Em Tebas, uma cidade grega, vivia um general chamado Anfitrião com sua esposa Alcmena, considerada a mulher mais bela da Grécia. Um dia, Anfitrião precisou partir para a guerra. E naquela mesma época, Zeus, o rei dos deuses, viu Alcmena do alto do Olimpo e se apaixonou por ela.
Zeus assumiu a forma de Anfitrião e visitou Alcmena, que pensou ser o próprio marido voltando da guerra. Naquela noite, Zeus fez o tempo passar devagar, como se as horas se esquecessem de correr. Quando o verdadeiro Anfitrião voltou, também ficou com a esposa. E assim aconteceu algo raríssimo: Alcmena esperava gêmeos de pais diferentes. Um dos bebês seria filho de Zeus, um semideus de força divina. O outro seria filho de Anfitrião, um menino humano como qualquer outro.

Hera, a esposa de Zeus, ficou furiosa quando descobriu. Era mais uma traição do marido, mais um filho que não era dela.
— Este bebê sofrerá por toda a vida — jurou Hera. — Ele pagará pelos erros do pai.
Quando chegou a hora, nasceram os dois meninos: Héracles, filho de Zeus, e Íficles, filho de Anfitrião. Alcmena sabia que Hera tentaria fazer mal a Héracles, e por isso deitou os dois num berço simples, esperando que a deusa não soubesse qual era qual. Mas Hera descobriu.
Uma noite, quando os bebês tinham apenas oito meses, Hera enviou duas serpentes gigantes ao quarto das crianças. As serpentes deslizaram em silêncio, subiram ao berço e abriram as bocas cheias de presas venenosas.

Íficles acordou primeiro, viu as serpentes e gritou de medo. Alcmena e Anfitrião correram para o quarto. Quando chegaram, viram algo que não conseguiam acreditar.
Héracles, o bebê de oito meses, estava sorrindo. Em cada mãozinha gordinha, ele segurava uma serpente pelo pescoço. As duas criaturas, cada uma do tamanho de um homem adulto, se debatiam para escapar. Mas Héracles, rindo como quem brinca, apertou. Os ossos das serpentes se quebraram, e elas morreram nas mãos do bebê.
— Por todos os deuses — sussurrou Anfitrião. — Este menino não é um humano comum.
Alcmena abraçou os filhos, aliviada. Íficles chorava assustado, enquanto Héracles brincava com as serpentes mortas como se fossem brinquedos.

Héracles cresceu, e sua força cresceu com ele. Aos cinco anos, quebrou sem querer a lira do professor de música, partindo o instrumento como se fosse um graveto. Aos dez, matou com as próprias mãos um leão que atacava os rebanhos. Aos quinze, já era maior e mais forte que qualquer homem adulto.
Anfitrião contratou os melhores tutores: Lino para a música, Eumolpo para o canto, Castor para a luta. Mas Héracles tinha um problema sério: não sabia medir a própria força. Um dia, quando Lino lhe bateu com uma vara para discipliná-lo, o menino reagiu por instinto e, sem querer, matou o professor com um único golpe.
— Ele é perigoso — diziam alguns tebanos. — Forte demais para viver entre nós.
Mas Héracles não era mau. Tinha o coração bom. Só precisava aprender a se controlar.

Quando ficou adulto, Héracles se tornou um herói de verdade. Defendeu Tebas de invasores, enfrentou bandidos, protegeu os fracos. O rei da cidade, Creonte, ficou tão agradecido que lhe deu a própria filha, Mégara, em casamento.
Héracles e Mégara se apaixonaram e tiveram três meninos fortes e bonitos. Por anos, Héracles foi feliz. Tinha uma esposa que amava, filhos maravilhosos e o respeito do povo. Parecia que, enfim, encontraria paz.
Mas no Olimpo, Hera observava com uma raiva que só crescia.
— Feliz? — murmurou a deusa. — Ele não merece ser feliz. É o filho da traição de Zeus. Vou destruir sua alegria.

