Nossa Senhora de Guadalupe: As Rosas de Dezembro
Santos

Nossa Senhora de Guadalupe: As Rosas de Dezembro

por Vida de Santo

Idades 7-9
12 min de leitura

No ano de 1531, num lugar que hoje se chama Cidade do México, vivia um homem chamado Juan Diego. Ele era indígena, do povo que os espanhóis chamavam de asteca, e o nome que tinha recebido ao nascer era Cuauhtlatoatzin, que na língua dele quer dizer mais ou menos "a águia que fala". Já não era jovem: passava dos cinquenta anos, morava numa casa simples e falava nahuatl, a língua da sua gente. Poucos anos antes, frades franciscanos tinham chegado àquelas terras, e Juan Diego se tornara cristão, recebendo no batismo o nome pelo qual ficou conhecido.

Aqueles eram tempos duros. Fazia pouco tempo que os navios espanhóis tinham chegado, e o mundo antigo daquele povo havia desabado. Os indígenas eram tratados como se não valessem nada: ninguém perguntava a opinião deles, ninguém escutava a língua deles, ninguém olhava para o rosto deles. Juan Diego era um desses homens que o mundo tinha decidido não enxergar.

A Senhora do Morro Tepeyac

O que vem agora está guardado num relato antigo, escrito em nahuatl algumas décadas depois e repetido de geração em geração. A tradição conta que, na manhã de sábado, 9 de dezembro de 1531, bem cedinho, Juan Diego caminhava para a missa quando passou pelo pé de um morro chamado Tepeyac.

Foi ali que ele ouviu música. Os pássaros cantavam de um jeito que ele nunca tinha escutado antes, todos juntos, como se o morro inteiro fosse um coro. Depois a música parou, e uma voz o chamou pelo nome lá de cima.

Juan Diego subiu. E lá estava uma Senhora de pé, cercada de luz, como se o sol tivesse parado atrás dela. Ela falou com ele em nahuatl, a mesma língua em que a sua mãe o tinha ninado. E o rosto dela não era o rosto de uma estrangeira: era moreno, sereno, com os traços do povo dele.

— Juan Diego, o menorzinho dos meus filhos, para onde você vai? — perguntou a Senhora, com a voz de quem não tem nenhuma pressa.

Ele explicou que estava indo à missa. Então ela lhe disse quem era: a Mãe do Deus verdadeiro, aquele que dá a vida. E fez um pedido. Queria que se construísse ali, naquele morro de pedras, uma casinha sagrada, onde ela pudesse escutar o choro e as tristezas de todos os que viessem procurá-la.

— Vá até o bispo — pediu ela — e conte a ele tudo o que você viu e ouviu.

O Bispo Pede um Sinal

O bispo daquela cidade era um frade franciscano chamado Juan de Zumárraga, o primeiro bispo do México. Juan Diego foi até a casa dele, como a Senhora havia mandado. Esperou horas sentado num canto, porque os criados olharam de lado para as suas roupas de indígena e não tiveram pressa nenhuma em avisar o bispo. Só bem mais tarde ele conseguiu entrar.

Dom Zumárraga escutou com educação, mas não acreditou. Mandou que voltasse outro dia.

Juan Diego voltou ao Tepeyac com o peito pesado. Pediu à Senhora que escolhesse outro mensageiro, alguém importante, alguém de quem os grandes fizessem caso, porque ele não passava de um homem pequeno, uma folha, um pedacinho de corda. Ela respondeu com doçura que tinha muitos servos a quem poderia mandar, mas que era ele, exatamente ele, que ela queria. E pediu que voltasse ao bispo no dia seguinte.

Na segunda visita, dom Zumárraga fez muitas perguntas e, no fim, pediu uma prova.

— Traga-me um sinal — disse o bispo. — Alguma coisa que eu possa ver com os meus próprios olhos.

O Tio Doente

Naquela mesma semana, o tio de Juan Diego, um velho chamado Juan Bernardino, caiu de cama com febre alta. Piorou depressa, do jeito que as doenças pioravam naquele tempo. Na noite de 11 de dezembro já estava tão mal que pediu ao sobrinho que fosse buscar um padre logo cedo, para se despedir como cristão.

Na manhã de 12 de dezembro, Juan Diego saiu correndo. E fez uma coisa muito humana: deu a volta pelo outro lado do morro, para não encontrar a Senhora e não precisar explicar por que estava demorando tanto com o recado dela.

Mas ela desceu pela encosta e veio ao encontro dele assim mesmo.

— Para onde você vai, filho menorzinho? — perguntou.

