Guerra de Troia - Parte 2: A Ira de Aquiles
Épicos & Mitos Clássicos

Guerra de Troia - Parte 2: A Ira de Aquiles

por Mitologia Grega

Idades 10-12
15 min de leitura

Conteúdo Sensível

Esta história contém batalhas de guerra e a morte de personagens importantes. A violência é apresentada no contexto épico de honra e tragédia, apropriada para leitores mais velhos.

Nove anos.

Nove anos a guerra já durava. Os gregos sitiavam Troia, acampados na praia, atacando as muralhas dia após dia. Mas Troia era forte demais. Suas muralhas haviam sido construídas pelos deuses Poseidon e Apolo, e nenhum exército conseguia derrubá-las.

Do lado grego, Aquiles era o herói supremo. Invencível em combate, mais rápido e mais forte do que qualquer homem. Sua mãe, Tétis, o havia mergulhado no rio Estige quando ele era bebê, tornando seu corpo quase invulnerável. Como o segurou pelo calcanhar, só aquele pequeno ponto ficou desprotegido — o famoso calcanhar de Aquiles. Em nove anos, Aquiles havia vencido centenas de troianos, entre eles heróis famosos. Sem ele, os gregos já teriam perdido a guerra.

Do lado troiano, Heitor era o maior defensor. Filho mais velho do rei Príamo, nobre e corajoso, amado por seu povo. Heitor não lutava por glória: lutava para proteger sua esposa Andrômaca, seu filho pequeno Astíanax e a cidade inteira.

Aquiles e Heitor ainda não haviam se encontrado em combate. Mas todos sabiam que, quando isso acontecesse, o mundo pararia para ver.

Então, no nono ano, algo terrível aconteceu no acampamento grego.

Agamêmnon, o líder dos gregos, havia tomado como prêmio de guerra uma jovem chamada Criseida. Mas Criseida era filha de Crises, um sacerdote de Apolo. O velho sacerdote veio ao acampamento trazendo resgates.

— Por favor, devolva minha filha. Eu lhe dou ouro, tesouros, o que pedir.

Agamêmnon recusou com arrogância e mandou o velho embora. Crises então rezou a Apolo, e o deus, furioso com o desrespeito ao seu sacerdote, enviou uma praga sobre o exército grego. Os soldados começaram a adoecer e a morrer, e a doença se espalhava a cada dia.

Foi Aquiles quem convocou uma assembleia.

— Agamêmnon, precisamos devolver Criseida ao pai dela. Se não devolvermos, a praga vai nos destruir.

Agamêmnon, furioso mas sem escolha, concordou. Só que impôs uma condição cruel.

— Está bem, devolvo Criseida. Mas, em troca, tomarei o seu prêmio de guerra, Aquiles. A jovem Briseis.

— Você não ousaria — disse Aquiles, sem acreditar.

— Ouso. Eu sou o líder. Obedeça.

Os soldados de Agamêmnon entraram na tenda de Aquiles e levaram Briseis embora. Aquiles sentiu a honra insultada diante de todo o exército. Ele chegou a sacar a espada, pronto para acabar com Agamêmnon ali mesmo.

Mas a deusa Atena desceu do Olimpo, invisível a todos, e o segurou pelos cabelos.

— Aquiles, não o mate. Sua hora de glória ainda virá, mas não assim.

Aquiles, tremendo de raiva, guardou a espada. Em vez de golpear, fez um juramento terrível.

— Agamêmnon, você me insultou. Então não lutarei mais. Eu e meus guerreiros, os Mirmidões, nos retiramos desta guerra. Vocês vão descobrir o quanto eu faço falta quando os troianos empurrarem este exército para o mar.

E Aquiles se recolheu à sua tenda, recusando-se a lutar.

Sem Aquiles, os gregos começaram a perder.

Heitor liderou os troianos numa contraofensiva feroz e empurrou os gregos de volta para os navios. Dia após dia, os troianos ganhavam terreno, até que chegaram aos próprios navios gregos e começaram a incendiá-los. O exército estava à beira do colapso.

Agamêmnon, desesperado, enviou embaixadores a Aquiles com promessas: devolveria Briseis, daria tesouros, cidades, o que ele quisesse. Mas Aquiles, ainda ferido no orgulho, recusou tudo. Sua honra havia sido manchada, e Agamêmnon precisava pagar.

