Os Seis Cisnes
Contos de Fadas

Os Seis Cisnes

por Irmãos Grimm

Idades 10-12
14 min de leitura

Era uma vez um rei que caçava numa grande floresta e perseguiu uma fera com tanto afinco que nenhum dos seus acompanhantes conseguiu segui-lo. Quando a noite se aproximou, ele parou, olhou ao redor e percebeu que estava perdido. Procurou uma saída, mas não encontrou nenhuma. Foi então que viu vir na sua direção uma mulher muito velha, de cabeça sempre a balançar; e ela era uma bruxa.

— Boa mulher — disse ele —, será que você não pode me mostrar o caminho para atravessar a floresta?

— Ah, sim, senhor rei — respondeu ela —, isso eu posso, sim. Mas com uma condição; e, se não a cumprir, o senhor nunca mais sairá desta floresta e há de morrer de fome dentro dela.

— E que condição é essa? — perguntou o rei.

— Eu tenho uma filha — disse a velha — tão bela quanto qualquer moça deste mundo, e ela bem merece ser sua esposa. Se o senhor a fizer rainha, eu lhe mostro o caminho para fora da floresta.

Na angústia do seu coração, o rei consentiu, e a velha o levou até a sua cabana, onde a filha estava sentada junto ao fogo. Ela recebeu o rei como se já o estivesse esperando, e ele viu que era muito bonita; mesmo assim, a moça não lhe agradava, e ele não conseguia olhá-la sem um secreto arrepio. Depois de acomodar a donzela no cavalo, a velha lhe mostrou o caminho, e o rei chegou de volta ao seu palácio, onde o casamento foi celebrado.

O rei já tinha sido casado uma vez e, da primeira esposa, tinha sete filhos: seis meninos e uma menina, a quem amava mais do que tudo neste mundo. Como agora temia que a madrasta não os tratasse bem, e até lhes fizesse algum mal, levou-os para um castelo solitário no meio de uma floresta. Ficava tão escondido, e o caminho era tão difícil de achar, que nem ele mesmo o encontraria se uma mulher sábia não lhe tivesse dado um novelo de lã com propriedades maravilhosas: quando ele o jogava à sua frente, o novelo se desenrolava sozinho e lhe mostrava o caminho.

O rei, porém, ia visitar os filhos queridos com tanta frequência que a rainha estranhou as suas ausências. Ficou curiosa e quis saber o que ele fazia sozinho na floresta. Deu muito dinheiro aos criados, e eles lhe entregaram o segredo, contando também do novelo, o único que sabia apontar o caminho. A partir daí ela não teve sossego enquanto não descobriu onde o rei guardava o novelo de lã. Então costurou pequenas camisas de seda branca e, como tinha aprendido com a mãe as artes da feitiçaria, coseu um encantamento dentro delas. Um dia, quando o rei saiu para caçar, ela pegou as camisinhas de seda e entrou na floresta, e o novelo lhe mostrou o caminho.

As crianças, vendo de longe que alguém se aproximava, pensaram que era o querido pai e correram ao seu encontro, cheias de alegria. Então a rainha atirou sobre cada uma delas uma das pequenas camisas; e, mal as camisas tocaram os seus corpos, elas se transformaram em cisnes e voaram para longe, por cima da floresta. A rainha voltou para casa muito satisfeita, certa de que tinha se livrado dos enteados. Mas a menina não havia corrido com os irmãos, e dela a rainha não sabia nada.

No dia seguinte, o rei foi visitar os filhos, mas só encontrou a menina.

— Onde estão os seus irmãos? — perguntou o rei.

— Ai de mim, querido pai — respondeu ela —, eles se foram e me deixaram sozinha.

E contou-lhe que tinha visto da janelinha os irmãos voarem por cima da floresta em forma de cisnes, e mostrou as penas que eles haviam deixado cair no pátio e que ela recolhera. O rei se entristeceu, mas não imaginou que aquela maldade fosse obra da rainha. Temendo que a menina também lhe fosse roubada, quis levá-la consigo. Ela, porém, tinha medo da madrasta e implorou ao rei que a deixasse ficar só mais uma noite no castelo da floresta.

A pobre menina pensou consigo mesma que não podia mais ficar ali: iria procurar os irmãos. Quando a noite chegou, fugiu e entrou floresta adentro. Andou a noite inteira e o dia seguinte também, sem parar, até que o cansaço não a deixou dar mais um passo. Viu então uma cabana na mata, entrou e encontrou um quarto com seis caminhas. Não se atreveu a deitar em nenhuma delas: escondeu-se debaixo de uma e acomodou-se no chão duro, disposta a passar ali a noite.

Pouco antes do pôr do sol, porém, ouviu um farfalhar e viu seis cisnes entrarem voando pela janela. Eles pousaram no chão e sopraram uns nos outros, soprando fora todas as penas, e as suas peles de cisne se soltaram como uma camisa. A donzela olhou para eles e reconheceu os irmãos. Alegrou-se e saiu de debaixo da cama, e os irmãos não ficaram menos contentes de ver a irmãzinha. Mas a alegria durou pouco.

— Aqui você não pode ficar — disseram eles. — Isto é abrigo de ladrões. Se eles voltarem e a encontrarem, vão matá-la.

— Mas vocês não podem me proteger? — perguntou a irmãzinha.

— Não — responderam. — Só por um quarto de hora, a cada noite, podemos deixar de lado as peles de cisne e ter a nossa forma humana. Depois disso, viramos cisnes outra vez.

