Em 26 de maio de 1914, nasceu em Salvador, na Bahia, uma menina chamada Maria Rita de Souza Brito Lopes Pontes. Um nome enorme, não é? Mas logo todos a chamariam apenas de Dulce.
Sua família era de classe média. O pai, Augusto, era dentista e professor; a mãe, que também se chamava Dulce, cuidava da casa e dos filhos. Maria Rita tinha mais cinco irmãos, numa família alegre e católica. Mas o coração daquela menina, desde pequenininha, era diferente.

A Menina com Coração Grande
Desde muito cedo, Maria Rita não suportava ver ninguém sofrer. Quando encontrava mendigos na rua, ficava com os olhos cheios de lágrimas e queria ajudar de qualquer jeito. Aos seis anos, começou a fazer algo que espantava a família: levava pessoas pobres e doentes para casa, escondido. Acomodava-as no quarto dos fundos, dava comida, cuidava delas com todo o carinho que uma criança pode ter.
Quando a mãe descobria, ficava preocupada:
— Maria Rita, você não pode trazer estranhos para dentro de casa.
— Mas, mãe — respondia a menina —, eles não têm onde ficar. Jesus pede que a gente ajude.

A Perda da Mãe
Quando Maria Rita tinha apenas sete anos, sua mãe adoeceu de câncer e morreu. Foi uma dor imensa, porque Maria Rita a amava profundamente. Antes de partir, Dona Dulce chamou a filha para perto e pediu, baixinho, que ela cuidasse sempre dos pobres e fosse sempre caridosa.
Essas palavras ficaram gravadas para sempre no coração da menina. Maria Rita prometeu que dedicaria a vida aos pobres. E, como vamos ver, ela cumpriu essa promessa até o fim.
A Primeira Comunhão
Aos oito anos, Maria Rita fez a Primeira Comunhão. Foi um dia especial, e ela estava linda com o vestidinho branco. Mas o mais bonito aconteceu por dentro. Quando recebeu Jesus na Eucaristia pela primeira vez, Maria Rita sentiu que Ele estava vivo dentro dela, e que Ele amava os pobres. Então ela também os amaria. Daquele dia em diante, sua vida tinha um propósito claro: servir a Jesus nos pobres.

A Vocação Religiosa
Aos treze anos, Maria Rita já sabia o que queria: ser freira, para se dedicar inteiramente a Deus e aos pobres. O pai, porém, achou que ela era jovem demais e pediu que esperasse. Maria Rita obedeceu. Esperou, mas não parou de ajudar. Visitava as comunidades mais pobres, levava comida, cuidava de doentes, ensinava catecismo para as crianças.
Aos dezoito anos, finalmente, conseguiu a permissão do pai.
Entrando no Convento
Em 1933, Maria Rita entrou para a Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus. Outro nome comprido, mas com uma missão simples: servir aos pobres e aos doentes.
Ao se tornar religiosa, Maria Rita recebeu um novo nome: Irmã Dulce. Ela o escolheu em homenagem à mãe, como quem diz que ia continuar a missão que a mãe lhe deixou. Como noviça, Irmã Dulce era pura alegria. Rezava muito, trabalhava muito e, sempre que podia, corria para ajudar os pobres.

Professora e Enfermeira
Depois dos votos religiosos, Irmã Dulce foi enviada para ensinar nas escolas da congregação. Era uma professora querida, que amava as crianças e ensinava com paciência. Ao mesmo tempo, estudava enfermagem, porque queria cuidar melhor dos doentes.
Ela acordava cedo, rezava, dava aulas, estudava e ainda visitava os pobres à noite. Quase não dormia, mas estava sempre alegre.
— Não tenho tempo para ficar cansada — dizia, sorrindo. — Jesus precisa de mim.
Os Passeios Noturnos
À noite, depois que todos dormiam, Irmã Dulce saía de mansinho. Ia para as ruas de Salvador, para os bairros mais pobres, levando comida, remédios e roupas, visitando os doentes mais graves. Voltava de madrugada e, como o portão do convento já estava trancado, subia pelo muro e entrava escondida.
As outras freiras sabiam, mas fingiam não ver, admiradas com tanta coragem. As superioras, às vezes, se preocupavam e diziam que ela precisava descansar, que ia acabar adoecendo. Irmã Dulce só sorria e respondia que, se Jesus não descansou, ela também não ia descansar.

