O Rei Sapo ou Henrique de Ferro
Contos de Fadas

O Rei Sapo ou Henrique de Ferro

por Irmãos Grimm

Idades 7-9
11 min de leitura

Nos tempos antigos, quando desejar ainda adiantava, vivia um rei cujas filhas eram todas lindas; mas a mais nova era tão bela que o próprio sol, que já viu tanta coisa, ficava admirado toda vez que brilhava no rosto dela. Perto do castelo do rei havia uma grande floresta escura e, na floresta, debaixo de uma velha tília, havia um poço. Nos dias muito quentes, a filha do rei ia até a floresta e se sentava à beira da fonte fresca. Quando o tempo custava a passar, pegava uma bola de ouro, jogava-a para o alto e a apanhava de novo; essa bola era o seu brinquedo preferido.

Aconteceu que, certa vez, a bola dourada não caiu na mãozinha que a princesa estendia, mas bateu no chão mais adiante e rolou direto para a água. A filha do rei a acompanhou com os olhos, mas a bola sumiu, e o poço era fundo, tão fundo que não se enxergava o fim. Então ela começou a chorar, e chorou cada vez mais alto, sem consolo nenhum. E, enquanto se lamentava assim, alguém lhe disse:

— O que aflige você, filha do rei? Você chora tanto que até uma pedra teria pena.

Ela olhou para o lado de onde vinha a voz e viu um sapo esticando para fora da água a cabeça grossa e feia.

— Ah, é você, velho patinhador de água — disse ela. — Estou chorando pela minha bola de ouro, que caiu no poço.

— Acalme-se e não chore — respondeu o sapo. — Eu posso ajudar. Mas o que você me dá se eu trouxer o seu brinquedo de volta?

— O que você quiser, querido sapo — disse ela. — Minhas roupas, minhas pérolas e joias, e até a coroa de ouro que estou usando.

O sapo respondeu:

— Não quero as suas roupas, as suas pérolas e joias, nem a sua coroa de ouro. Mas, se você me amar e me deixar ser seu companheiro e amigo de brincadeiras, sentar ao seu lado na sua mesinha, comer no seu pratinho de ouro, beber no seu copinho e dormir na sua caminha — se você me prometer isso, eu desço lá no fundo e trago a sua bola de ouro de volta.

— Ah, sim — disse ela —, prometo tudo o que você quiser, contanto que traga a minha bola de volta.

No fundo, porém, ela pensava: que conversa boba a desse sapo. Ele vivia na água coaxando com os outros sapos; como poderia ser companhia para gente?

O sapo, assim que recebeu a promessa, mergulhou a cabeça na água e afundou. Dali a pouco voltou nadando com a bola na boca e a jogou na grama. A filha do rei ficou encantada de rever o seu lindo brinquedo, apanhou-o e saiu correndo com ele.

— Espere, espere — disse o sapo. — Leve-me com você. Eu não consigo correr desse jeito.

Mas de que adiantava coaxar atrás dela o mais alto que podia? Ela não escutou. Correu para casa e logo esqueceu o pobre sapo, que teve de voltar para o seu poço.

No dia seguinte, quando ela se sentou à mesa com o rei e todos os cortesãos e comia no seu pratinho de ouro, alguma coisa veio subindo a escada de mármore, plique, ploque, plique, ploque. Ao chegar lá em cima, bateu à porta e chamou:

— Princesa, princesa mais nova, abra a porta para mim.

Ela correu para ver quem estava do lado de fora; mas, quando abriu a porta, deu com o sapo sentado ali na sua frente. Bateu a porta às pressas, voltou para a mesa e ficou muito assustada. O rei percebeu que o coração da filha batia disparado e perguntou:

— Minha filha, de que você tem tanto medo? Por acaso há um gigante aí fora querendo levá-la embora?

— Ah, não — respondeu ela. — Não é gigante nenhum; é um sapo horroroso.

— E o que um sapo quer com você?

