Tudo começou com um casamento.
Peleu, um herói mortal, ia se casar com Tétis, uma ninfa do mar tão bela que até Zeus a desejava. Mas havia uma profecia: o filho de Tétis seria maior do que o pai. Zeus não queria um filho mais poderoso do que ele mesmo, e por isso decidiu que Tétis se casaria com um mortal. Desse casamento, anos depois, nasceria Aquiles, o maior guerreiro da Grécia.
Para a festa, todos os deuses e deusas foram convidados. Todos, menos uma. Éris, a deusa da discórdia, ficou de fora, porque ninguém queria confusão num casamento. Quando soube que era a única esquecida, Éris ficou furiosa e começou a preparar, em silêncio, uma vingança à sua maneira.
Durante o banquete, enquanto todos celebravam, uma maçã dourada rolou pelo chão. Ela brilhava com luz própria, e nela estava gravada uma única frase: "Para a mais bela". Era Éris quem havia jogado a maçã, de propósito. Ela sabia exatamente o que ia acontecer.
Três deusas viram a maçã ao mesmo tempo. Hera, a rainha dos deuses, esposa de Zeus e protetora do casamento. Atena, deusa da sabedoria e da guerra bem pensada. E Afrodite, deusa do amor e da beleza. Cada uma estendeu a mão, certa de que a maçã só podia ser sua.
A discussão começou baixa e foi crescendo.
— Sou a rainha do Olimpo — disse Hera. — É claro que a mais bela sou eu.
— Beleza sem sabedoria é vazia — respondeu Atena. — A minha beleza tem propósito.
— Que bobagem — riu Afrodite. — Eu sou a própria deusa da beleza. Nasci da espuma do mar.
Os outros deuses foram se afastando devagar. Nem Zeus queria julgar aquela disputa, porque sabia que qualquer escolha deixaria duas deusas furiosas com ele. Então ele teve uma ideia que o encheu de alívio.
— Precisamos de um juiz imparcial, alguém que não nos conheça bem — disse Zeus. — Páris, o príncipe de Troia, que vive como pastor e é conhecido por sua justiça. Ele julgará.
Páris era filho do rei Príamo de Troia. Sobre ele também pesava uma profecia: um dia, Páris causaria a destruição da cidade. Por isso, ainda bebê, foi deixado no monte Ida, onde pastores o encontraram e o criaram como filho. Páris cresceu forte e justo, cuidando de ovelhas nas montanhas, sem saber que era príncipe.
Um dia, enquanto vigiava o rebanho, Hermes, o mensageiro dos deuses, apareceu diante dele.
— Páris, Zeus escolheu você para julgar qual destas três deusas é a mais bela.
E de repente ali estavam Hera, Atena e Afrodite, três das deusas mais poderosas do Olimpo, esperando a palavra de um simples pastor. Páris tremeu. Como um mortal poderia julgar deusas?
E a tarefa ficou ainda mais difícil, porque cada deusa tentou comprar a escolha dele.
Hera se aproximou primeiro.
— Se me escolher, eu lhe darei poder. Você será rei de todas as terras da Ásia e governará impérios.
Páris ficou tentado, porque poder era coisa que atraía. Então Atena chegou perto.
— Poder sem sabedoria é inútil. Escolha a mim e eu lhe darei sabedoria e glória na guerra. Você será invencível em batalha.
Páris hesitou de novo. Por fim, Afrodite sorriu docemente.
— Páris... escolha a mim e eu lhe darei o amor da mulher mais linda do mundo: Helena de Esparta, tão bela que faz os homens perderem a razão.
Páris era jovem e romântico. Poder e glória pareciam coisas distantes, mas o amor parecia real e imediato.
— Afrodite — disse ele, entregando a maçã —, você é a mais bela.
Afrodite sorriu, triunfante, e pegou a maçã. Hera e Atena, porém, ficaram furiosas.
— Você vai se arrepender disso, Páris — disse Hera, em voz baixa e fria.
— Troia pagará por este insulto — jurou Atena.
Naquele momento, as duas deusas se tornaram inimigas de Troia. E quando deusas se tornam inimigas de uma cidade, desastres acontecem.