A União Operária São Francisco
Em 1935, Irmã Dulce fundou a União Operária São Francisco, uma associação de trabalhadores pobres. Eles se reuniam para rezar, mas também para se ajudar. Se alguém ficava doente e não podia trabalhar, os outros socorriam sua família. Se alguém precisava de remédio, juntavam dinheiro entre todos.
Irmã Dulce organizava tudo, era a alma do movimento. Centenas de operários se juntaram, e aquela era a pequena semente de algo muito maior que ainda viria.

Os Doentes na Rua
Mas o problema era enorme. Muitos doentes não tinham onde ficar. Os hospitais não os aceitavam, porque eram pobres, e muitos morriam nas ruas. Irmã Dulce não aguentava ver aquilo e decidiu que precisava fazer alguma coisa.
Em 1939, ela tomou uma atitude ousada: alugou um velho mercado abandonado. Era um lugar sujo, caindo aos pedaços, mas era um teto. Ela limpou tudo, estendeu colchões no chão e começou a abrigar doentes. Logo havia setenta pessoas morando ali. Dormiam no chão, é verdade, mas pelo menos não estavam mais na rua.
O Galinheiro Milagroso
Um dia, porém, o dinheiro do aluguel acabou, e o dono quis o mercado de volta. Para onde levar setenta doentes? Irmã Dulce teve uma ideia que ninguém esperava: levou todos para o galinheiro do convento. Isso mesmo, o galinheiro, onde dormiam as galinhas.
As outras freiras ficaram de boca aberta.
— Irmã Dulce, isso não pode!
— Jesus nasceu numa estrebaria — respondeu ela, tranquila. — Os doentes podem ficar num galinheiro.
Ela limpou o galinheiro, improvisou camas e acomodou todo mundo. As galinhas ficaram sem casa, mas os doentes tinham um teto.

Pedindo Ajuda
Irmã Dulce não tinha dinheiro. Como alimentar setenta pessoas? Como comprar remédios? Ela fez o que faria pelo resto da vida: saiu para pedir. Batia de porta em porta pedindo ajuda para os pobres de Jesus. Ia ao mercado pedir alimentos, às farmácias pedir remédios, às lojas pedir roupas.
No começo, muita gente recusava e até achava que aquela freira era maluca. Mas Irmã Dulce insistia, com um sorriso no rosto:
— É para Jesus. Vocês não vão recusar nada a Jesus, não é?
E as pessoas acabavam dando. Quem conseguia dizer não àquela freira pequenina, de olhos cheios de amor?
Os Milagres do Dia a Dia
Muitas vezes, a comida acabava, e os doentes iam dormir com fome. Irmã Dulce então rezava, lembrando a Jesus que Ele tinha alimentado cinco mil pessoas com cinco pães, e pedia que alimentasse também os pobres dela. E, de um jeito ou de outro, alguém aparecia com uma doação, bem na hora precisa. Outras vezes faltava um remédio urgente; ela rezava, e o remédio chegava.
Os doentes diziam que Irmã Dulce fazia milagres. Ela respondia, humilde, que não era ela, era Jesus. Ela era só o instrumento.

A Fama Começa a Se Espalhar
Logo, toda Salvador conhecia Irmã Dulce. Quem estava doente e sem dinheiro, procurava Irmã Dulce. Quem estava com fome, ia ao galinheiro de Irmã Dulce. Quem estava sem esperança, sabia que ela ajudaria. Ela ficou conhecida como o Anjo Bom da Bahia.
Políticos começaram a visitá-la, jornalistas escreviam sobre ela. Mas Irmã Dulce não queria fama. Dizia sempre que a glória era de Jesus, e que ela só fazia o que Ele pedia.
Reflexão