Uma noite, Hera enviou a Loucura, um espírito maligno, para dentro da mente de Héracles. Ele estava em casa quando ela o atingiu. De repente, sua visão escureceu e seus pensamentos se embaralharam. Ele já não via a própria casa, nem a própria família. Na sua loucura, Héracles achava que estava num campo de batalha, e que seus filhos eram inimigos vindo atacá-lo.
— Mégara! Proteja as crianças! — ela gritou, ao ver os olhos vazios e selvagens do marido.
Mas era tarde demais. Perdido na loucura, Héracles atacou a própria família. A força terrível que sempre protegera os inocentes destruiu, naquela noite, aqueles que ele mais amava.
Quando a Loucura enfim passou, Héracles acordou como quem sai de um pesadelo. E viu o que havia feito. Mégara e os três meninos estavam mortos, e tinham morrido por suas próprias mãos.

Héracles soltou um grito de dor tão grande que ecoou por toda Tebas. Caiu de joelhos, chorando lágrimas que não acabavam. Não queria mais viver. Chegou a pegar a espada para acabar com a própria vida.
Mas seu amigo Teseu, o mesmo herói que um dia enfrentaria o Minotauro, chegou a tempo e o impediu.
— Héracles, não foi culpa sua. Foi Hera. Foi loucura enviada pelos deuses.
— Não importa — soluçou Héracles. — Foram as minhas mãos. Foi a minha força. Eu sou um monstro.
— Você não é um monstro — disse Teseu com firmeza. — Monstros não sentem remorso. Você está destruído porque tem o coração bom. Agora precisa buscar purificação.
Teseu levou Héracles até Delfos, onde ficava o Oráculo, a sacerdotisa que falava em nome do deus Apolo.

Em Delfos, Héracles se prostrou diante do Oráculo.
— Como posso me redimir? — perguntou, entre lágrimas. — Como posso pagar por um crime tão horrível?
A Pítia entrou em transe, e a voz de Apolo falou através dela. Héracles deveria procurar Eurísteu, rei de Tirinto, e servi-lo por doze anos como escravo. Deveria completar doze trabalhos que nenhum homem conseguiria completar. Só assim sua alma seria purificada, e só assim mereceria o perdão. E, quando o último trabalho terminasse, ele se tornaria imortal entre os deuses.
Doze trabalhos. Doze anos de servidão. Héracles aceitou na mesma hora.
— Farei cem trabalhos, se for preciso! Qualquer coisa para me redimir.

Héracles viajou então para Tirinto, onde reinava Eurísteu, seu primo, um homem fraco e medroso. Havia uma ironia antiga naquela história: Eurísteu deveria ter nascido depois de Héracles, mas Hera atrasou um nascimento e apressou o outro, e assim, pela lei, foi Eurísteu quem se tornou rei. Agora o homem mais forte do mundo teria de obedecer a um covarde.
Quando Eurísteu viu Héracles diante de si, enorme e de olhar decidido, sentiu medo.
— Você... você veio me servir? — gaguejou.
— Sim — respondeu Héracles com voz grave. — O Oráculo ordenou. Dê-me os doze trabalhos. Completarei cada um deles, por mais impossível que pareça.
Eurísteu sorriu de um jeito maldoso. Hera já lhe havia contado que Héracles viria, e ela mesma sugerira as tarefas mais mortais que existiam.
— Muito bem — disse o rei. — Seu primeiro trabalho será matar o Leão de Nemeia.

Héracles saiu de Tirinto com uma determinação de ferro. Não tinha mais esposa, nem filhos, nem alegria. Tudo o que lhe restava era a culpa e uma chance de redenção.
— Completarei os Doze Trabalhos — jurou. — Não pela glória, nem pela fama. Mas para honrar Mégara e meus filhos, e para provar que posso usar minha força para o bem.
E assim começou a jornada mais famosa da mitologia grega: os Doze Trabalhos de Héracles. Cada trabalho seria impossível, e cada um testaria não apenas sua força, mas também sua coragem, sua inteligência e seu caráter. Héracles, porém, estava pronto. Porque agora ele tinha algo mais poderoso do que a força divina: tinha um propósito.

Reflexão



