Odisseia - Parte 1: O Ciclope e os Perigos
Épicos & Mitos Clássicos

Odisseia - Parte 1: O Ciclope e os Perigos

por Mitologia Grega

Idades 10-12
11 min de leitura

Conteúdo Sensível

Esta história contém cenas de um monstro devorando pessoas e violência em confrontos. A violência é apresentada no contexto de sobrevivência heroica, apropriada para leitores mais velhos.

A Guerra de Troia havia terminado, e Troia estava em ruínas.

Odisseu, também chamado Ulisses — o herói mais inteligente da Grécia, aquele que teve a ideia do Cavalo de Troia —, estava pronto para voltar para casa. Casa era Ítaca, uma pequena ilha onde o esperavam sua esposa Penélope e seu filho Telêmaco, que ele deixara ainda bebê.

A viagem deveria durar algumas semanas, no máximo uns poucos meses. Odisseu não sabia que levaria dez anos, nem que seria a aventura mais perigosa já contada.

Odisseu comandava doze navios cheios de companheiros, guerreiros que haviam lutado ao lado dele em Troia.

A primeira parada foi na terra dos Cícones. Mas, em vez de apenas buscar suprimentos, Odisseu deixou que seus homens saqueassem a cidade. Foi um erro terrível. Os Cícones das cidades vizinhas se reuniram, contra-atacaram e mataram muitos dos companheiros. Odisseu fugiu com os navios, mas já havia perdido homens — e a crueldade desnecessária despertou a ira dos deuses.

Logo depois, uma tempestade atingiu a frota e a arrastou para longe, rumo a terras desconhecidas.

Após nove dias no mar, chegaram a uma ilha encantadora. Flores coloridas cobriam a praia, e o ar era doce. Odisseu mandou alguns homens explorarem, e eles encontraram os Comedores de Lótus — um povo gentil que vivia comendo as flores da ilha.

— Provem — ofereceram os Comedores de Lótus. — São deliciosas.

Os homens de Odisseu comeram as flores. E, no mesmo instante, esqueceram tudo. Esqueceram-se da casa, da família, da missão. Tudo o que queriam era ficar ali, comendo flores para sempre, e diziam, sonhadores, que não voltariam mais ao navio.

Quando Odisseu foi procurá-los e viu o que havia acontecido, ficou horrorizado. Mandou levá-los de volta à força. Os homens choravam, resistiam, queriam ficar. Odisseu os amarrou aos bancos dos navios até que o efeito das flores passasse, e a frota partiu depressa daquela doce armadilha.

Navegaram de novo, até avistarem uma ilha de montanhas altas e grandes cavernas. Um marinheiro avistou ovelhas pastando: ali haveria carne e queijo. Odisseu levou um navio com doze homens para explorar, deixando os outros seguros numa ilha próxima.

Encontraram uma caverna gigantesca, cheia de ovelhas e cabras, com queijos enormes e baldes de leite. Os homens queriam pegar o que pudessem e ir embora depressa. Mas Odisseu, curioso, quis ficar.

— Não. Quero conhecer quem vive aqui. Talvez nos receba com presentes de hospitalidade, como mandam os deuses.

Foi o seu segundo grande erro.

Enquanto examinavam a caverna, ouviram passos pesados, cada vez mais próximos, e uma sombra gigante cobriu a entrada.

Era um Ciclope — um gigante com um único olho no meio da testa. Chamava-se Polifemo, e era filho de Poseidon, o deus do mar. Tinha três vezes a altura de um homem, braços como troncos de árvore e um olho do tamanho de um prato.

Polifemo entrou com seu rebanho de ovelhas enormes. Depois pegou uma pedra imensa e fechou a entrada da caverna — uma pedra tão pesada que nem vinte homens juntos conseguiriam movê-la. Então o gigante olhou em volta e viu Odisseu e seus homens.

— Quem são vocês? — rugiu Polifemo. — O que fazem na minha caverna?

Odisseu tentou ser diplomático.

— Somos gregos, voltando de Troia. Pedimos hospitalidade, como Zeus ordena. Os deuses abençoam quem trata bem os estrangeiros.

Polifemo riu, um som terrível.

— Zeus? Eu não temo Zeus. Os Ciclopes não devem nada aos deuses.

E então, sem aviso, agarrou dois homens de Odisseu e os devorou, diante dos companheiros paralisados de horror. Depois se deitou atravessado na caverna e dormiu, bloqueando a saída.

