Era a manhã de 13 de outubro de 1917, e uma multidão imensa caminhava para a Cova da Iria. Vinha gente de todo o Portugal. Alguns tinham andado dias inteiros. Carroças, carruagens, automóveis, bicicletas e milhares de pessoas a pé, todos indo para um campo simples onde três crianças diziam que Nossa Senhora aparecia.
Mas havia um problema: chovia sem parar, uma chuva fria de outubro. O campo tinha virado um lamaçal, e as pessoas estavam encharcadas. Jornalistas que não acreditavam em nada também estavam lá, rindo por baixo dos guarda-chuvas, prontos para escrever que aquilo tudo não passava de uma farsa. O céu estava coberto de nuvens cinzentas e pesadas, sem um único raio de sol. Como poderia haver um milagre com um tempo daqueles?

Eram cerca de setenta mil pessoas. Senhoras elegantes com seus guarda-chuvas, camponeses pobres, padres, curiosos, gente de fé e gente sem fé, jornalistas e fotógrafos. Todos molhados, todos na lama, todos esperando.
Ao meio-dia, Lúcia, Francisco e Jacinta chegaram, pequenos e humildes, abrindo caminho por entre aquela multidão enorme.
— Fechem os guarda-chuvas — pediu Lúcia. — Nossa Senhora está chegando.
E aconteceu uma coisa curiosa: as setenta mil pessoas obedeceram. Fecharam os guarda-chuvas debaixo da chuva e ficaram ainda mais molhadas. Havia algo na voz daquela menina que fazia a gente acreditar.

Então veio o clarão, e Nossa Senhora apareceu sobre a azinheira. Só as três crianças a viam.
— O que a Senhora quer de mim? — perguntou Lúcia.
— Quero dizer-te que façam aqui uma capela em minha honra — respondeu Nossa Senhora. — Que continuem sempre a rezar o terço todos os dias. A guerra vai acabar, e os soldados voltarão em breve para as suas casas.
— Tenho muitas coisas para pedir — disse Lúcia. — Curas de doentes, conversões...
— Algumas sim, outras não — respondeu Nossa Senhora. — É preciso que se emendem e peçam perdão dos seus pecados.
E, ficando muito séria, acrescentou:
— Que não ofendam mais a Deus Nosso Senhor, que já está muito ofendido.
Então Nossa Senhora abriu as mãos, e a luz que saía delas subiu e pareceu refletir no próprio sol.
— Olhem para o sol! — gritou Lúcia para a multidão.
E aconteceu. A chuva parou de repente, as nuvens se abriram, e o sol apareceu. Mas não era o sol de sempre. Era como um disco prateado, que se podia olhar sem machucar os olhos. E então o sol começou a dançar.

As testemunhas contaram depois o que viram. O sol começou a girar como uma roda de fogo, cada vez mais depressa, lançando raios de luz colorida para todos os lados: vermelho, azul, amarelo, verde, roxo. A paisagem inteira mudava de cor. As pessoas, as árvores, o chão, tudo ficava banhado naquela luz que ninguém sabia explicar.
— Milagre! Milagre! — gritavam milhares de vozes.
Havia gente de joelhos na lama, chorando. Gente que nunca rezava começou a rezar. Pecadores pediam perdão a Deus em voz alta.
Mas então aconteceu algo assustador. O sol pareceu soltar-se do céu e começou a descer, como se fosse cair sobre a terra.
— O sol está caindo! — gritavam as pessoas, apavoradas. — É o fim do mundo!
As mães apertavam os filhos no colo. Homens grandes choravam. A multidão inteira pedia misericórdia, porque o sol parecia cada vez maior e mais próximo.

