Rapunzel
Contos de Fadas

Rapunzel

por Irmãos Grimm

Idades 7-9
10 min de leitura

Era uma vez um homem e uma mulher que há muito tempo desejavam, em vão, ter um filho. Por fim, a mulher passou a ter esperança de que Deus estava para atender o seu desejo. Na parte de trás da casa deles havia uma janelinha de onde se via um jardim esplêndido, cheio das mais belas flores e ervas. Mas o jardim era cercado por um muro alto, e ninguém se atrevia a entrar ali, porque pertencia a uma feiticeira de grande poder, temida no mundo inteiro.

Um dia, a mulher estava debruçada nessa janela, olhando o jardim, quando viu um canteiro plantado com os mais belos rapúncios, as campânulas que também chamam de rapunzel. Pareciam tão frescos e verdinhos que ela sentiu uma vontade enorme de comer alguns. Essa vontade crescia a cada dia e, como ela sabia que não podia consegui-los, foi definhando, cada vez mais pálida e abatida. O marido se assustou e perguntou:

— O que aflige você, querida esposa?

— Ah — respondeu ela —, se eu não comer alguns dos rapúncios do jardim atrás da nossa casa, vou acabar morrendo.

O homem, que a amava, pensou: antes de deixar a esposa morrer, era melhor ir ele mesmo buscar os rapúncios, custasse o que custasse. Ao cair da noite, escalou o muro do jardim da feiticeira, arrancou às pressas um punhado de rapúncios e levou para a mulher. Ela logo preparou uma salada e comeu com muito gosto. Mas gostou tanto, tanto, que no dia seguinte a vontade voltou três vezes maior. Se o marido queria ter sossego, teria de descer ao jardim outra vez.

Na penumbra do entardecer, lá foi ele de novo. Mas, quando desceu do muro, levou um susto terrível: a feiticeira estava parada bem diante dele.

— Como você se atreve — disse ela, com um olhar furioso — a descer ao meu jardim e roubar os meus rapúncios como um ladrão? Você vai pagar por isso.

— Ah — respondeu ele —, que a misericórdia tome o lugar da justiça. Eu só fiz isso por necessidade. Minha esposa viu os seus rapúncios da janela e sentiu uma vontade tão grande que teria morrido se não comesse alguns.

Então a raiva da feiticeira se abrandou, e ela disse:

— Se é assim como você conta, deixo que leve quantos rapúncios quiser. Mas com uma condição: você me dará a criança que sua esposa vai trazer ao mundo. Ela será bem tratada, e eu cuidarei dela como uma mãe.

O homem, apavorado, concordou com tudo. E, quando a mulher deu à luz, a feiticeira apareceu na mesma hora, deu à criança o nome de Rapunzel e a levou consigo.

Rapunzel cresceu e se tornou a criança mais bonita debaixo do sol. Quando fez doze anos, a feiticeira a trancou numa torre no meio de uma floresta. A torre não tinha escada nem porta; só bem no alto havia uma janelinha. Quando a feiticeira queria entrar, ficava embaixo e chamava:

Rapunzel, Rapunzel,

joga tuas tranças de mel.

— Feiticeira

Rapunzel tinha cabelos magníficos e compridos, finos como ouro fiado. Quando ouvia a voz da feiticeira, soltava as tranças, enrolava-as num dos ganchos da janela, e os cabelos desciam vinte côvados até o chão. Por eles a feiticeira subia.

Passados um ou dois anos, aconteceu que o filho do rei cavalgava pela floresta e passou perto da torre. Ouviu então um canto tão encantador que parou para escutar. Era Rapunzel, que na sua solidão passava o tempo deixando a doce voz ecoar. O filho do rei quis subir até ela e procurou a porta da torre, mas não encontrou nenhuma. Voltou para casa, mas aquele canto tinha tocado tão fundo o seu coração que todos os dias ele voltava à floresta para ouvir. Uma vez, quando estava escondido atrás de uma árvore, viu a feiticeira chegar e ouviu como ela chamava:

Rapunzel, Rapunzel,

joga tuas tranças de mel.

