Cronos havia derrotado seu pai Urano e agora governava o universo como Rei dos Titãs. Ao seu lado estava sua esposa e irmã, Réia, a gentil Titã da maternidade. Tudo parecia perfeito. Os Titãs governavam com sabedoria, e o mundo florescia.
Mas Cronos tinha um segredo que o atormentava todas as noites: a maldição de Urano. "Assim como você me traiu, seu próprio filho um dia o trairá." Essas palavras ecoavam na mente de Cronos sem descanso. Ele começou a ter pesadelos em que via um filho crescido derrotando-o, jogando-o no Tártaro, tomando seu trono.
E então Réia esperou seu primeiro bebê.
Quando a primeira criança nasceu — uma menina chamada Héstia — Réia a segurou nos braços com amor e alegria.
— Veja, meu esposo. Nossa filha. Não é linda?
Mas Cronos arrancou o bebê dos braços de Réia. E antes que ela pudesse gritar, ele abriu a boca e engoliu a criança inteira.
— O que você fez?! — gritou Réia, horrorizada.
— Protegi meu trono — disse Cronos friamente. — A maldição disse que meu filho me derrotaria. Se eu engolir todas as crianças, elas ficarão presas dentro de mim para sempre, e a maldição não poderá se cumprir.
— Elas vão morrer aí dentro — chorou Réia.
— Não — disse Cronos. — Sou imortal. Meu estômago é imortal. Elas viverão lá dentro, mas nunca poderão me desafiar.
E assim, um por um, quando cada bebê nascia, Cronos o engolia. Héstia foi a primeira. Depois veio Deméter, deusa da colheita. Depois Hera, rainha do céu. Depois Hades, senhor das profundezas. Depois Poseidon, senhor dos mares. Cinco filhos engolidos. Cinco filhos presos na escuridão dentro de Cronos.
Réia estava devastada. Cinco filhos perdidos. E agora ela esperava o sexto. "Não deixarei que ele leve mais um", jurou. Ela foi até Gaia, sua mãe, a própria Terra.
— Ajude-me, mãe. Cronos está destruindo minha família.
Gaia, que já havia visto Urano aprisionar seus filhos e agora via Cronos fazer o mesmo, respondeu com tristeza:
— O padrão se repete. Mas desta vez vamos quebrá-lo. Quando a criança nascer, traga-a para mim. Tenho um plano.
Quando o sexto bebê nasceu — um menino forte e saudável — Réia o levou em segredo para a ilha de Creta e o escondeu numa caverna do Monte Ida. O bebê se chamava Zeus.
Mas Cronos estava esperando.
— Onde está a criança, Réia?
— Aqui — disse Réia, mostrando uma pedra embrulhada em mantas.
Gaia havia encontrado uma pedra do tamanho exato de um bebê. Cronos estava tão acostumado a engolir os filhos que nem olhou direito: abriu a boca e engoliu a pedra de um só golpe. Zeus estava salvo.
Na caverna em Creta, o pequeno Zeus foi cuidado por ninfas gentis. Bebeu o leite da cabra mágica Amalteia. Do lado de fora da caverna, guerreiros dançavam e batiam as lanças nos escudos para abafar o choro do bebê, para que Cronos nunca o ouvisse.
Zeus cresceu forte e esperto. Sabia que era filho de Cronos. Sabia que tinha irmãos presos no estômago do pai. E sabia qual era o seu destino.
Quando Zeus se tornou adulto, deixou Creta disfarçado. Com a ajuda de Gaia, tornou-se copeiro no palácio de Cronos, o jovem que servia bebidas ao rei. Ninguém suspeitava de quem ele era.
Um dia, Gaia entregou a Zeus uma poção especial.
— Coloque isto na bebida de Cronos. Fará com que ele devolva tudo o que engoliu.
Zeus esperou o momento certo. Durante um grande banquete dos Titãs, serviu a bebida especial a Cronos, que bebeu tudo de um gole. E então o estômago do rei começou a revirar.
— O que... o que está acontecendo? — gritou Cronos.
Ele começou a vomitar. Primeiro saiu a pedra, que Zeus mais tarde colocaria em Delfos como monumento. Depois saíram, um por um, os filhos de Cronos — agora adultos, porque eram imortais e haviam crescido dentro do pai. Poseidon saiu, poderoso, com cabelos cor do mar. Hades saiu, sombrio e grave. Hera saiu, majestosa como uma rainha. Deméter saiu, com cheiro de trigo e terra fértil. E por fim Héstia, a mais velha, gentil e serena.
Cronos finalmente entendeu.
— Zeus! Você! Você é o sexto filho. A maldição... a maldição se cumpriu.
