Rei Barba de Tordo
Contos de Fadas

Rei Barba de Tordo

por Irmãos Grimm

Idades 7-9
13 min de leitura

Um rei tinha uma filha bela sem medida, mas tão orgulhosa e altiva que nenhum pretendente era bom o bastante para ela. Mandava embora um atrás do outro e, por cima, ainda caçoava de todos.

Certa vez, o rei deu um grande banquete e convidou, de longe e de perto, todos os rapazes em idade de casar. Foram todos postos em fila, conforme o título e a posição de cada um: primeiro vinham os reis, depois os grão-duques, depois os príncipes, os condes, os barões e os fidalgos. A filha do rei foi então conduzida ao longo das fileiras, mas para cada um tinha uma implicância pronta.

— Barril de vinho — disse de um que era gordo demais.

— Comprido e fino não tem tino — comentou sobre outro, alto demais.

— Baixo e roliço nunca deu serviço — disse do terceiro, baixinho demais.

— Pálido como a morte — falou do quarto, que era muito pálido.

— Galo de briga — chamou o quinto, que era vermelho demais.

— Lenha verde posta a secar atrás do fogão — disse do sexto, que não era direito o bastante.

Assim ela achava defeito em cada um, mas divertiu-se especialmente à custa de um bom rei que estava bem no alto da fila e cujo queixo tinha crescido um pouquinho torto.

— Ora vejam — gritou ela, rindo —, ele tem um queixo que parece bico de tordo!

E daquele momento em diante o rei ficou com o apelido de Rei Barba de Tordo. O velho rei, porém, vendo que a filha só fazia zombar das pessoas e desprezar todos os pretendentes ali reunidos, ficou muito zangado e jurou que ela teria como marido o primeiro mendigo que batesse às suas portas.

Poucos dias depois, um violinista veio cantar debaixo das janelas, na esperança de ganhar uma pequena esmola. Quando o rei o ouviu, disse:

— Mandem-no subir.

O violinista entrou com suas roupas sujas e esfarrapadas, cantou diante do rei e da filha e, quando terminou, pediu uma lembrancinha qualquer. O rei disse:

— Sua canção me agradou tanto que vou lhe dar minha filha como esposa.

A filha do rei estremeceu, mas o rei foi firme:

— Fiz um juramento de entregar você ao primeiro mendigo que aparecesse, e vou cumpri-lo.

De nada adiantou o que ela disse. O padre foi chamado, e ela teve de se casar com o violinista ali mesmo. Feito isso, o rei declarou:

— Agora não fica bem que você, mulher de mendigo, continue morando no meu palácio. Pode ir embora com o seu marido.

O mendigo a levou pela mão, e ela teve de sair a pé com ele. Quando chegaram a uma grande floresta, ela perguntou:

— A quem pertence esta bela floresta?

— Pertence ao Rei Barba de Tordo. Se você o tivesse aceitado, seria sua.

— Ai de mim, pobre menina, quem dera eu tivesse aceitado o Rei Barba de Tordo!

Depois chegaram a um prado, e ela perguntou de novo:

— A quem pertence este belo prado verde?

— Pertence ao Rei Barba de Tordo. Se você o tivesse aceitado, seria seu.

— Ai de mim, pobre menina, quem dera eu tivesse aceitado o Rei Barba de Tordo!

Então chegaram a uma grande cidade, e ela perguntou mais uma vez:

— A quem pertence esta cidade tão grande e bonita?

— Pertence ao Rei Barba de Tordo. Se você o tivesse aceitado, seria sua.

— Ai de mim, pobre menina, quem dera eu tivesse aceitado o Rei Barba de Tordo!

— Não me agrada nada — disse o violinista — ouvir você desejando outro marido o tempo todo. Por acaso eu não sirvo para você?

Por fim chegaram a uma cabana muito pequena, e ela disse:

— Meu Deus, que casa pequenina. De quem será este casebre pobre e miserável?

O violinista respondeu:

— Esta é a minha casa e a sua, onde vamos viver juntos.

Ela teve de se curvar para passar pela porta baixa.

— Onde estão os criados? — perguntou a filha do rei.

— Que criados? — respondeu o mendigo. — Aqui, o que você quiser feito, você mesma faz. Vamos, acenda logo o fogo e ponha água para cozinhar o meu jantar, que estou muito cansado.

Mas a filha do rei não entendia nada de acender fogo nem de cozinhar, e o mendigo teve de pôr as próprias mãos na obra para que alguma coisa saísse direito. Quando terminaram a magra refeição, foram dormir; mas, de manhã bem cedo, ele a obrigou a se levantar para cuidar da casa.

Por alguns dias viveram desse jeito, como deu, até que as provisões acabaram de vez. Então o homem disse:

— Mulher, não podemos continuar comendo e bebendo sem ganhar nada. Você vai tecer cestos.