Envergonhado, Juan Diego contou tudo: o tio, a febre, o padre, a pressa. Então a Senhora disse a ele as palavras que até hoje se repetem no México inteiro.

— Não estou eu aqui, eu que sou a sua Mãe? Você não está debaixo da minha sombra e do meu cuidado? Não se aflija com essa doença. Seu tio já não vai morrer dela.

As Rosas Fora de Época

Depois, a Senhora mandou que ele subisse até o alto do morro e colhesse as flores que encontrasse lá em cima.

Juan Diego subiu sem entender nada. Dezembro, naquela região, é tempo de frio, e o Tepeyac era um morro de pedra, de cactos e de espinhos, onde quase nada crescia em nenhuma época do ano. Mas, quando chegou ao topo, encontrou rosas abertas, molhadas de orvalho, perfumadas, do tipo que só nascia na Espanha, do outro lado do mar.

Ele colheu quantas coube e as trouxe na frente do corpo, enroladas no manto. Os homens daquele povo usavam uma capa tecida com fibra de agave, chamada tilma, amarrada num dos ombros: servia de casaco, de sacola e de cobertor. Foi dentro dela que as rosas viajaram. A própria Senhora arrumou as flores com as mãos, dobrou as pontas do pano e disse que ninguém mais poderia abrir aquele manto antes do bispo.

O Manto se Abre

Na casa do bispo, os criados sentiram um cheiro bom de rosas e quiseram ver o que o indígena trazia escondido. Juan Diego segurou o manto fechado com as duas mãos e esperou de pé, mais uma vez, até ser chamado.

Diante de dom Zumárraga, ele soltou as pontas da tilma. As rosas caíram no chão, uma chuva vermelha sobre as pedras frias da sala. E então ninguém conseguiu falar mais nada.

No pano simples do manto havia uma imagem. Era a Senhora, exatamente como Juan Diego a tinha visto: as mãos postas, a cabeça inclinada, o manto azul cheio de estrelas, o rosto moreno e calmo de uma jovem do povo dele. O bispo caiu de joelhos ali mesmo, ao lado das rosas espalhadas, e pediu perdão por não ter acreditado.

O Nome Dela

Quando Juan Diego finalmente conseguiu voltar para casa, encontrou o tio de pé, forte, sem nenhuma febre. Juan Bernardino contou que uma Senhora tinha vindo até a cabeceira da sua cama no auge da doença e o tinha levantado dali. Contou também que ela havia dito como queria ser chamada: Santa Maria de Guadalupe.

A casinha sagrada foi construída no Tepeyac, e o manto foi colocado lá dentro para que todos pudessem ver. Juan Diego deixou a sua roça, mudou-se para um quartinho ao lado da capela e passou o resto da vida cuidando dela e contando a história para quem chegava. Morreu em 30 de maio de 1548, já bem velhinho.

Nos anos que se seguiram, milhões de indígenas pediram o batismo. Muitos explicaram o motivo com palavras parecidas: a Mãe de Deus tinha vindo falar a língua deles, com o rosto deles. Quem o mundo tratava como se fosse ninguém descobriu, de uma vez, que era alguém aos olhos do Céu.

Até os Nossos Dias

O manto de Juan Diego continua exposto na Basílica de Nossa Senhora de Guadalupe, na Cidade do México, e é um dos santuários mais visitados do mundo inteiro. Todos os anos, no dia 12 de dezembro, gente de todas as idades atravessa o país a pé para chegar até lá.

Em 1910, o papa Pio X proclamou Nossa Senhora de Guadalupe padroeira da América Latina, e em 1999 o papa João Paulo II pediu que o continente inteiro celebrasse a sua festa no dia 12 de dezembro, chamando-a de padroeira de toda a América. Isso inclui o Brasil, do outro lado do mesmo continente.

E no dia 31 de julho de 2002, esse mesmo papa entrou naquela basílica e declarou santo o mensageiro do Tepeyac: São Juan Diego Cuauhtlatoatzin, o primeiro santo indígena das Américas. O homem que o mundo não quis enxergar tem hoje o nome escrito no calendário da Igreja, no dia 9 de dezembro, três dias antes da festa da Senhora que lhe pediu um favor.

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Moral da História

Nossa Senhora podia ter escolhido um bispo, um rei ou um homem de muita fama, mas escolheu Juan Diego, que se achava pequeno demais para qualquer coisa. Ela veio com o rosto e a língua de um povo que estava sendo tratado como se não valesse nada, e isso já era metade do recado. Ninguém é pequeno demais para Deus, e ninguém deveria ser pequeno demais para nós.

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