— Feiticeira

Então Rapunzel deixou cair as tranças, e a feiticeira subiu por elas.

— Se é essa a escada por onde se sobe, também vou tentar a minha sorte — disse ele.

E no dia seguinte, quando começou a escurecer, foi até a torre e chamou:

Rapunzel, Rapunzel,

joga tuas tranças de mel.

— Filho do Rei

No mesmo instante as tranças desceram, e o filho do rei subiu.

No começo, Rapunzel ficou muito assustada, pois nunca na vida seus olhos tinham visto um homem. Mas o filho do rei começou a conversar com ela como um amigo e contou que seu coração ficara tão tocado pelo canto que não tivera mais sossego, e por isso precisara vê-la. Então Rapunzel perdeu o medo. E quando ele perguntou se ela o aceitaria como marido, e ela viu que ele era jovem e bonito, pensou consigo que ele a amaria mais do que a velha Senhora Gothel. Disse que sim e pousou a mão na dele.

— Irei com você de boa vontade, mas não sei como descer daqui. Traga um novelo de seda toda vez que vier, que eu vou tecendo uma escada. Quando ela estiver pronta, eu desço, e você me leva no seu cavalo.

Combinaram que, até lá, ele viria vê-la todas as noites, pois a velha vinha durante o dia. A feiticeira não percebeu nada, até que um dia Rapunzel lhe perguntou sem pensar:

— Diga-me, Senhora Gothel, como pode ser tão mais pesada de puxar do que o jovem filho do rei? Ele chega aqui em cima num instante.

— Ah, criança malvada! — gritou a feiticeira. — O que é que eu estou ouvindo? Pensei que tinha separado você do mundo inteiro, e ainda assim você me enganou.

Na sua fúria, agarrou as belas tranças de Rapunzel, enrolou-as duas vezes na mão esquerda, pegou uma tesoura com a direita e, tec, tec, cortou tudo; e as lindas tranças caíram no chão. E foi tão impiedosa que levou a pobre Rapunzel para um deserto, onde a menina teve de viver em grande tristeza e miséria.

No mesmo dia em que expulsou Rapunzel, porém, a feiticeira prendeu ao gancho da janela as tranças que havia cortado. E quando, à noitinha, o filho do rei veio e chamou:

Rapunzel, Rapunzel,

joga tuas tranças de mel.

— Filho do Rei

ela deixou os cabelos descerem. O filho do rei subiu, mas lá em cima não encontrou a sua querida Rapunzel, e sim a feiticeira, que o encarava com olhos maus e venenosos.

— Ah! — gritou ela, zombando. — Você veio buscar a sua querida, mas o lindo pássaro já não canta no ninho. O gato o levou, e ainda vai arranhar os seus olhos também. Rapunzel está perdida para você; nunca mais vai vê-la.

O filho do rei ficou fora de si de tanta dor e, no seu desespero, saltou do alto da torre. Escapou com vida, mas os espinhos sobre os quais caiu furaram os seus olhos. E assim ele vagou cego pela floresta, comendo apenas raízes e frutinhas, sem fazer outra coisa senão lamentar e chorar a perda da sua querida esposa. Vagou desse jeito, na miséria, por alguns anos, até que um dia chegou ao deserto onde Rapunzel vivia pobremente com os gêmeos que havia dado à luz, um menino e uma menina. Ele ouviu uma voz que lhe pareceu conhecida e caminhou na direção dela. Quando se aproximou, Rapunzel o reconheceu, lançou-se ao pescoço dele e chorou. Duas de suas lágrimas molharam os olhos do príncipe, e eles ficaram limpos de novo, e ele voltou a enxergar como antes. Então ele a levou para o seu reino, onde foram recebidos com alegria, e viveram por muitos e muitos anos felizes e contentes.

❤️ ✝️ ❤️

Moral da História

O amor verdadeiro é paciente: sabe esperar, procurar e não desistir. Mesmo nos tempos mais escuros, a esperança e a fé podem conduzir a um reencontro cheio de alegria.

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