Em Atenas vivia o inventor mais brilhante da Grécia: Dédalo. Dédalo podia criar qualquer coisa. Suas mãos e sua mente trabalhavam como magia. Ele inventava ferramentas que ninguém havia imaginado, estátuas tão reais que pareciam vivas, máquinas engenhosas, edifícios incríveis.
— Dédalo é um gênio — diziam todos.
Ele tinha um sobrinho chamado Talo, que também era muito inteligente. Mas Dédalo foi tomado pela inveja. "E se Talo se tornar melhor do que eu?", pensava. E, num momento terrível, Dédalo empurrou Talo de um penhasco.
Talo morreu, e Dédalo foi julgado por seu crime.
— Você matou seu próprio sobrinho por inveja — disseram os juízes. — Deve ser exilado.
Dédalo fugiu de Atenas envergonhado. Navegou para Creta, uma grande ilha governada pelo poderoso rei Minos.
— Grande rei — disse Dédalo —, sou o melhor inventor da Grécia. Posso criar maravilhas para você.
— Prove — respondeu Minos.
E Dédalo provou. Criou invenções incríveis para Creta, e Minos ficou tão impressionado que lhe deu casa, riquezas e respeito. Em Creta, ao lado de Dédalo, crescia seu filho, um menino chamado Ícaro, que admirava as invenções do pai e sonhava em ser inventor também.
Então Minos fez a Dédalo sua maior encomenda.
— Dédalo, minha esposa Pasífae deu à luz um monstro: o Minotauro, metade homem, metade touro. Preciso de uma prisão para ele. Mas não pode ser uma prisão comum. Deve ser impossível de escapar, tão complicada que ninguém que entrar consiga sair.
Dédalo pensou, e teve uma ideia brilhante.
— Construirei um labirinto — disse. — Com tantos corredores e tantas voltas que será impossível encontrar a saída.
E assim Dédalo construiu o famoso Labirinto de Creta.
O Labirinto era uma obra-prima. Milhares de corredores, todos iguais, cheios de bifurcações e becos sem saída. Uma vez lá dentro, ninguém achava o caminho de volta. O Minotauro foi colocado no centro, e Minos passou a enviar prisioneiros para dentro, onde se perdiam e eram devorados pelo monstro.
Dédalo ficou ainda mais famoso. Mas então Teseu veio a Creta — o herói que, com o fio de Ariadne, entrou no Labirinto, matou o Minotauro e escapou.
O rei Minos ficou furioso.
— Alguém ajudou Teseu. Alguém revelou o segredo do Labirinto.
Minos suspeitou de Dédalo.
— Foi você. Você ensinou Ariadne a escapar.
Na verdade, Dédalo não havia contado o segredo diretamente. Mas Minos não quis ouvir.
— Você me traiu — rugiu o rei. — Para a prisão.
E Dédalo e Ícaro foram trancados numa torre alta.
Dédalo olhou pela janela da torre. Era alta demais para descer. Guardas vigiavam todas as portas, e Minos controlava todos os navios.
— Pai — perguntou Ícaro —, como vamos escapar?
Dédalo pensou profundamente.
— Minos controla a terra e o mar — murmurou. — Mas não controla o ar.
— O ar? — estranhou Ícaro.
— Sim. Vamos voar.
— Mas humanos não podem voar.
Dédalo sorriu.
— Ainda não.
Dédalo começou a coletar penas. Pássaros voavam perto da torre, e ele recolhia as penas que caíam. Ícaro ajudava, juntando cada uma com cuidado. Durante semanas, os dois colecionaram penas de todos os tamanhos.
Então Dédalo pediu cera aos guardas, dizendo que era para fazer velas. E começou a trabalhar. Organizou as penas por tamanho, das pequenas às grandes. Prendeu-as com cera derretida e fio numa estrutura leve. Lentamente, as asas tomaram forma.
Ícaro observava maravilhado.
— Pai, vamos voar como os pássaros.
— Sim — disse Dédalo. — Mas escute com atenção.
Ele segurou os ombros do filho.
