A Guerra de Troia havia terminado, e Troia estava em ruínas.
Odisseu, também chamado Ulisses — o herói mais inteligente da Grécia, aquele que teve a ideia do Cavalo de Troia —, estava pronto para voltar para casa. Casa era Ítaca, uma pequena ilha onde o esperavam sua esposa Penélope e seu filho Telêmaco, que ele deixara ainda bebê.
A viagem deveria durar algumas semanas, no máximo uns poucos meses. Odisseu não sabia que levaria dez anos, nem que seria a aventura mais perigosa já contada.
Odisseu comandava doze navios cheios de companheiros, guerreiros que haviam lutado ao lado dele em Troia.
A primeira parada foi na terra dos Cícones. Mas, em vez de apenas buscar suprimentos, Odisseu deixou que seus homens saqueassem a cidade. Foi um erro terrível. Os Cícones das cidades vizinhas se reuniram, contra-atacaram e mataram muitos dos companheiros. Odisseu fugiu com os navios, mas já havia perdido homens — e a crueldade desnecessária despertou a ira dos deuses.
Logo depois, uma tempestade atingiu a frota e a arrastou para longe, rumo a terras desconhecidas.
Após nove dias no mar, chegaram a uma ilha encantadora. Flores coloridas cobriam a praia, e o ar era doce. Odisseu mandou alguns homens explorarem, e eles encontraram os Comedores de Lótus — um povo gentil que vivia comendo as flores da ilha.
— Provem — ofereceram os Comedores de Lótus. — São deliciosas.
Os homens de Odisseu comeram as flores. E, no mesmo instante, esqueceram tudo. Esqueceram-se da casa, da família, da missão. Tudo o que queriam era ficar ali, comendo flores para sempre, e diziam, sonhadores, que não voltariam mais ao navio.
Quando Odisseu foi procurá-los e viu o que havia acontecido, ficou horrorizado. Mandou levá-los de volta à força. Os homens choravam, resistiam, queriam ficar. Odisseu os amarrou aos bancos dos navios até que o efeito das flores passasse, e a frota partiu depressa daquela doce armadilha.
Navegaram de novo, até avistarem uma ilha de montanhas altas e grandes cavernas. Um marinheiro avistou ovelhas pastando: ali haveria carne e queijo. Odisseu levou um navio com doze homens para explorar, deixando os outros seguros numa ilha próxima.
Encontraram uma caverna gigantesca, cheia de ovelhas e cabras, com queijos enormes e baldes de leite. Os homens queriam pegar o que pudessem e ir embora depressa. Mas Odisseu, curioso, quis ficar.
— Não. Quero conhecer quem vive aqui. Talvez nos receba com presentes de hospitalidade, como mandam os deuses.
Foi o seu segundo grande erro.
Enquanto examinavam a caverna, ouviram passos pesados, cada vez mais próximos, e uma sombra gigante cobriu a entrada.
Era um Ciclope — um gigante com um único olho no meio da testa. Chamava-se Polifemo, e era filho de Poseidon, o deus do mar. Tinha três vezes a altura de um homem, braços como troncos de árvore e um olho do tamanho de um prato.
Polifemo entrou com seu rebanho de ovelhas enormes. Depois pegou uma pedra imensa e fechou a entrada da caverna — uma pedra tão pesada que nem vinte homens juntos conseguiriam movê-la. Então o gigante olhou em volta e viu Odisseu e seus homens.
— Quem são vocês? — rugiu Polifemo. — O que fazem na minha caverna?
Odisseu tentou ser diplomático.
— Somos gregos, voltando de Troia. Pedimos hospitalidade, como Zeus ordena. Os deuses abençoam quem trata bem os estrangeiros.
Polifemo riu, um som terrível.
— Zeus? Eu não temo Zeus. Os Ciclopes não devem nada aos deuses.
E então, sem aviso, agarrou dois homens de Odisseu e os devorou, diante dos companheiros paralisados de horror. Depois se deitou atravessado na caverna e dormiu, bloqueando a saída.