— Ah, querido pai, ontem eu estava na floresta, sentada à beira do poço, brincando, e a minha bola de ouro caiu na água. Como eu chorei muito, o sapo a trouxe de volta; e, como ele insistiu tanto, prometi que ele seria meu companheiro. Mas eu nunca pensei que ele pudesse sair da água. Agora está aí fora e quer entrar.

Nesse meio tempo, bateram pela segunda vez, e uma voz chamou:

Princesa, princesinha,

abre a porta para mim.

Esqueceste o que disseste

junto à fonte? Pois foi assim.

Princesa, princesinha,

abre a porta para mim.

— O Sapo

Então disse o rei:

— O que você prometeu, deve cumprir. Vá e deixe-o entrar.

Ela foi e abriu a porta, e o sapo pulou para dentro e a seguiu, pulinho por pulinho, até a cadeira dela. Ali parou e pediu:

— Levante-me e ponha-me ao seu lado.

Ela hesitou, até que o rei ordenou que obedecesse. Quando o sapo se viu na cadeira, quis subir na mesa; e, já na mesa, disse:

— Agora empurre o seu pratinho de ouro para mais perto de mim, para comermos juntos.

Ela empurrou, mas dava para ver que não era de boa vontade. O sapo comeu com gosto, mas para ela quase cada bocado ficava atravessado na garganta. Por fim, ele disse:

— Comi e estou satisfeito. Agora estou cansado: leve-me para o seu quartinho e arrume a sua caminha de seda, que nós dois vamos nos deitar e dormir.

A filha do rei começou a chorar, pois tinha medo daquele sapo frio em que não gostava nem de encostar, e que agora ia dormir na sua caminha limpa e bonita. Mas o rei ficou zangado e disse:

— Quem ajudou você na hora do aperto não merece o seu desprezo depois.

Então ela pegou o sapo com dois dedos, levou-o para cima e o pôs num canto do quarto. Mas, quando ela já estava na cama, ele veio se arrastando e disse:

— Estou cansado e quero dormir tão bem quanto você. Levante-me, ou eu conto para o seu pai.

Aí ela ficou furiosa de verdade: agarrou o sapo e atirou-o com toda a força contra a parede.

— Agora você vai ficar quieto, sapo detestável — disse ela.

Mas, quando ele caiu, já não era um sapo: era um filho de rei, de olhos bonitos e bondosos. Pela vontade do pai dela, tornou-se então seu querido companheiro e marido. Ele lhe contou como fora enfeitiçado por uma bruxa malvada, e como ninguém no mundo poderia tê-lo libertado do poço, a não ser ela mesma; e disse que no dia seguinte iriam juntos para o reino dele. Depois foram dormir. Na manhã seguinte, quando o sol os acordou, chegou uma carruagem puxada por oito cavalos brancos, com plumas brancas de avestruz na cabeça e arreios de correntes de ouro. Atrás vinha o criado do jovem rei, o Fiel Henrique.

O Fiel Henrique tinha ficado tão infeliz quando seu senhor foi transformado em sapo que mandara prender três aros de ferro em volta do próprio coração, para que ele não se partisse de dor e de tristeza. A carruagem vinha buscar o jovem rei para levá-lo ao seu reino. O Fiel Henrique ajudou os dois a subir, tomou de novo o seu lugar atrás e ia cheio de alegria por causa daquela libertação. Quando já tinham andado um pedaço do caminho, o filho do rei ouviu um estalo às suas costas, como se alguma coisa tivesse quebrado. Virou-se e disse:

— Henrique, a carruagem está quebrando.

— Não, meu senhor, não é a carruagem. É um aro do meu coração, que foi posto ali na minha grande dor, quando o senhor era um sapo e vivia preso no poço.

Mais uma vez, e ainda outra, algo estalou pelo caminho, e a cada estalo o filho do rei pensava que a carruagem se quebrava. Mas eram somente os aros que saltavam do coração do Fiel Henrique, porque o seu senhor estava livre e era feliz.

❤️ ✝️ ❤️

Moral da História

Palavra dada é palavra cumprida, mesmo quando cumprir custa um pouco. Quem honra as próprias promessas e não despreza quem o ajudou pode encontrar, escondida no que parecia feio, uma bênção inesperada.

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