Odisseu pensou em matar o Ciclope enquanto ele dormia. Mas percebeu o problema a tempo: se Polifemo morresse, quem moveria a pedra? Ficariam todos presos ali até o fim.

Então Odisseu fez o que fazia melhor: planejou.

Ao amanhecer, Polifemo devorou mais dois homens, removeu a pedra, saiu com as ovelhas e fechou a caverna de novo, com os prisioneiros dentro. Dos doze homens de Odisseu, restavam oito. Enquanto o gigante estava fora, Odisseu encontrou uma estaca enorme de madeira, o bastão de Polifemo. Mandou afiar a ponta e endurecê-la no fogo, e escondeu a arma sob o esterco das ovelhas.

À noite, Polifemo voltou e comeu mais dois homens. Restavam Odisseu e cinco companheiros.

Então Odisseu se aproximou do gigante com uma taça de vinho forte, que haviam trazido do navio.

— Ciclope, você comeu meus amigos. Mas prove este vinho. É o melhor da Grécia.

Polifemo provou. Nunca havia bebido vinho, e pediu mais, e mais, até esvaziar o odre inteiro. Já de língua pesada, perguntou o nome daquele homenzinho generoso.

— Meu nome — disse Odisseu, esperto — é Ninguém.

— Ninguém... que nome engraçado. Pois saiba, Ninguém: como você me deu vinho, serei gentil. Vou comer você por último. Esse é o meu presente de hospitalidade.

E Polifemo caiu num sono pesado de bêbado.

Era a hora. Odisseu e os homens pegaram a estaca afiada e aqueceram a ponta no fogo até ficar em brasa. Depois, todos juntos, correram e a cravaram no único olho de Polifemo.

O gigante acordou com um urro que sacudiu a montanha.

— Meu olho! Socorro, irmãos, socorro!

Os outros Ciclopes, que viviam nas cavernas vizinhas, vieram correndo e gritaram do lado de fora, perguntando quem o estava atacando.

— Ninguém me cegou! Ninguém está me matando.

— Ora, se ninguém está atacando você — responderam os Ciclopes, confusos —, então é doença mandada pelos deuses. Reze a seu pai Poseidon.

E foram embora.

Polifemo, cego e furioso, tateava pela caverna tentando agarrar os homens, mas não os encontrava.

Ao amanhecer, as ovelhas começaram a balir, querendo sair para o pasto. Polifemo removeu a pedra, mas sentou-se na entrada, apalpando o dorso de cada ovelha que passava, decidido a não deixar escapar nenhum homem.

Odisseu, porém, teve mais uma ideia. Amarrou cada companheiro sob a barriga das ovelhas grandes, e ele mesmo se agarrou à lã do maior carneiro. Quando os animais saíram, Polifemo apalpou apenas as costas de cada um. Não pensou em apalpar as barrigas.

E assim Odisseu e seus homens escaparam.

Correram para o navio e remaram para longe da ilha.

Mas então Odisseu cometeu seu terceiro erro — o pior de todos. Orgulhoso da vitória, não resistiu e gritou de volta para a praia:

— Ciclope! Se alguém perguntar quem cegou você, diga que foi Odisseu de Ítaca.

Os homens imploraram que ficasse quieto, mas era tarde. Polifemo ergueu o rosto cego para o céu e clamou:

— Pai Poseidon, deus do mar, vingue-me! Que Odisseu nunca chegue à sua casa. Ou, se os deuses quiserem que chegue, que chegue sozinho, sem nenhum companheiro, em navio de estranhos, e encontre desgraça esperando por ele.

Era uma maldição terrível. E Poseidon ouviu.

Odisseu e os sobreviventes alcançaram os outros navios. Daquele grupo de doze homens, voltavam apenas seis, contando o próprio Odisseu. E agora tinham Poseidon, o senhor de todos os mares, como inimigo.

A maldição de Polifemo garantia que o caminho não seria fácil. Ainda faltavam nove anos, mais monstros, mais deuses zangados, mais perigos. Mas Odisseu era inteligente e perseverante, e nada o faria desistir de voltar para Ítaca, para Penélope e Telêmaco.

Mesmo que levasse dez anos.

❤️ ✝️ ❤️

Reflexão

A curiosidade precisa andar de mãos dadas com a prudência, e a inteligência vale mais do que a força. Odisseu venceu o Ciclope com astúcia, mas seu orgulho, ao gritar o próprio nome, custou-lhe anos de sofrimento. Mesmo depois de vencer, é preciso permanecer humilde.

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