Pouco depois, Páris descobriu quem era e voltou para Troia, onde foi recebido com alegria, apesar da velha profecia. E então Afrodite cumpriu a promessa. Páris foi enviado numa missão a Esparta, na Grécia, e lá conheceu Helena, esposa do rei Menelau.
Helena era de fato a mulher mais linda do mundo, de cabelos dourados como o sol e um sorriso que desarmava qualquer coração. Quando era jovem, todos os príncipes da Grécia quiseram se casar com ela, e eram tantos pretendentes que o pai dela temia uma guerra entre eles. Foi o astuto Odisseu, também chamado Ulisses, quem sugeriu a saída: todos os pretendentes jurariam proteger o casamento de Helena, fosse qual fosse o escolhido. Todos juraram. Helena escolheu Menelau, e os dois se casaram.
Quando Páris chegou a Esparta e viu Helena, Afrodite agiu, e os dois se apaixonaram de um modo que ignorava todo o resto. O que aconteceu depois é discutido até hoje. Algumas versões contam que Páris raptou Helena à força, enquanto Menelau estava fora; outras dizem que Helena fugiu por vontade própria, escolhendo o amor no lugar do dever. Talvez tenha sido um pouco das duas coisas: Afrodite mexeu nos sentimentos dos dois, mas Helena também fez uma escolha. Páris levou Helena, e muitos tesouros de Esparta, de volta para Troia em seus navios.
Quando Menelau voltou e descobriu que a esposa havia partido com um príncipe troiano, sua fúria não teve medida.
— Páris e todos os troianos pagarão por isso!
Ele correu ao irmão, Agamêmnon, rei de Micenas e o homem mais poderoso da Grécia.
— Meu irmão, Troia me desonrou. Levaram minha esposa. Preciso de justiça.
Agamêmnon viu ali uma oportunidade, porque Troia era rica e controlava rotas de comércio valiosas.
— Irmão — disse ele —, reuniremos todos os reis gregos. Lembra do juramento que fizeram para proteger o casamento de Helena? Chegou a hora de cobrá-lo.
Mensageiros partiram para todos os cantos da Grécia, e por causa do juramento os maiores heróis tiveram de atender ao chamado: Aquiles, filho de Tétis, o guerreiro mais forte do mundo; Odisseu, rei de Ítaca, o mais inteligente dos gregos; Ájax, enorme e forte como um touro; o jovem e feroz Diomedes; o velho e sábio rei Nestor; e muitos outros. Ao todo, mil navios se reuniram. As pessoas diziam, maravilhadas, que mil navios haviam partido por causa de uma só mulher, e Helena ficou conhecida como o rosto que lançou mil navios.
Nem todos queriam lutar. Odisseu chegou a fingir loucura para escapar do chamado, mas foi descoberto; a mãe de Aquiles o escondeu disfarçado de menina, mas Odisseu o encontrou. O juramento, porém, era mais forte do que a vontade de cada um.
Antes de partir, os gregos consultaram o profeta Calcas.
— A guerra será longa — profetizou ele. — Durará dez anos, e muitos morrerão. Mas, no fim, Troia cairá.
Dez anos. Parecia impensável, mas o exército já estava reunido. A frota grega atravessou o mar Egeu, mil navios de velas brancas cobrindo o horizonte. Do alto das muralhas, o rei Príamo e seus filhos viram os navios se aproximando. Heitor, o filho mais velho e o maior guerreiro de Troia, virou-se para o irmão.
— Está vendo o que você causou? Por causa de uma mulher, nosso povo vai sofrer.
Mas Páris, ainda sob o encanto de Afrodite, apenas abraçou Helena.
— Vale a pena. Lutarei pela mulher que amo.
E assim começou a Guerra de Troia, a mais famosa da mitologia grega. Uma guerra nascida da vaidade de três deusas, de uma maçã dourada, da escolha imprudente de um jovem príncipe e de um amor proibido. Nela, deuses lutariam ao lado de mortais; o maior guerreiro do mundo, Aquiles, enfrentaria o mais nobre dos defensores, Heitor; e a astúcia valeria mais do que a força. Seria uma guerra de dez longos anos, que terminaria com uma cidade em chamas. Mas essas histórias vêm nas próximas partes.
Reflexão