— Sim, pai — disse Zeus. — E agora você responderá por tudo o que fez.
Os seis filhos de Cronos — Zeus, Poseidon, Hades, Hera, Deméter e Héstia — se uniram. Chamaram-se Olímpicos, porque decidiram fazer sua casa no topo do Monte Olimpo, a montanha mais alta da Grécia.
— Renda-se, Cronos — declarou Zeus. — Seu tempo acabou. Agora começa a era dos Olímpicos.
Mas Cronos não se rendeu. Ele chamou seus irmãos Titãs.
— Irmãos! Juntos somos invencíveis. Esmaguemos estas crianças insolentes!
E assim começou a Titanomaquia, a Guerra dos Titãs — a maior guerra que o cosmos já viu.
A guerra durou dez anos. Os Titãs lutavam do topo do Monte Ótris, os Olímpicos do topo do Monte Olimpo, e entre as duas montanhas a Terra estremecia a cada batalha.
Cronos era imensamente poderoso, e os Titãs eram gigantes experientes em combate. Hipérion brilhava com luz que cegava. Outros Titãs levantavam tempestades e sacudiam os mares. Os Olímpicos eram jovens e fortes, mas estavam em menor número e ainda não tinham armas à altura dos gigantes. A guerra ficou empatada, ano após ano.
Então Gaia disse a Zeus:
— Se você quer vencer, precisa dos aliados que Cronos teme. Precisa libertar os Ciclopes e os Hecatônquiros do Tártaro.
Zeus desceu até o Tártaro, a prisão mais profunda do cosmos. Lá, venceu o dragão Campe, que guardava os portões, e libertou os Ciclopes e os Hecatônquiros.
Os Ciclopes ficaram tão gratos que forjaram presentes para os três irmãos. Para Zeus, criaram o Raio, um relâmpago perfeito e terrível que nunca errava o alvo. Para Poseidon, forjaram o Tridente, capaz de causar terremotos e comandar todos os mares. Para Hades, fizeram o Elmo das Trevas, um capacete que tornava invisível quem o usasse.
Com essas armas, e com os Hecatônquiros — que podiam atirar cem pedras ao mesmo tempo, uma por braço —, a sorte da guerra mudou.
A batalha final abalou o mundo. Zeus lançava raios que rasgavam o céu, e cada raio atingia um Titã com força devastadora. Poseidon batia o tridente no chão, e terremotos faziam montanhas desmoronarem. Hades, invisível, atacava de surpresa. Os Hecatônquiros arremessavam pedras enormes, que caíam como granizo sobre os inimigos.
Os Titãs lutaram bravamente, mas não podiam vencer. Um por um, eles caíram. Por último, Cronos enfrentou Zeus diretamente. Pai contra filho. O velho rei contra o novo.
— Você não pode me derrotar! — rugiu Cronos. — Sou seu pai. Sou o próprio Tempo.
— O tempo do seu reinado acabou — respondeu Zeus.
E ele lançou seu raio mais poderoso. Cronos caiu.
Os Titãs derrotados foram levados para o Tártaro, a mesma prisão onde os Ciclopes e os Hecatônquiros haviam sofrido por tanto tempo. Cronos, que aprisionou os filhos dentro de si, agora estava aprisionado nas profundezas da Terra. E os Hecatônquiros se tornaram os guardas do Tártaro, para que os Titãs jamais escapassem.
Nem todos os Titãs, porém, foram punidos. Alguns ficaram neutros na guerra, e outros até ajudaram os Olímpicos. Oceano e sua esposa Tétis permaneceram em paz nos mares. Prometeu, filho do Titã Iápeto, havia lutado ao lado de Zeus. E Têmis, a Titã da justiça, foi respeitada e honrada.
Com a vitória completa, os três irmãos dividiram o cosmos por sorteio. A Zeus coube o Céu, e ele seria o Rei dos Deuses. A Poseidon couberam os Mares e todos os oceanos. A Hades coube o Submundo, o reino dos mortos. A Terra permaneceria de todos, território compartilhado.
Zeus subiu ao topo do Monte Olimpo e construiu ali um palácio magnífico. Os Olímpicos fariam daquela montanha sua casa. Uma nova era havia começado: a Era dos Deuses Olímpicos.
Mas Gaia olhava para tudo com tristeza. "Primeiro Urano aprisionou seus filhos. Depois Cronos. Agora Zeus faz o mesmo com os Titãs. Quando este ciclo terminará?" Ela ainda não sabia, mas haveria mais guerras e mais desafios. E Zeus teria de provar que era diferente de seu pai e de seu avô.
Reflexão



