Rainha. Ela, cheia de ternura pelo filho, foi até ele e implorou que dissesse o que o afligia. Declarou que, mesmo que se tratasse de lhe entregar a coroa, o pai desceria do trono sem pesar; e que, se ele desejava alguma Princesa, ainda que isso custasse uma guerra, tudo seria sacrificado para conseguir o que ele quisesse. E pediu, em lágrimas, que não morresse, pois a vida deles dependia da dele.

A Rainha não terminou aquela fala comovente sem levar o Príncipe às lágrimas.

— Senhora — disse ele afinal, com a voz muito fraca —, não sou tão ingrato a ponto de desejar a coroa de meu pai. Antes queira o Céu que ele viva longos anos e que eu seja sempre o mais fiel e respeitoso dos seus súditos. Quanto às Princesas de que a senhora fala, nunca pensei em casamento; e bem sabe que, obediente como sou aos seus desejos, sempre a atenderei, mesmo que me custe.

— Ah, meu filho — respondeu a Rainha —, não vamos poupar nada para salvar a sua vida. Mas, meu querido filho, salve também a minha e a do Rei, seu pai: diga o que deseja, e tenha certeza de que o terá.

— Pois bem, senhora — disse ele —, já que quer saber o meu pensamento, eu obedeço. Seria errado, de fato, pôr em perigo duas vidas que me são tão queridas. Saiba, minha mãe, que desejo que Pele de Burro me faça um bolo, e que ele me seja trazido assim que estiver pronto.

A Rainha, espantada com aquele nome esquisito, perguntou quem era Pele de Burro.

— É, senhora — respondeu um dos seus oficiais, que por acaso já tinha visto a moça —, a criatura mais feia que se pode imaginar depois do lobo; uma criada que mora na sua fazenda e cuida dos seus gansos.

— Não importa — disse a Rainha. — Meu filho, voltando da caça, talvez tenha provado dos bolos dela. É um capricho, desses que os doentes costumam ter. Numa palavra: quero que Pele de Burro, já que Pele de Burro é, faça agora mesmo um bolo para ele.

Um mensageiro correu à fazenda e avisou Pele de Burro de que ela devia fazer, com o maior capricho, um bolo para o Príncipe. Ora, há quem acredite que Pele de Burro tinha percebido o Príncipe no momento em que ele espiou pelo buraco da fechadura; e que depois, olhando da sua janelinha, o vira tão jovem, tão belo e tão elegante que a lembrança ficou, e que muitas vezes aquele pensamento lhe custou alguns suspiros.

Seja como for, Pele de Burro, por tê-lo visto ou por ouvir falar tão bem dele, ficou feliz de pensar que podia se tornar conhecida do Príncipe. Trancou-se no quartinho, tirou a pele feia, lavou o rosto e as mãos, penteou os cabelos, vestiu um lindo corpete de prata reluzente e uma saia igualmente bela, e pôs-se a fazer o bolo tão desejado.

Escolheu a farinha mais fina, os ovos mais novos e a manteiga mais fresca e, enquanto amassava tudo, de propósito ou não, um anel que trazia no dedo caiu na massa e ficou misturado nela. Terminado o bolo, ela se embrulhou na sua pele horrível e o entregou ao mensageiro, pedindo notícias do Príncipe; mas o homem nem se dignou a responder e correu de volta ao palácio sem dizer palavra.

O Príncipe tomou o bolo das mãos do homem com tanta avidez, e o comeu com tanta pressa, que os médicos ali presentes não deixaram de comentar que aquilo não era bom sinal. E, de fato, o Príncipe por pouco não engoliu o anel num dos pedaços. Mas retirou-o da boca com jeito, e o desejo pelo bolo foi esquecido enquanto ele examinava a fina esmeralda montada num aro de ouro, um anel tão pequeno que só podia servir no dedinho mais bonito do mundo.

Beijou o anel mil vezes, guardou-o debaixo do travesseiro, e o tirava de lá a todo momento em que se julgava sozinho. Atormentava-se planejando um modo de ver a dona do anel. Não ousava mandar chamar Pele de Burro, sem acreditar que a deixariam vir; e não ousava contar o que tinha visto pelo buraco da fechadura, com medo de que rissem dele e o tomassem por sonhador. De tanto remoer, a febre voltou com força.

Os médicos, sem saber mais o que fazer, declararam à Rainha que a doença do Príncipe era amor. A Rainha e o Rei, aflitos, correram para junto do filho.

— Meu filho, meu querido filho — disse o monarca, comovido —, diga o nome daquela que você quer. Juramos que ela será sua, ainda que seja a mais humilde das criadas.

A Rainha, abraçando-o, confirmou tudo o que o Rei dissera, e o Príncipe, tocado por tantas lágrimas e carinhos, respondeu:

— Meu pai e minha mãe, não desejo de modo algum um casamento que os desagrade. — E, tirando a esmeralda de debaixo do travesseiro, acrescentou: — Como prova, quero me casar com aquela a quem este anel pertencer. Não é de crer que a dona de um anel tão delicado seja grosseira ou camponesa.

O Rei e a Rainha pegaram o anel, examinaram-no com grande curiosidade e concordaram com o Príncipe: aquele anel só podia pertencer à filha de uma boa casa. Então o Rei abraçou o filho, pediu-lhe que melhorasse e saiu. Mandou tocar tambores, pífaros e trombetas por toda a cidade, e os arautos anunciaram que aquela em cujo dedo servisse um certo anel se casaria com o herdeiro do trono.

