Zeus estava furioso. Primeiro Prometeu o havia desafiado roubando o fogo. E agora os humanos, aquelas criaturinhas de argila, tinham o poder do fogo divino.
— Prometeu já está sendo punido — murmurou Zeus, pensando no Titã acorrentado. — Mas a humanidade também precisa aprender uma lição. Eles acham que podem usar o fogo dos deuses sem consequências? Vou mostrar que tudo tem um preço.
Zeus teve uma ideia — uma ideia terrível e engenhosa. Ele chamou Hefesto, o deus ferreiro.
— Hefesto, você criou armaduras magníficas e armas divinas. Agora dou a você o desafio supremo: crie uma mulher.
Hefesto trabalhou em sua forja divina. Moldou argila e bronze, misturou elementos divinos e mortais. E, por fim, criou uma figura: a primeira mulher. Ela era linda, mas estava vazia, como uma estátua.
Zeus chamou todos os deuses do Olimpo.
— Venham. Cada um de vocês dará um presente a esta criatura. Vamos torná-la irresistível.
Afrodite, a deusa do amor, deu-lhe beleza incomparável: a pele brilhava como pérola, os olhos pareciam estrelas. Atena, a deusa da sabedoria, ensinou-lhe habilidades — tecer, criar arte, fazer música. Apolo deu-lhe uma voz capaz de cantar como nenhum pássaro. Deméter ensinou-lhe os segredos das plantas e dos jardins. Hera deu-lhe força de vontade. E Hermes, o deus mensageiro, deu-lhe a fala encantadora — e uma mente muito, muito curiosa.
Quando terminaram, a mulher tinha todos os dons, que em grego se diz "pan-dora".
— Seu nome será Pandora — declarou Zeus. — Aquela que tem todos os dons.
Mas Zeus não havia terminado. Ele trouxe uma jarra linda, de cerâmica dourada, decorada com desenhos misteriosos.
— Pandora — disse Zeus com suavidade —, este é meu presente especial para você. Leve esta jarra. Guarde-a com cuidado. Mas nunca, está me ouvindo?, nunca a abra.
— Por quê? — perguntou Pandora, já mostrando sua curiosidade.
— Apenas obedeça — disse Zeus, com um sorriso misterioso.
Então Hermes levou Pandora até a Terra, até a casa de Epimeteu, o irmão de Prometeu. Prometeu havia avisado o irmão: "Epimeteu, nunca aceite presentes de Zeus. Ele está furioso comigo. Qualquer coisa que venha dele é perigosa." Mas, quando Epimeteu viu Pandora, esqueceu por completo o aviso.
Ela era tão linda. Sua voz era tão doce. Cantava como os anjos e tecia como nenhuma mortal.
— Você... você quer se casar comigo? — perguntou Epimeteu, completamente encantado.
— Sim — sorriu Pandora.
E assim a primeira mulher e Epimeteu se casaram. Por um tempo, foram muito felizes. Pandora cuidava da casa, plantava jardins, cantava músicas que faziam os pássaros pararem para escutar. Epimeteu a amava muito.
Mas havia uma coisa que incomodava Pandora: a jarra. Ela ficava num canto da casa, bonita e misteriosa. E, todos os dias, Pandora olhava para ela e pensava: "O que será que tem lá dentro?"
"Só uma espiadinha", pensava Pandora. "Zeus nunca saberia. Só vou olhar rapidinho o que tem dentro." Mas ela se lembrava do aviso e resistia.
Os dias passaram. As semanas passaram. Os meses passaram. E a curiosidade crescia e crescia dentro de Pandora, como uma planta que não para de crescer. Era um dos "presentes" que Hermes lhe dera.
Uma noite, quando Epimeteu dormia, Pandora não aguentou mais.
— Preciso saber — sussurrou. — Não vou abrir tudo. Só uma frestinha. Só para espiar.
Com as mãos tremendo, ela se aproximou da jarra. Segurou a tampa. E abriu.
Como um vento forte, como mil ventos de uma vez, coisas começaram a sair voando da jarra. Não eram objetos. Eram espíritos, criaturas invisíveis — males que nunca haviam existido no mundo.
Pandora gritou e tentou fechar a tampa, mas era tarde demais.
A Doença voou para fora, e, pela primeira vez, as pessoas começaram a tossir e espirrar. A Velhice escapou, e os cabelos começaram a embranquecer. A Dor saiu, e vieram os machucados. Depois escaparam a Tristeza, a Raiva, o Ciúme, a Inveja e o Medo, voando como morcegos escuros. E, por fim, a Guerra, a Fome, a Seca e as Tempestades. Eram todos os males que Zeus havia trancado em segredo na jarra. Esse era o seu presente "generoso" para a humanidade.
Pandora chorava enquanto via os horrores escaparem.
— O que eu fiz? O que eu fiz?
Finalmente, com todas as suas forças, ela bateu a tampa de volta na jarra. Silêncio. O quarto ficou quieto. Os males haviam escapado e se espalhavam pelo mundo.
Pandora caiu de joelhos, chorando. Epimeteu acordou com o barulho e viu tudo.
— O que aconteceu? — perguntou ele, assustado.
— Eu... eu abri a jarra — soluçou Pandora. — Todos aqueles espíritos terríveis saíram. Fui eu que trouxe o mal para o mundo.
Mas então eles ouviram algo vindo de dentro da jarra. Um toque leve, delicado, batendo de mansinho na tampa. Alguma coisa ainda estava lá dentro.
— O que eu faço? — perguntou Pandora. — Há mais uma coisa lá dentro. Deve ser outro mal terrível.
— Não sabemos — disse Epimeteu. — Talvez desta vez devamos deixar como está.
Mas Pandora, ainda tremendo, respondeu:
— Não. Se há mais um espírito aí, preciso saber. Já causei tanto mal... não pode ficar pior.
Ela abriu a tampa só um pouquinho. E saiu voando uma pequena luz dourada. Brilhante, quente, reconfortante. Era a Esperança.
A Esperança voou pela sala e tocou Pandora e Epimeteu. Na mesma hora, eles se sentiram melhor. Mesmo sabendo do mal que havia se espalhado, sentiram que talvez pudessem consertar as coisas, que o futuro não seria todo escuro. Depois a Esperança saiu pela janela e se espalhou pelo mundo, assim como os males.
E assim o mundo mudou para sempre. Antes da jarra de Pandora, os humanos viviam sem doença, sem velhice, sem dor. Depois, tiveram que enfrentar males de todo tipo. A vida ficou difícil: havia sofrimento, tristeza, conflito. Mas também havia a Esperança. Não importava quão escuro ficasse, sempre havia uma luzinha dizendo: amanhã pode ser melhor, continue tentando.
Pandora se arrependeu profundamente. Mas ela e Epimeteu aprenderam algo importante: com esperança, até os piores erros podem levar a algo melhor. Eles tiveram uma filha chamada Pirra, que se casou com Deucalião, filho de Prometeu. E dessa união vieram muitos dos humanos que povoaram a Terra.
Hoje, quando alguém diz "abrir a caixa de Pandora", quer dizer causar problemas ao mexer no que devia ficar quieto. Mas a lição verdadeira é mais funda: a curiosidade pode trazer problemas, e a desobediência tem consequências — e, ainda assim, não importa o tamanho dos nossos erros, sempre resta a Esperança.
Reflexão