E então, quando o medo era maior, o sol parou. Subiu devagar de volta ao seu lugar no céu e ficou quieto, como sempre. O milagre tinha durado cerca de doze minutos.
As pessoas foram se levantando devagar, tremendo, chorando, mas vivas. E aí perceberam outra coisa espantosa: as roupas de todos estavam completamente secas. Minutos antes, estavam encharcados de chuva e cobertos de lama; agora, secos e limpos, como se não tivesse chovido nada. Até o chão do campo estava seco.
Os jornalistas que tinham vindo para zombar ficaram sem palavras. Avelino de Almeida, repórter do maior jornal anticatólico de Portugal, escreveu que, diante dos olhos espantados daquela multidão, o sol tremeu e fez movimentos bruscos nunca vistos — o sol "dançou", como diziam os camponeses. Outro jornalista contou que o sol ficou pálido como um disco de prata fosca, girando sobre si mesmo. E um professor da Universidade de Coimbra, o doutor José Almeida Garrett, descreveu num relatório cuidadoso que o sol às vezes parecia desprender-se do céu e avançar sobre a terra. Até os que duvidavam de tudo tiveram de admitir que algo fora do comum tinha acontecido ali.

Enquanto isso, as três crianças tinham visto algo mais. Quando Nossa Senhora abriu as mãos, elas enxergaram, ao lado do sol, três visões. Primeiro, São José com o Menino Jesus no braço, os dois abençoando o mundo. Depois, Jesus adulto abençoando o povo, tendo ao lado Nossa Senhora das Dores, vestida de roxo. Por fim, Nossa Senhora sozinha, radiante, como Nossa Senhora do Carmo. Só as crianças viram essas visões. Mas o sol, esse, a multidão inteira viu dançar.
Quando tudo acabou, o campo era um alvoroço. As pessoas riam e choravam ao mesmo tempo, abraçavam-se, contavam umas às outras o que tinham visto. Um homem que tinha ido lá para zombar caiu de joelhos e pediu perdão a Deus ali mesmo. Contam-se também curas e muitíssimas conversões naquele dia. Milhares de pessoas voltaram para casa diferentes de como tinham chegado.

Nos dias seguintes, os jornais noticiaram o fenômeno solar de Fátima, e até os contrários à religião tiveram de admitir que algo inexplicável acontecera. Alguns tentaram explicar: teria sido imaginação da multidão. Mas como setenta mil pessoas poderiam imaginar a mesma coisa, ao mesmo tempo? Teria sido um fenômeno do tempo. Mas que fenômeno faz o sol parecer cair, e ainda seca num instante a roupa de setenta mil pessoas e um campo inteiro de lama? Para quem estava lá, não havia dúvida. Era um milagre. Deus tinha falado.
E por que Deus faria um milagre tão espetacular? Para confirmar a mensagem. Nossa Senhora tinha confiado às crianças pedidos importantes, mas muita gente duvidava, dizendo que eram só crianças inventando histórias. Então Deus fez algo que ninguém poderia negar, diante de setenta mil testemunhas: gente de fé, gente sem fé, jornalistas, fotógrafos. A mensagem de Nossa Senhora era verdadeira e precisava ser ouvida: rezar o terço todos os dias, fazer penitência, voltar o coração para Deus.

O Milagre do Sol é considerado o maior milagre público dos tempos modernos. Nunca tantas pessoas testemunharam juntas, com tanta clareza, um acontecimento assim. A Igreja Católica investigou tudo com muito cuidado, durante anos: ouviu testemunhas, examinou relatos, consultou estudiosos. Em 1930, o Bispo de Leiria declarou oficialmente que as aparições de Nossa Senhora em Fátima eram dignas de crédito, e que os fiéis podiam acreditar nelas. Fátima estava aprovada pela Igreja.
Hoje, o Santuário de Fátima é um dos lugares de peregrinação mais visitados do mundo. Milhões de pessoas vêm todos os anos, de todos os países. Vários Papas já estiveram lá e consagraram o mundo ao Imaculado Coração de Maria. São João Paulo II tinha uma devoção especial por Fátima: quando sofreu um atentado em 1981 — num 13 de maio, aniversário da primeira aparição —, ele atribuiu a Nossa Senhora de Fátima o fato de ter sobrevivido. A bala que quase o matou foi colocada na coroa da imagem de Nossa Senhora de Fátima.

O Milagre do Sol ficou na memória do mundo como um sinal de que Deus existe e se importa conosco, de que Nossa Senhora é nossa Mãe e vem nos avisar e ajudar, e de que os milagres não aconteceram só nos tempos da Bíblia. A promessa feita em julho foi cumprida em outubro, no dia e na hora marcados, diante de todos.
— Eu sou a Senhora do Rosário — disse ela naquele dia. — Continuem sempre a rezar o terço todos os dias.
Reflexão