A irmãzinha chorou e perguntou:

— E vocês não podem ser libertados?

— Ai de nós, não — responderam eles. — As condições são duras demais. Por seis anos você não poderá falar nem rir, e nesse tempo terá de costurar para nós seis pequenas camisas de estrelária, a flor-estrela dos campos. Se uma só palavra sair dos seus lábios, todo o trabalho estará perdido.

Quando os irmãos acabaram de dizer isso, o quarto de hora terminou, e eles saíram voando pela janela, outra vez em forma de cisnes.

A donzela, contudo, tomou a firme decisão de libertar os irmãos, ainda que isso lhe custasse a vida. Deixou a cabana, foi para o meio da floresta, acomodou-se numa árvore e ali passou a noite. Na manhã seguinte, desceu, colheu estrelárias e começou a costurar. Não podia conversar com ninguém, e rir ela não tinha vontade; ficava ali sentada, sem olhar para nada além do seu trabalho.

Já fazia muito tempo que vivia assim quando aconteceu de o rei daquele país estar caçando na floresta, e os seus caçadores chegaram à árvore onde a donzela estava. Chamaram-na, perguntando quem era ela, mas não obtiveram resposta.

— Desça até aqui — disseram. — Não vamos lhe fazer mal nenhum.

Ela apenas balançou a cabeça. Como insistissem com perguntas, ela lhes jogou o seu colar de ouro, pensando em contentá-los assim. Eles não desistiram, e então ela jogou o cinto; como tampouco adiantasse, as ligas, e aos poucos tudo o que trazia e de que podia abrir mão, até ficar só com a camisola. Nem assim os caçadores se deram por vencidos: subiram na árvore, desceram a donzela e a levaram à presença do rei.

O rei perguntou quem era ela e o que fazia na árvore, mas ela não respondeu. Ele repetiu a pergunta em todas as línguas que conhecia, e ela permaneceu muda como um peixe. Como era tão bela, o coração do rei se comoveu, e ele foi tomado de um grande amor por ela. Envolveu-a no seu manto, colocou-a diante de si no cavalo e a levou para o seu castelo. Mandou vesti-la com roupas ricas, e ela resplandecia em sua beleza como a luz do dia, mas nem uma palavra se conseguia arrancar dela. À mesa, sentou-a ao seu lado, e o jeito modesto e delicado da moça lhe agradou tanto que ele declarou que era com ela que desejava se casar, e com nenhuma outra mulher no mundo. E, passados alguns dias, casou-se com ela.

O rei, porém, tinha uma mãe malvada, que não aprovava aquele casamento e falava mal da jovem rainha.

— Quem sabe de onde veio essa criatura que não fala? — dizia ela. — Não é digna de um rei.

Um ano depois, quando a rainha trouxe ao mundo o seu primeiro filho, a velha o tirou dela enquanto dormia e lhe sujou a boca de sangue. Depois foi ao rei e acusou a rainha de devorar gente. O rei não quis acreditar e não permitiu que lhe fizessem mal algum. E ela, sentada, seguia costurando as camisas, sem se importar com nenhuma outra coisa.

Da vez seguinte, quando ela deu à luz outro lindo menino, a falsa sogra usou a mesma traição, mas o rei não conseguiu dar crédito às suas palavras. Dizia ele que a rainha era piedosa e boa demais para fazer algo assim, e que, se não fosse muda e pudesse se defender, a sua inocência viria à luz. Mas, quando a velha roubou o recém-nascido pela terceira vez e acusou a rainha, que não pronunciou uma palavra em sua defesa, o rei não teve outro remédio senão entregá-la à justiça, e ela foi condenada a morrer no fogo.

Quando chegou o dia marcado para a execução da sentença, era justamente o último dia dos seis anos em que ela não podia falar nem rir, e ela havia libertado os seus queridos irmãos do poder do encantamento. As seis camisas estavam prontas; só faltava a manga esquerda da sexta. Quando a levaram à fogueira, ela pôs as camisas sobre o braço. E, quando já estava lá no alto e o fogo ia ser aceso, olhou ao redor e viu seis cisnes que vinham voando pelos ares na sua direção. Então compreendeu que a sua libertação estava próxima, e o coração lhe saltou de alegria.

Os cisnes desceram até ela e pousaram tão perto que ela pôde lançar as camisas sobre eles. Mal foram tocados, as peles de cisne caíram, e os seus irmãos apareceram diante dela na própria forma, fortes e belos. Só ao mais novo faltava o braço esquerdo; no lugar dele, trazia no ombro uma asa de cisne. Eles se abraçaram e se beijaram, e a rainha foi até o rei, que estava profundamente comovido, e começou a falar:

— Querido esposo, agora posso falar e declarar a você que sou inocente e fui acusada falsamente.

E contou-lhe a traição da velha, que levara embora e escondera os seus três filhos. Para grande alegria do rei, as crianças foram trazidas de volta; e, como castigo, a sogra malvada foi amarrada à estaca e queimada até virar cinzas. Mas o rei e a rainha, com os seis irmãos dela, viveram muitos anos em felicidade e paz.

❤️ ✝️ ❤️

Moral da História

O amor que se cala e trabalha, dia após dia, é dos mais fortes que existem. A perseverança da irmã desfez o encantamento, e a verdade, mesmo demorando, veio à luz no tempo certo.

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