Em Corinto vivia um jovem príncipe chamado Belerofonte. Era bonito, forte e habilidoso com a espada e a lança. Tinha tudo para se tornar um grande herói.
Mas um dia, durante os jogos atléticos, aconteceu uma tragédia. Belerofonte matou um homem por acidente — algumas versões dizem que era seu próprio irmão. Tinha sido um acidente, mas uma vida se perdera, e a lei era dura.
— Você matou — disseram as autoridades. — Deve ser exilado.
E Belerofonte deixou Corinto, envergonhado e triste.
Belerofonte viajou até Tirinto, uma cidade governada pelo rei Preto.
— Grande rei — disse ele —, matei sem querer. Peço purificação e abrigo.
Preto era bondoso. Acolheu o jovem, realizou os rituais de purificação e lavou dele a culpa do sangue. Belerofonte ficou morando no palácio, e todos gostavam dele, pois era educado e respeitoso.
Mas a rainha, esposa de Preto, começou a gostar de Belerofonte de um jeito que não devia. Seu nome era Estenebeia, e ela o queria só para si.
— Belerofonte — disse Estenebeia um dia —, fuja comigo. Deixe este reino. Seremos felizes.
Belerofonte ficou horrorizado.
— Rainha, sou hóspede do seu marido. Nunca o trairia. Isso seria desonra. Não posso, e não vou.
— Você me rejeita? — disse Estenebeia, furiosa.
Belerofonte saiu respeitosamente. Mas a rainha, cheia de raiva e vergonha, procurou o marido com uma mentira terrível.
— Preto — chorou ela —, Belerofonte tentou me seduzir. Quis trair você dentro da sua própria casa.
Preto ficou furioso, mas se viu num dilema. As leis de hospitalidade eram sagradas na Grécia: matar um hóspede era sacrilégio, e os deuses o puniriam. Por outro lado, ele não podia deixar sem castigo quem, acreditava ele, insultara sua esposa. Então o rei teve uma ideia cruel.
— Belerofonte — disse ele —, preciso que leve uma mensagem ao rei Iobates, da Lícia. Ele é meu sogro. Entregue esta carta selada, e não a abra.
Belerofonte, sem desconfiar de nada, aceitou a tarefa.
O que Belerofonte não sabia era o que estava escrito na carta. Nela, Preto contava ao sogro que o portador daquela mensagem havia insultado sua esposa, mas que ele não podia matá-lo, pois era seu hóspede. E pedia: que Iobates fizesse o que ele não podia fazer, e desse fim a Belerofonte.
O jovem viajou tranquilo até a Lícia e entregou a carta. Iobates leu... e caiu no mesmo problema do genro. Belerofonte agora era hóspede dele, e as mesmas leis sagradas o protegiam.
Então Iobates teve uma ideia. Daria ao rapaz uma missão impossível. Ele morreria tentando cumpri-la, e nenhuma lei de hospitalidade teria sido quebrada.
— Belerofonte — disse Iobates —, meu reino sofre. Um monstro terrível nos atormenta: a Quimera. Tem cabeça de leão, corpo de cabra e uma cauda que é uma serpente venenosa. E cospe fogo pela boca. Devora rebanhos, queima campos, mata pessoas. Se você a vencer, será recompensado generosamente.
Belerofonte nunca tinha ouvido falar de tal criatura, mas aceitou na hora. E Iobates pensou, satisfeito, que ninguém sobrevivia à Quimera.
Antes de partir, porém, Belerofonte foi rezar no templo de Atena.
— Deusa da sabedoria, como posso vencer um monstro que cospe fogo? Se eu chegar perto, serei queimado. Se ficar longe, não posso atacar.
Ele adormeceu ali mesmo, no templo. E teve um sonho. Atena apareceu diante dele.
— Belerofonte, você é honrado, e eu o ajudarei. Para vencer a Quimera, você precisa atacar de onde ela não pode alcançar. Você precisa de Pégaso.
— Pégaso? — perguntou ele.
— O cavalo alado, nascido do sangue da Medusa quando Perseu a venceu. Ele vive nas montanhas, branco como a neve, com asas de águia. Ninguém jamais conseguiu domá-lo, pois é selvagem e livre. Mas esta rédea de ouro mágica o acalmará. Use-a.
Quando Belerofonte acordou, havia uma rédea de ouro brilhante ao seu lado. Não tinha sido apenas um sonho. Atena realmente viera.
Belerofonte subiu as montanhas e procurou por dias. Até que o viu: Pégaso, magnífico, branco puro, de asas enormes, bebendo numa fonte cristalina.