Pátroclo, o melhor amigo de Aquiles desde a infância, observava tudo com o coração partido. Via os gregos morrendo, via amigos feridos, e não aguentava mais.

— Aquiles — implorou ele —, se você não vai lutar, deixe que eu vista a sua armadura. Os troianos vão pensar que sou você e recuarão de medo.

Aquiles hesitou, mas Pátroclo insistiu, lembrando dos amigos que caíam a cada hora. Por fim, Aquiles cedeu.

— Está bem. Vista minha armadura. Mas apenas afaste os troianos dos navios. Não os persiga até Troia, não lute com Heitor, e volte imediatamente.

Pátroclo vestiu a armadura brilhante de Aquiles, forjada por Hefesto, o deus ferreiro, e os Mirmidões o seguiram. Quando ele entrou em batalha, os troianos gritaram de terror, certos de que Aquiles havia voltado, e começaram a fugir.

Pátroclo lutou brilhantemente. Empurrou os troianos para longe dos navios e venceu dezenas de inimigos. Mas então, empolgado com a vitória, esqueceu a ordem de Aquiles e perseguiu os troianos até as próprias portas de Troia.

Apolo, que protegia os troianos, viu aquilo do alto e desceu invisível. Com um golpe de força divina, atingiu as costas de Pátroclo.

O capacete de Pátroclo voou longe. A armadura se soltou, a lança quebrou. Pátroclo ficou atordoado, indefeso no meio do campo.

E ali estava Heitor.

Heitor não sabia que era Pátroclo. Pensava enfrentar o próprio Aquiles, enfraquecido por Apolo. Com sua lança, ele atacou e atravessou o peito do guerreiro.

Pátroclo caiu. Com os últimos suspiros, sussurrou devagar:

— Heitor... o seu triunfo será curto... Aquiles vai vingar a minha morte...

E então ficou em silêncio. Pátroclo estava morto.

Heitor tirou do corpo a armadura de Aquiles e a vestiu. Os gregos lutaram desesperadamente para recuperar o corpo de Pátroclo, e por fim conseguiram.

A notícia chegou à tenda de Aquiles: Pátroclo estava morto, e Heitor levara sua armadura.

O grito de Aquiles ecoou por todo o campo de batalha. Era um grito de dor tão profunda que até os deuses no Olimpo ouviram e se calaram. Aquiles caiu de joelhos, chorando. Rasgou as próprias roupas e cobriu o rosto com cinzas. Seu melhor amigo, seu irmão de coração, estava morto — e morto por causa da sua teimosia.

Tétis, a mãe de Aquiles, emergiu do mar ao ouvir o pranto do filho.

— Mãe — disse Aquiles com a voz vazia —, Pátroclo está morto. E a culpa é minha. Meu orgulho tolo o matou. Vou matar Heitor, mesmo que isso me custe a vida.

Tétis chorou. Ela conhecia as profecias. Se Aquiles tivesse ficado em casa, viveria uma vida longa e esquecida; em Troia, teria glória eterna, mas morreria jovem. E havia mais: logo depois da morte de Heitor, chegaria a vez de Aquiles.

— Se você matar Heitor — disse ela —, morrerá em seguida.

— Que seja — respondeu Aquiles. — A vida sem Pátroclo não vale nada. Prefiro morrer com glória a viver me escondendo.

Tétis subiu ao Olimpo e implorou a Hefesto uma nova armadura para o filho, a mais magnífica já criada. Com pena dela, o deus ferreiro trabalhou a noite inteira e forjou uma armadura divina: um escudo decorado com cenas do universo inteiro, um capacete brilhante, uma couraça que nenhuma arma atravessava.

Ao amanhecer, Tétis entregou a armadura a Aquiles. Ele a vestiu, pegou sua lança e foi falar com Agamêmnon.

— Agamêmnon, nossa briga acabou. A teimosia de nós dois matou meu amigo. Agora eu volto a lutar. Não por você — por Pátroclo.

Aquiles entrou em batalha, e foi como soltar um furacão.

Ele lutou com uma fúria que ninguém jamais tinha visto. Os troianos caíam às dezenas diante dele, e o rio Escamandro ficou tomado de corpos, a ponto de o próprio deus do rio reclamar e se erguer contra Aquiles — que enfrentou até o rio.

