A Queda de Camelot - Parte 2: A Partida para Avalon
Medieval & Lendário

A Queda de Camelot - Parte 2: A Partida para Avalon

por Lendas Arturianas

Idades 10-12
15 min de leitura

Conteúdo Sensível

Esta história conta uma grande batalha e a morte de personagens queridos. É indicada para leitores mais velhos, que já conseguem acolher temas de perda, sacrifício e o fim de uma era.

Os exércitos se reuniram na planície de Camlann. De um lado, o Rei Arthur com os cavaleiros leais da Távola Redonda. Do outro, Mordred com seus aliados e mercenários. Pai contra filho. Tio contra sobrinho. Bretão contra bretão.

Era verão, mas o ar estava frio como inverno. Corvos circulavam no céu, como se soubessem que em breve haveria um banquete. A própria terra parecia chorar pelo que estava para acontecer. Na noite anterior à batalha, Arthur teve um sonho.

No sonho, Arthur viu Sir Gawain — seu sobrinho leal, que havia morrido semanas antes, ferido numa batalha menor contra os homens de Mordred.

— Tio — disse o fantasma de Gawain —, não lute amanhã. Se lutar, você morrerá, Mordred morrerá, todos morrerão. Espere um mês: Sir Lancelot está vindo com seu exército para ajudá-lo. Espere.

Arthur acordou suando. Seria um aviso? Uma visão verdadeira? Pela manhã, convocou seus conselheiros.

— Talvez possamos evitar esta batalha. Irei ao encontro de Mordred sob bandeira de trégua. Vamos negociar.

Alguns cavaleiros protestaram: negociar com o traidor, nunca. Mas Arthur era o rei.

— Já houve morte demais. Se eu puder salvar uma vida que seja, vou tentar.

Mordred, para surpresa de todos, concordou em se encontrar com ele. Talvez também estivesse cansado. Ou talvez tivesse os próprios medos.

Arthur e Mordred se encontraram entre os dois exércitos, cada um acompanhado de alguns cavaleiros como testemunhas. Antes de ir, porém, Arthur deu uma ordem estranha: se alguém visse qualquer espada desembainhada durante a conversa, por qualquer razão, deveria soar a trombeta e atacar imediatamente. Mordred, sem saber, deu a mesma ordem aos seus homens.

O encontro começou tenso.

— Tio — disse Mordred, usando o título com ironia —, o que você oferece?

— Paz — respondeu Arthur, com calma. — Você pode ficar com as terras que tomou. Será conde, respeitado, rico. Mas reconhecerá que eu sou o rei.

Mordred hesitou. Era uma oferta generosa. Talvez até demais.

Enquanto eles negociavam, algo terrível aconteceu. Uma víbora — uma pequena cobra venenosa — deslizou pela grama e mordeu o tornozelo de um dos cavaleiros de Mordred. Por instinto, o cavaleiro puxou a espada para matar a cobra. O sol brilhou na lâmina, e os dois exércitos viram a espada desembainhada. As trombetas soaram, e de ambos os lados ergueu-se o mesmo grito: traição.

E assim, apesar de todas as tentativas de evitá-la, a batalha começou.

Era uma loucura. Cavaleiros que haviam comido juntos, rido juntos, lutado lado a lado, agora se enfrentavam até a morte. Arthur lutava como um leão, e Excalibur brilhava em sua mão. Mas, para cada inimigo que caía, caía também um amigo. Sir Bedivere, um dos últimos cavaleiros leais, lutava ao lado de Arthur, e Sir Lucan, seu irmão, protegia as costas do rei. Mordred também lutava com fúria: não tinha a nobreza de Arthur, mas tinha coragem e habilidade.

A batalha durou o dia inteiro. O sol nasceu sobre dois exércitos e se pôs sobre um campo coberto de mortos. Quando enfim escureceu, do lado de Arthur apenas três homens ainda viviam: o próprio Arthur, Sir Bedivere e Sir Lucan — e Lucan estava ferido de morte. Do lado de Mordred, restava somente Mordred. Cem mil homens foram para a batalha. Quatro sobreviveram.