— Filho, estas asas são delicadas. A cera que segura as penas pode derreter. Você deve voar no meio: nem muito alto, nem muito baixo. Se voar baixo demais, a umidade do mar molhará as penas, e você cairá. Se voar alto demais, o calor do sol derreterá a cera, e as penas se soltarão. Entendeu? O meio-termo. Nem muito alto, nem muito baixo.
Ícaro concordou.
— Sim, pai. Entendo.
— Prometa — pediu Dédalo.
— Prometo. Voarei no meio.
Dédalo amarrou as asas nos braços de Ícaro e depois prendeu as suas. Subiram na janela da torre. O vento soprava.
— Siga-me — disse Dédalo. — Fique perto de mim.
E os dois pularam.
Por um instante apavorante, caíram. Mas então as asas pegaram o vento. Estavam voando.
— Funciona — gritou Ícaro. — Estamos voando!
Batiam os braços como pássaros, e as asas os sustentavam. Voaram sobre a torre, sobre Creta, sobre o mar. Lá embaixo, pescadores olhavam para o alto, espantados: seriam pássaros gigantes ou deuses?
Dédalo voava com cuidado, nem muito alto, nem muito baixo.
— Ícaro, siga-me — gritava ele.
No início, Ícaro obedeceu. Voava perto do pai, na altura certa. Mas então a empolgação tomou conta.
— Eu estou voando — gritou. — Sou como um pássaro. Sou como um deus.
O orgulho cresceu em seu coração. "Sou melhor que os pássaros", pensou. "Posso voar mais alto."
— Ícaro, não! — gritou Dédalo. — Lembre do aviso.
Mas Ícaro não escutava. Começou a subir. Mais alto. Mais alto ainda.
— Ícaro, volte. O sol...
Ícaro subia cada vez mais. O sol brilhava forte lá em cima, e o calor aumentava. A cera começou a amolecer. Depois, a derreter. Pingos de cera caíam das asas, e as penas começaram a se soltar, uma a uma.
— Ícaro, suas asas — gritou Dédalo, desesperado.
Ícaro finalmente percebeu. Olhou para as asas: penas caindo, cera escorrendo.
— Pai! Socorro!
As asas se desfizeram. As penas voaram em todas as direções. E Ícaro caiu.
— Pai! — foi seu último grito.
— Ícaro! — gritou Dédalo, em agonia.
Mas não havia nada que ele pudesse fazer. Ícaro caiu, caiu, caiu, e mergulhou no mar. As ondas se fecharam sobre ele. O menino desapareceu sob a água, e não voltou.
Dédalo voou em círculos, chamando pelo filho. Desceu o mais baixo que pôde. Viu penas boiando na água, mas nenhum sinal de Ícaro. Seu filho havia morrido.
— Por que você não me ouviu? — chorou Dédalo. — Por que voou tão alto?
Ele encontrou o corpo de Ícaro trazido pelas ondas. Levou-o para a ilha mais próxima e o enterrou, em silêncio, com lágrimas. A ilha passou a se chamar Icária, em memória de Ícaro. E o mar ao redor, até hoje, chama-se Mar Icário.
Dédalo continuou voando, mas agora sem alegria. Voou com cuidado, nem muito alto, nem muito baixo, até chegar à Sicília. O rei Cócalo o recebeu.
— Fique — disse Cócalo. — Você será meu inventor.
Dédalo ficou, mas nunca mais foi o mesmo. Criou outras invenções maravilhosas, mas, toda vez que via pássaros no céu, lembrava-se de Ícaro. "Meu filho", pensava. "Se ao menos você tivesse me ouvido."
Com o tempo, o rei Minos descobriu onde Dédalo estava e viajou até a Sicília para exigi-lo de volta. Mas Cócalo protegeu o inventor, e Minos nunca conseguiu levá-lo.
Dédalo viveu muitos anos. Nunca voou novamente. Nunca esqueceu Ícaro. Suas invenções ficaram famosas por toda a Grécia, mas ele teria trocado todas para ter o filho de volta.
— A maior invenção do mundo — dizia — não vale a vida de um filho.
Reflexão



