Havia uma ninfa linda chamada Eco.
Eco tinha um dom especial: falava muito bem. Sua voz era melodiosa, suas histórias eram encantadoras. Mas tinha também um probleminha: falava demais. Tagarelava sem parar, contava casos, fazia piadas, conversava horas e horas. As outras ninfas achavam graça e a adoravam.
A deusa Hera, porém, não achava graça nenhuma.
Acontece que Zeus, o marido de Hera, costumava escapar do Olimpo para visitar as ninfas na Terra. E Eco, sabendo disso, ajudava Zeus.
Quando Hera descia à procura do marido, Eco a segurava com conversas intermináveis, contando uma história atrás da outra, sem deixar a deusa dar um passo. Enquanto isso, Zeus tinha tempo de escapar.
Um dia, Hera percebeu o truque.
— Eco, você me enganou. Usou a sua voz para encobrir Zeus.
Hera ficou furiosa e decidiu punir a ninfa naquilo que ela mais amava.
— Você gosta tanto de falar? Pois de agora em diante nunca mais falará primeiro. Só poderá repetir as últimas palavras que ouvir.
— Não! Por favor... — começou Eco.
Mas era tarde. A maldição já estava feita. Eco tentou dizer alguma coisa, qualquer coisa, e nada saiu. Sua boca se abria, e nenhuma palavra sua aparecia. Dali em diante, só lhe restava esperar que alguém falasse... para repetir.
Eco ficou muito triste. Ela, que adorava conversar, agora era prisioneira do silêncio.
As outras ninfas tentavam consolá-la. Perguntavam se estava bem, e Eco só conseguia responder "...está bem?". Pediam que falasse com elas, e Eco repetia "...com elas". Era doloroso demais ter tanto para dizer e não poder dizer nada.
Aos poucos, Eco foi se afastando de todas e passou a vagar sozinha pelas florestas.
Um dia, Eco viu o jovem mais lindo que já existira: Narciso.
Narciso era filho do deus-rio Cefiso e da ninfa Liríope. Quando ele nasceu, o profeta Tirésias fez à mãe uma previsão estranha: o menino viveria uma longa vida... desde que nunca conhecesse a si mesmo. Ninguém entendeu, e com o tempo a profecia foi esquecida.
Narciso cresceu e ficou belíssimo, de cabelos dourados e olhos azuis como o céu. Todos se apaixonavam por ele: moças, rapazes, ninfas. Mas Narciso era vaidoso e cruel.
— Querem o meu amor? — dizia ele, com desprezo. — Ninguém é bom o suficiente para mim.
Ele rejeitava todos com palavras duras, dizendo a um que era feio demais, a outro que não merecia sequer olhá-lo. Quebrava um coração atrás do outro, sem pena nenhuma, convencido de que era superior a todos.
Foi esse Narciso que Eco encontrou na floresta.
Eco se escondeu atrás das árvores. Bastou um olhar, e ela se apaixonou perdidamente.
Queria falar com ele, dizer que o achava lindo, que o amava. Mas não podia: só podia repetir. Então o seguiu em silêncio pela floresta, esperando uma chance.
Narciso sentiu que havia alguém por perto.
— Quem está aí?
— ...está aí? — repetiu Eco.
— Apareça!
— ...eça! — repetiu Eco.
— Venha até mim — chamou Narciso.
— ...mim! — e Eco saiu correndo de trás das árvores, de braços abertos.
Eco abraçou Narciso com os olhos brilhando de amor.
Mas Narciso a empurrou com desprezo.
— Afaste-se. Prefiro morrer a deixar você me tocar.
Eco ficou destroçada. Tentou falar, explicar, implorar — e só conseguia repetir os pedaços das palavras dele: "...me tocar... me tocar...". Narciso riu daquilo com crueldade, perguntou se ela realmente achava que merecia o amor dele, e foi embora.
Eco caiu de joelhos, chorando, enquanto sua voz repetia, sem querer, as últimas palavras do jovem que a havia desprezado.
A tristeza de Eco era tão grande que ela parou de comer e de dormir. Só pensava em Narciso.
Os dias passaram, depois as semanas, depois os meses. Eco foi definhando devagar, e seu corpo foi desaparecendo, ficando cada vez mais leve, mais fino, mais transparente, até que dela restou apenas a voz.
Por isso, até hoje, quando alguém chama nas montanhas, Eco responde. Ela ainda está lá, repetindo. Ainda se lembrando de Narciso.
Mas Eco não foi a única que Narciso desprezou. Foram dezenas, centenas, todos sofrendo a mesma dor.
Um jovem rejeitado ergueu as mãos ao céu e orou a Nêmesis, a deusa que corrige as injustiças:
— Nêmesis, que Narciso sinta o que nós sentimos. Que ele ame sem ser amado. Que ele sofra como nós sofremos.
Nêmesis ouviu a oração. E decidiu que Narciso conheceria, enfim, o amor que não pode ser correspondido.
Num dia quente, Narciso caçava na floresta. Cansado e com sede, encontrou uma fonte de água cristalina, quieta como um espelho, e ajoelhou-se para beber.
E viu o próprio reflexo.
Narciso ficou paralisado. Não percebeu que era ele mesmo: pensou que havia um jovem dentro da água, o ser mais lindo que seus olhos já tinham visto.
— Quem é você? — sussurrou. — Nunca vi ninguém tão belo.
Narciso estendeu a mão para tocar o jovem da água. Mas, assim que seus dedos encostaram na superfície, o reflexo tremeu e se desfez.
— Não, volte...
Ele esperou. A água se acalmou, e o rosto voltou. Narciso tentou beijá-lo, e de novo o reflexo se desmanchou em ondas. Ele implorava que não o deixasse, dizia que o amava — e assim Narciso sentiu, pela primeira vez, exatamente o que havia feito os outros sentirem: um amor desesperado que não podia ser correspondido.
Narciso não conseguia mais sair dali.
Ficou à beira da fonte, olhando o reflexo, falando com ele. As horas passaram, e depois os dias. Ele não comia, não bebia, não dormia. Só olhava, preso ao próprio rosto, sem poder alcançá-lo nunca.
Devagar, Narciso começou a definhar. Seu corpo foi ficando fraco, magro, pálido — assim como acontecera com Eco.
Eco, agora apenas voz, acompanhava tudo do alto das montanhas. Mesmo depois de tanta crueldade, ela ainda o amava.
Quando Narciso suspirava "ai de mim", Eco repetia, baixinho: "...de mim". Quando ele chorava, ela chorava junto, do seu jeito, devolvendo cada palavra.
Por fim, Narciso morreu ali, à beira da água, olhando para o reflexo. Suas últimas palavras foram um adeus ao amor impossível.
E Eco, chorando, repetiu: "...amor impossível".
Quando as ninfas vieram buscar o corpo de Narciso para o enterro, ele havia desaparecido. No lugar onde ele estivera, crescia uma flor: delicada, branca com o centro amarelo, curvada como quem se olha na água.
— É Narciso — disseram as ninfas. — Os deuses o transformaram em flor.
A flor recebeu o nome de narciso. E até hoje os narcisos crescem perto da água, sempre inclinados, como se contemplassem o próprio reflexo — lembrando para sempre o jovem que só soube amar a si mesmo.
E Eco?
Sua voz ainda ecoa nas montanhas. Quando alguém grita "olá", ela responde "...lá". Quando alguém diz uma palavra bonita, ela a devolve, um pouco mais suave.
Eco ainda está lá, repetindo, lembrando. Uma voz sem corpo, guardando na memória um amor que nunca foi correspondido.
Reflexão