Ele saiu, cortou uns ramos de salgueiro e os trouxe para casa. Ela começou a tecer, mas os ramos duros feriam suas mãos delicadas.

— Vejo que isso não vai dar certo — disse o homem. — Melhor você fiar; quem sabe se sai melhor.

Ela se sentou e tentou fiar, mas o fio áspero logo cortou seus dedos macios, e o sangue escorreu.

— Está vendo? — disse o homem. — Você não serve para trabalho nenhum; fiz um mau negócio com você. Agora vou tentar um comércio de potes e louça de barro. Você vai se sentar na praça do mercado e vender a mercadoria.

E ela pensou consigo, aflita: se alguém do reino de seu pai viesse ao mercado e a visse sentada ali, vendendo potes, como não iriam caçoar dela? Mas não teve jeito: ou cedia, ou morria de fome.

Da primeira vez, tudo correu bem. As pessoas compravam de bom grado as mercadorias da moça, porque ela era bonita, e pagavam o que ela pedia; muitos até lhe davam o dinheiro e deixavam os potes com ela. Viveram do que ela ganhou enquanto o dinheiro durou, e então o marido comprou um novo carregamento de louça. Ela se sentou com ele num canto da praça do mercado e arrumou tudo ao seu redor, pronto para a venda. De repente, veio um hussardo bêbado a galope, e o cavalo passou por cima dos potes, quebrando tudo em mil pedaços. Ela começou a chorar e, de tanto medo, não sabia o que fazer.

— Ai de mim, o que será de mim agora? — soluçava. — O que o meu marido vai dizer?

Correu para casa e contou-lhe a desgraça.

— Quem é que se senta na esquina da praça com louça de barro? — disse o homem. — Pare de chorar. Já vi que você não dá conta de nenhum trabalho comum, por isso estive no palácio do nosso rei e perguntei se não precisavam de uma ajudante de cozinha. Prometeram aceitar você; assim, pelo menos, terá comida de graça.

A filha do rei virou então ajudante de cozinha. Tinha de estar às ordens do cozinheiro e fazer o trabalho mais pesado e mais sujo. Num bolso e no outro, prendeu um potinho, no qual levava para casa a sua parte das sobras, e era disso que os dois viviam.

Aconteceu que ia se celebrar o casamento do filho mais velho do rei. A pobre mulher subiu e ficou junto à porta do salão, para olhar. Quando as velas todas se acenderam e os convidados foram entrando, cada um mais bonito que o outro, e tudo se encheu de pompa e esplendor, ela pensou na própria sorte com o coração apertado, e amaldiçoou o orgulho e a altivez que a haviam rebaixado e atirado em tamanha pobreza. Dos pratos deliciosos que os criados levavam de lá para cá, chegava até ela o cheiro, e de vez em quando os criados lhe atiravam alguns bocados, que ela ia guardando nos potinhos para levar para casa.

De repente, entrou o filho do rei, vestido de veludo e seda, com correntes de ouro em volta do pescoço. Quando viu a bela mulher parada à porta, tomou-a pela mão e quis dançar com ela; mas ela recusou e se encolheu de medo, pois viu que era o Rei Barba de Tordo, o pretendente que ela havia despachado com desprezo. Não adiantou resistir: ele a puxou para dentro do salão. Nisso, arrebentou o cordão que prendia os bolsos, os potes caíram, a sopa se derramou, e os restos de comida se espalharam pelo chão. Quando as pessoas viram aquilo, o salão inteiro caiu na risada e na zombaria, e ela sentiu tanta vergonha que preferia estar mil braças debaixo da terra. Correu para a porta e teria fugido, mas na escada um homem a alcançou e a trouxe de volta. Quando ela o olhou, era outra vez o Rei Barba de Tordo, que lhe disse com bondade:

— Não tenha medo. Eu e o violinista que viveu com você naquele casebre somos um só. Por amor a você, eu me disfarcei; e também fui eu o hussardo que passou por cima da sua louça. Tudo isso foi feito para curvar o seu espírito orgulhoso e corrigir a insolência com que você zombou de mim.

Então ela chorou amargamente e disse:

— Errei muito, e não sou digna de ser sua esposa.

Mas ele respondeu:

— Console-se: os dias maus já passaram. Agora vamos celebrar o nosso casamento.

As damas de companhia vieram vesti-la com as roupas mais esplêndidas, e seu pai chegou com toda a corte para lhe desejar felicidades no casamento com o Rei Barba de Tordo, e só então começou a alegria de verdade. Eu bem que gostaria que você e eu tivéssemos estado lá também.

❤️ ✝️ ❤️

Moral da História

O orgulho fecha o coração e acaba deixando a gente sozinho. A humildade, ao contrário, abre caminho para o amor, e quem aprende a reconhecer os próprios erros encontra alegria de sobra do outro lado.

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