Belerofonte se aproximou devagar. Pégaso ergueu a cabeça e abriu as asas, pronto para fugir.
— Calma — disse Belerofonte, com a voz mansa. — Não vou machucar você.
Pégaso bateu as asas, mas Belerofonte foi rápido e lhe colocou a rédea de ouro. No mesmo instante, o cavalo se acalmou. A rédea mágica havia funcionado. Belerofonte montou, e Pégaso não resistiu.
Subiram juntos, alto, cada vez mais alto. O vento no rosto, as nuvens passando, o mundo pequenino lá embaixo.
— Estamos voando! — gritou Belerofonte, rindo de alegria.
Homem e cavalo voaram juntos por dias, treinando, aprendendo a se entender, tornando-se amigos.
Quando se sentiu pronto, Belerofonte saiu à caça da Quimera. Voou sobre os campos queimados até avistá-la: a cabeça de leão rugia, o corpo de cabra era forte, a cauda de serpente silvava.
A Quimera os viu e rugiu, e uma bola de fogo subiu na direção deles. Pégaso desviou no ar, ágil como um pássaro. O monstro cuspiu mais fogo, e mais, e mais, mas não conseguia acertá-los: eles estavam voando.
Belerofonte empunhou a lança. Pégaso mergulhou, e o golpe acertou o corpo de cabra. A Quimera rugiu de dor e de raiva, mas não caiu. Então Belerofonte teve uma ideia melhor. Tirou do alforje um pedaço de chumbo que trouxera consigo.
— Pégaso, mais uma vez!
Mergulharam de novo e, quando a Quimera abriu a boca para cuspir fogo, Belerofonte arremessou o chumbo para dentro da garganta do monstro.
O próprio fogo da Quimera derreteu o chumbo, que escorreu, líquido e ardente, pela garganta do monstro. A criatura engasgou, tentou cuspir e não conseguiu. Cambaleou, tremeu e caiu, sem vida. A Quimera impossível estava morta, e Belerofonte havia vencido.
Belerofonte voltou em triunfo.
— Rei Iobates, a Quimera está morta!
Iobates mal podia acreditar. Deu-lhe outras missões impossíveis, e Belerofonte venceu todas com a ajuda de Pégaso: lutou contra o povo guerreiro dos Sólimos e venceu, enfrentou as Amazonas e venceu. Por fim, o rei entendeu que aquele homem era protegido pelos deuses, e que fazer-lhe mal seria sacrilégio. Então mostrou a carta a Belerofonte e explicou tudo.
Belerofonte ficou chocado com a traição. Mas Iobates lhe disse:
— Você provou sua virtude. Provou que é um herói. Case-se com minha filha e governe metade do meu reino.
Belerofonte aceitou. Casou-se, teve filhos, ficou famoso e respeitado. Parecia ter tudo.
Mas então o orgulho começou a crescer dentro dele. Ele havia matado a Quimera, vencido o impossível, e montava o cavalo alado. Começou a se achar maior do que os outros mortais. E o orgulho foi envenenando seu coração, até que um dia ele pensou: se era tão grande assim, merecia estar entre os deuses. Voaria até o Olimpo e se tornaria imortal.
Era a hubris, o orgulho excessivo. Belerofonte havia esquecido que era apenas um homem.
Ele montou Pégaso e ordenou que subisse ao Olimpo. O cavalo hesitou, sentindo que aquilo era errado, mas Belerofonte insistiu e o forçou. E começaram a subir, mais alto do que nunca, em direção à montanha dos deuses.
Zeus viu tudo do alto do Olimpo. Um mortal ousava subir até ali sem ser chamado, carregado pelo próprio orgulho. O rei dos deuses não lançou um raio: enviou apenas uma mutuca, uma pequena mosca que pica.
A mutuca picou Pégaso. O cavalo se assustou e empinou no ar, e Belerofonte foi lançado da sela.
— Pégaso! — gritou ele, enquanto caía.
E caiu, caiu, caiu do céu.
Belerofonte não morreu, mas a queda foi terrível. Ele caiu sobre arbustos espinhosos e ficou cego e aleijado. Pégaso, livre, voou sozinho até o Olimpo, onde se tornou o cavalo de Zeus.
Belerofonte passou o resto da vida vagando sozinho, longe dos homens. O grande herói que matara a Quimera terminou seus dias na tristeza, não por causa dos monstros, mas por causa do próprio orgulho.
Reflexão