Arthur avistou Mordred do outro lado do campo, apoiado na espada, ferido mas vivo.

— Senhor — implorou Sir Bedivere —, a batalha acabou. Vamos embora. Podemos nos recuperar, reunir forças.

Mas Arthur apontou para Mordred.

— Enquanto ele viver, o reino estará dividido. Enquanto ele viver, haverá guerra. Isto precisa terminar hoje.

Arthur pegou uma lança e caminhou por entre os mortos, na direção de Mordred. Mordred o viu chegar e pegou também a sua lança. Encontraram-se no centro do campo de batalha.

— Ainda podemos parar! — gritou Arthur. — Somos os únicos que restam. Não precisa terminar assim.

— Precisa, sim — respondeu Mordred. — Um de nós deve morrer. Não há outro caminho.

E ele investiu contra Arthur. Arthur bloqueou o golpe e revidou. Mesmo feridos, mesmo exaustos, os dois lutaram com toda a habilidade que possuíam. Então Arthur viu uma abertura e atravessou o corpo de Mordred com a lança. Mordred gritou — mas, com as últimas forças, puxou a lança ainda mais para dentro de si, para conseguir alcançar Arthur, e desferiu com a espada um golpe na cabeça do rei.

Os dois caíram.

Sir Bedivere e o moribundo Sir Lucan correram até Arthur. Mordred já estava morto. Mas Arthur ainda respirava.

— Meu rei — chorou Bedivere. — Viva. Por favor, viva.

Arthur abriu os olhos. Havia uma ferida terrível em sua cabeça.

— Lucan... Bedivere... meus fiéis amigos... chegou a minha hora.

Naquele momento, Lucan, ferido de morte, suspirou pela última vez e se foi. Arthur chorou em silêncio por seu cavaleiro fiel.

— Bedivere — disse Arthur, fraco —, leve-me daqui. Leve-me até a água.

Bedivere carregou seu rei através do campo de batalha, passando por todos os mortos, até chegarem a um lago.

— Bedivere — disse Arthur —, tome Excalibur. Jogue-a no lago. Depois volte e me conte o que viu.

Bedivere pegou a espada sagrada. Mas, quando olhou para ela — tão bela, cravejada de joias —, não teve coragem. Pensou que era valiosa demais para se perder, escondeu a espada e voltou para junto de Arthur.

— O que você viu? — perguntou o rei.

— Vi... vi ondas e vento — mentiu Bedivere.

— Você mente — disse Arthur, reunindo forças para uma última ordem. — Excalibur é mágica: alguma coisa teria acontecido. Vá e faça o que eu ordenei.

Bedivere voltou ao lago. Desta vez, com lágrimas nos olhos, jogou Excalibur na água. E então algo milagroso aconteceu.

Uma mão — uma mão de mulher, pálida e bela — surgiu do lago. A mão segurou Excalibur, brandiu-a três vezes no ar e a puxou para baixo das águas. A Dama do Lago havia recolhido a sua espada.

Bedivere correu de volta e contou tudo a Arthur.

— Então está feito — sussurrou o rei. — Agora... agora me leve à margem.

Bedivere carregou Arthur até a beira do lago. E ali, através da névoa que se formava, veio um barco. Nele estavam três mulheres vestidas de negro. Quando se aproximaram, Bedivere reconheceu a primeira: era Morgana le Fay, a meia-irmã de Arthur.

— Irmão — disse Morgana suavemente, sem raiva, sem triunfo, apenas com uma tristeza infinita —, venha. Vou levá-lo a Avalon. Lá tentarei curar suas feridas.

— Morgana? — Arthur a reconheceu. — Você... que foi minha inimiga... vem me salvar?

— Você foi muitas coisas para mim, Arthur — disse ela. — Inimigo, sim. Mas também irmão. E, no fim, família é família. Venha.

Bedivere deitou Arthur no barco com todo o cuidado. Arthur segurou a mão do cavaleiro.