Aterrorizados, os troianos fugiram para dentro das muralhas. Mas um homem permaneceu do lado de fora, sozinho, esperando.

Era Heitor.

Do alto das muralhas, o rei Príamo e a rainha Hécuba imploravam ao filho que entrasse, que não enfrentasse Aquiles. Andrômaca chorava, pedindo que ele não lutasse sozinho. Mas Heitor balançou a cabeça devagar.

— Não posso. Foi a minha lança que matou Pátroclo. Devo responder por isso. Um líder não se esconde atrás dos próprios muros.

Quando Aquiles se aproximou, porém, Heitor sentiu o terror subir pelo corpo. Por um momento, correu, e Aquiles o perseguiu. Três vezes os dois deram a volta ao redor das muralhas de Troia, como num pesadelo.

Então Atena, que odiava Troia, apareceu a Heitor disfarçada de um de seus irmãos e prometeu lutar ao lado dele. Encorajado, Heitor parou e virou-se para enfrentar Aquiles.

— Aquiles, lutemos — gritou Heitor. — Mas façamos um acordo: quem vencer devolve o corpo do outro, para um funeral digno.

— Não haverá acordos — respondeu Aquiles. — Leões não fazem pactos com homens. Hoje você morre.

Heitor atirou sua lança, que bateu no escudo divino e ricocheteou. Ele se virou para pedir outra lança ao "irmão"... e não havia ninguém ali. Atena havia desaparecido.

— Os deuses me enganaram — sussurrou Heitor. — Então morrerei lutando.

Heitor atacou com a espada e lutou com bravura. Mas Aquiles era mais forte, mais rápido, e vestia armadura divina. Ele viu uma abertura no pescoço do adversário, e sua lança encontrou o alvo.

Heitor caiu. Com o último fio de voz, pediu:

— Aquiles... devolva meu corpo à minha família... para um funeral digno...

— Não — respondeu Aquiles, com o coração ainda cheio de ódio. — Você matou Pátroclo.

E Heitor morreu diante das muralhas que passara a vida defendendo.

O que Aquiles fez em seguida chocou até os deuses. Ele amarrou o corpo de Heitor à sua carruagem e o arrastou ao redor das muralhas de Troia, diante dos olhos de Príamo, de Hécuba e de Andrômaca, que gritavam de dor no alto dos muros.

Por dias, Aquiles repetiu aquilo, desrespeitando o morto. Mas os deuses protegeram o corpo de Heitor, que permaneceu intacto. Por fim, Zeus decidiu que Aquiles tinha ido longe demais e ordenou que aquilo terminasse.

Naquela noite, o velho rei Príamo fez algo de uma coragem imensa. Sozinho, guiado por Hermes, atravessou o acampamento inimigo e entrou na tenda de Aquiles. Ajoelhou-se e beijou as mãos do guerreiro — as mesmas mãos que haviam matado seu filho.

— Aquiles — disse Príamo, chorando —, lembre-se do seu próprio pai. Ele também é velho, como eu. Imagine se fosse ele, ajoelhado, implorando pelo corpo do filho. Tenha piedade. Devolva-me Heitor, e deixe que eu o enterre com honra.

Aquiles olhou para o velho rei. E, pela primeira vez desde a morte de Pátroclo, sentiu algo além da raiva.

Viu diante de si a dor de um pai. Lembrou-se do próprio pai, Peleu, que nunca mais veria. Lembrou-se de que, antes de guerreiro, era um homem. Aquiles chorou, e Príamo chorou com ele. Os dois inimigos choraram juntos pela tristeza sem fim da guerra.

— Velho — disse Aquiles, com a voz mansa —, leve o seu filho. E haverá uma trégua de doze dias, para que Troia possa fazer os funerais.

Príamo levou o corpo de Heitor de volta, e Troia o enterrou com todas as honras. A cidade inteira chorou por seu maior defensor. A guerra continuaria — mas agora todos sentiam que o fim estava próximo.

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Reflexão

O orgulho ferido pode machucar mais do que qualquer espada, e a raiva sem freio acaba ferindo até quem amamos. Mas esta história também guarda uma luz: quando Aquiles e Príamo choraram juntos, dois inimigos redescobriram a humanidade um do outro. Mesmo nos dias mais escuros, a compaixão ainda é possível.

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