Odisseu pensou em matar o Ciclope enquanto ele dormia. Mas percebeu o problema a tempo: se Polifemo morresse, quem moveria a pedra? Ficariam todos presos ali até o fim.
Então Odisseu fez o que fazia melhor: planejou.
Ao amanhecer, Polifemo devorou mais dois homens, removeu a pedra, saiu com as ovelhas e fechou a caverna de novo, com os prisioneiros dentro. Dos doze homens de Odisseu, restavam oito. Enquanto o gigante estava fora, Odisseu encontrou uma estaca enorme de madeira, o bastão de Polifemo. Mandou afiar a ponta e endurecê-la no fogo, e escondeu a arma sob o esterco das ovelhas.
À noite, Polifemo voltou e comeu mais dois homens. Restavam Odisseu e cinco companheiros.
Então Odisseu se aproximou do gigante com uma taça de vinho forte, que haviam trazido do navio.
— Ciclope, você comeu meus amigos. Mas prove este vinho. É o melhor da Grécia.
Polifemo provou. Nunca havia bebido vinho, e pediu mais, e mais, até esvaziar o odre inteiro. Já de língua pesada, perguntou o nome daquele homenzinho generoso.
— Meu nome — disse Odisseu, esperto — é Ninguém.
— Ninguém... que nome engraçado. Pois saiba, Ninguém: como você me deu vinho, serei gentil. Vou comer você por último. Esse é o meu presente de hospitalidade.
E Polifemo caiu num sono pesado de bêbado.
Era a hora. Odisseu e os homens pegaram a estaca afiada e aqueceram a ponta no fogo até ficar em brasa. Depois, todos juntos, correram e a cravaram no único olho de Polifemo.
O gigante acordou com um urro que sacudiu a montanha.
— Meu olho! Socorro, irmãos, socorro!
Os outros Ciclopes, que viviam nas cavernas vizinhas, vieram correndo e gritaram do lado de fora, perguntando quem o estava atacando.
— Ninguém me cegou! Ninguém está me matando.
— Ora, se ninguém está atacando você — responderam os Ciclopes, confusos —, então é doença mandada pelos deuses. Reze a seu pai Poseidon.
E foram embora.
Polifemo, cego e furioso, tateava pela caverna tentando agarrar os homens, mas não os encontrava.
Ao amanhecer, as ovelhas começaram a balir, querendo sair para o pasto. Polifemo removeu a pedra, mas sentou-se na entrada, apalpando o dorso de cada ovelha que passava, decidido a não deixar escapar nenhum homem.
Odisseu, porém, teve mais uma ideia. Amarrou cada companheiro sob a barriga das ovelhas grandes, e ele mesmo se agarrou à lã do maior carneiro. Quando os animais saíram, Polifemo apalpou apenas as costas de cada um. Não pensou em apalpar as barrigas.
E assim Odisseu e seus homens escaparam.
Correram para o navio e remaram para longe da ilha.
Mas então Odisseu cometeu seu terceiro erro — o pior de todos. Orgulhoso da vitória, não resistiu e gritou de volta para a praia:
— Ciclope! Se alguém perguntar quem cegou você, diga que foi Odisseu de Ítaca.
Os homens imploraram que ficasse quieto, mas era tarde. Polifemo ergueu o rosto cego para o céu e clamou:
— Pai Poseidon, deus do mar, vingue-me! Que Odisseu nunca chegue à sua casa. Ou, se os deuses quiserem que chegue, que chegue sozinho, sem nenhum companheiro, em navio de estranhos, e encontre desgraça esperando por ele.
Era uma maldição terrível. E Poseidon ouviu.
Odisseu e os sobreviventes alcançaram os outros navios. Daquele grupo de doze homens, voltavam apenas seis, contando o próprio Odisseu. E agora tinham Poseidon, o senhor de todos os mares, como inimigo.
A maldição de Polifemo garantia que o caminho não seria fácil. Ainda faltavam nove anos, mais monstros, mais deuses zangados, mais perigos. Mas Odisseu era inteligente e perseverante, e nada o faria desistir de voltar para Ítaca, para Penélope e Telêmaco.
Mesmo que levasse dez anos.
Reflexão