Primeiro vieram as Princesas; depois as duquesas, as marquesas e as baronesas. Mas, por mais que fizessem para afinar os dedos, nenhuma conseguiu enfiar o anel. Foi preciso chamar as moças do campo que, bonitas como eram, tinham todas os dedos grossos demais. O Príncipe, já se sentindo melhor, fazia ele mesmo a prova. Chegou enfim a vez das camareiras, que não tiveram mais sorte. Quando todas já haviam tentado, o Príncipe mandou chamar as cozinheiras, as ajudantes e as pastoras de ovelhas. Todas foram trazidas ao palácio, mas seus dedos curtos, vermelhos e grossos mal passavam do aro de ouro até a unha.

— Vocês não trouxeram aquela Pele de Burro, que fez o bolo para mim — disse o Príncipe.

Todos riram e responderam que não, de tão suja e desagradável que ela era.

— Que alguém vá buscá-la agora mesmo — disse o Rei. — Não hão de dizer que deixei de fora a mais humilde de todas.

E os criados saíram, entre risos e zombarias, à procura da pastora de gansos.

A Princesa, que tinha ouvido os tambores e os gritos dos arautos, não duvidava de que o seu anel fosse a causa de todo aquele alvoroço. Ela amava o Príncipe e, como o amor verdadeiro é tímido e não tem vaidade, vivia com medo de que aparecesse alguma dama de dedo tão fino quanto o seu. Grande foi, portanto, a sua alegria quando os mensageiros bateram à sua porta.

Sabendo que procuravam a dona do dedo em que o anel servisse, algum pressentimento a fizera pentear-se com todo o cuidado e vestir o belo corpete de prata e a saia de babados com renda de prata semeada de esmeraldas. À primeira batida, cobriu depressa todo aquele enfeite com a pele de burro e abriu a porta.

Os visitantes, zombando, disseram que o Rei mandava buscá-la para casá-la com o seu filho. E, entre altas gargalhadas, levaram-na ao Príncipe, que, espantado com os trajes da moça, não ousou acreditar que fosse aquela que vira tão majestosa e tão bela.

Triste e confuso, ele perguntou:

— É você que mora no fundo daquele corredor escuro, no terceiro pátio da fazenda?

— Sim, Alteza — respondeu ela.

— Mostre-me a sua mão — disse o Príncipe, trêmulo, com um fundo suspiro.

Imagine o espanto de todos. O Rei e a Rainha, os camareiros e todos os cortesãos ficaram mudos quando, de sob aquela pele escura e suja, saiu uma mãozinha delicada, branca e rosada, e o anel deslizou sem dificuldade pelo dedinho mais bonito do mundo.

Então, com um pequeno movimento da Princesa, a pele caiu dos seus ombros, e a sua aparência era tão encantadora que o Príncipe, mesmo fraco como estava, pôs-se de joelhos diante dela, que corou. Mas quase ninguém reparou, pois o Rei e a Rainha vieram abraçá-la com todo o carinho e perguntar se ela aceitava casar-se com o filho deles.

A Princesa, confusa com tantos afagos e com o amor do belo e jovem Príncipe, ia agradecer quando, de repente, o teto se abriu e a Fada Lilás desceu numa carruagem feita dos ramos e das flores que lhe deram o nome. E, com grande encanto, contou a todos a história da Princesa.

O Rei e a Rainha, encantados de saber que Pele de Burro era uma grande Princesa, redobraram os carinhos; mas o Príncipe se comoveu ainda mais com a virtude dela, e o seu amor cresceu à medida que a Fada desfiava a história. A sua impaciência de casar era tanta que ele mal quis dar tempo para os preparativos que um casamento tão grandioso merecia.

O Rei e a Rainha, agora inteiramente dedicados à nora, cercaram-na de afeto. Ela declarou que não podia se casar com o Príncipe sem o consentimento do Rei, seu pai, e por isso ele foi o primeiro a receber o convite do casamento, sem que lhe dissessem, porém, o nome da noiva. A Fada Lilás, que como era de esperar presidia a tudo, recomendou assim para evitar contratempos.

Vieram Reis de todos os países vizinhos, uns em liteiras, outros em belas carruagens; os que vinham de mais longe montavam elefantes, tigres e águias. Mas o mais magnífico e mais imponente de todos era o pai da Princesa. Ele havia, por felicidade, recobrado a razão, e tinha se casado com uma Rainha viúva e muito bela, de quem não tivera filhos.

A Princesa correu ao seu encontro, e ele a reconheceu no mesmo instante e a abraçou com grande ternura, antes que ela tivesse tempo de se ajoelhar. O Rei e a Rainha lhe apresentaram o filho, e a felicidade de todos ficou completa.

As bodas foram celebradas com toda a pompa que se pode imaginar, mas os jovens noivos mal deram pela cerimônia, de tão felizes que estavam um com o outro. Apesar dos protestos do rapaz, de coração generoso, o pai do Príncipe fez o filho ser coroado naquele mesmo dia e, beijando-lhe a mão, colocou-o no trono.

As festas daquele casamento ilustre duraram quase três meses; mas o amor dos dois teria durado mais de cem anos, se tanto vivessem, tão grande era a afeição que um tinha pelo outro.

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Moral da História

O verdadeiro valor de uma pessoa não fica escondido para sempre, por mais humilde que seja o disfarce. A paciência, a virtude e o amor verdadeiro sempre encontram um jeito de brilhar, trazendo alegria a quem espera com esperança.

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