— Meu fiel amigo... obrigado. Por tudo.

— Senhor — chorou Bedivere —, você voltará? Camelot precisa do senhor. O reino precisa. Eu preciso.

Arthur sorriu, fraco.

— Talvez. Dizem que Avalon é um lugar de cura e de mistério. Talvez eu durma lá, e sare. E talvez, quando a Bretanha mais precisar de mim, quando a esperança parecer perdida... eu volte. Não diga que o sonho acabou: diga que ele dorme. Não diga que o rei morreu: diga que ele espera.

O barco começou a se afastar, desaparecendo na névoa. Bedivere ficou sozinho na margem, chorando, olhando até o barco sumir. O último cavaleiro da Távola Redonda. Sozinho.

E assim terminou Camelot.

O grande salão ficou vazio, e a Távola Redonda, rachada e quebrada. Guinevere, ao receber a notícia, tornou-se freira e passou o resto de seus dias em oração. Lancelot, quando soube, também se retirou do mundo e viveu como ermitão. O sonho havia terminado.

Ou será que não?

Porque Bedivere não guardou a história para si. Ele a contou. Contou sobre Arthur, o menino que tirou a espada da pedra. Sobre a Távola Redonda e seus cavaleiros nobres. Sobre a busca do Santo Graal. Sobre amor, traição, guerra e sacrifício. E suas histórias foram contadas e recontadas, de geração em geração, através dos séculos.

Camelot, o lugar, caiu. Mas Camelot, a ideia, nunca caiu. A ideia de que a força deve servir à justiça. De que todos merecem ter voz. De que devemos proteger os fracos e lutar pelo que é certo, mesmo quando é difícil. Essas ideias vivem em cada pessoa que escolhe fazer o bem — vivem, também, em você.

E quanto a Arthur?

Alguns dizem que ele morreu em Avalon e foi enterrado lá. Outros dizem que ainda dorme, curado, esperando. E há quem diga que ele volta, de formas que não esperamos: cada vez que alguém defende um colega, cada vez que alguém fala a verdade quando seria mais fácil mentir, cada vez que alguém escolhe perdoar em vez de se vingar.

Há um lugar na Inglaterra, a Abadia de Glastonbury, onde dizem que Arthur está enterrado. A lápide, antes de desaparecer há séculos, trazia estas palavras:

HIC IACET ARTHURUS, REX QUONDAM REXQUE FUTURUS

(Aqui jaz Arthur, o rei que foi e o rei que será)

O rei que foi... e o rei que será. Não diz "morreu", não diz "terminou" — diz "será". Porque Arthur não fala apenas do passado. Fala também do futuro.

E assim, querido leitor, nossa jornada pelas lendas arturianas chega ao fim.

Vimos Arthur nascer em mistério e se tornar rei ao tirar a espada da pedra. Vimos nascer a Távola Redonda e conhecemos seus cavaleiros — Lancelot, Gawain, Percival, Galahad, Gareth. Acompanhamos a busca do Santo Graal, encontramos Merlin, o grande mago, e Morgana, a feiticeira de coração dividido. E vimos Camelot subir e cair.

Foi uma jornada de magia e maravilha, de amor e traição, de esperança e perda — de heróis imperfeitos tentando fazer o que é certo. Essas histórias não falam só de gente que viveu há muito tempo: falam de quem você pode se tornar. E, quando você cair, porque todos caímos às vezes, poderá se levantar, aprender e tentar de novo.

Se um dia alguém perguntar se Camelot existiu de verdade, você pode sorrir e responder: existe sempre que a gente quer que exista.

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As Últimas Lições de Camelot

Camelot caiu, mas a sua ideia — justiça, igualdade, bondade — continua viva em cada pessoa que escolhe fazer o bem. Até Morgana, inimiga de tantos anos, escolheu no fim o amor, levando o irmão para Avalon: nunca é tarde para perdoar. E o rei que foi é também o rei que será, porque a esperança, mesmo quando parece perdida, sempre encontra caminho de volta.

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