Depois de escapar do Ciclope Polifemo, Odisseu e seus companheiros navegaram por mares perigosos, até chegarem à ilha de Éolo, o guardião dos ventos.
Éolo foi gentil. Deu a Odisseu um presente extraordinário: um saco de couro contendo todos os ventos do mundo — todos, menos o vento oeste, que soprava os navios diretamente para Ítaca.
— Não abra o saco — avisou Éolo. — Deixe apenas o vento oeste trabalhar.
Por nove dias, navegaram em linha reta para casa. Chegaram tão perto de Ítaca que já podiam ver a fumaça das lareiras subindo ao longe. E Odisseu, exausto de comandar o leme sozinho, finalmente adormeceu.
Mas os companheiros ficaram curiosos e desconfiados. Cochichavam entre si que o saco devia estar cheio de ouro e prata, e que Odisseu não queria dividir o tesouro.
Enquanto ele dormia, abriram o saco.
Todos os ventos escaparam de uma só vez. Tempestades furiosas caíram sobre os navios e os empurraram para trás, cada vez mais longe de Ítaca. Odisseu acordou e viu sua ilha desaparecendo no horizonte. Seu coração se partiu. Estiveram a algumas horas de casa, e agora estavam perdidos de novo.
A tempestade os levou para a terra dos Lestrigões, uma raça de gigantes canibais. Era pior que o Ciclope, porque lá havia centenas deles.
Os Lestrigões atacaram a frota do alto dos penhascos, atirando rochas enormes que esmagavam os navios como brinquedos. Onze dos doze navios afundaram, e centenas de companheiros se perderam nas águas. Apenas o navio do próprio Odisseu escapou.
Agora restavam um navio e cerca de quarenta e cinco homens. Era um desastre do qual ninguém sabia se conseguiriam se recuperar.
Abalados e de luto, navegaram até uma ilha misteriosa chamada Eeia. No centro da ilha erguia-se um palácio de pedra, com fumaça subindo da chaminé.
Odisseu dividiu os homens em dois grupos: um sob seu comando, outro sob o comando do amigo Euríloco. Tiraram a sorte, e coube ao grupo de Euríloco explorar. Ele partiu com vinte e dois homens em direção ao palácio.
Lá encontraram algo estranho: lobos e leões andavam soltos pelo pátio. Mas não atacavam ninguém. Eram mansos como cães de casa.
De dentro do palácio vinha uma voz de mulher, cantando uma melodia linda. A porta se abriu, e ali estava Circe — uma feiticeira belíssima, de cabelos dourados e olhos que brilhavam com poder.
— Bem-vindos, viajantes — disse ela com doçura. — Vocês parecem cansados. Entrem, comam, bebam.
Ela serviu comida e vinho, e os homens, famintos, comeram sem desconfiar. Só Euríloco, cauteloso, ficou do lado de fora, observando pela fresta.
Quando terminaram de comer, Circe sorriu de um jeito diferente. Pegou sua vara mágica e tocou cada homem, um por um.
E os homens se transformaram em porcos.
Os homens agora tinham corpo de porco, mas continuavam com mente humana. Grunhiam desesperados, tentavam falar, e só saíam roncos. Circe os trancou num chiqueiro, satisfeita com os novos animais da sua coleção. Os lobos e leões do pátio, afinal, eram todos viajantes transformados.
Euríloco viu tudo e correu de volta, sem fôlego.
— Odisseu, é uma feiticeira. Ela transformou todos em porcos.
Odisseu pegou sua espada.
— Então vou buscá-los.
— É loucura ir sozinho — disse Euríloco.
— São meus homens. Eu não os abandono.
No caminho para o palácio, o deus Hermes apareceu a Odisseu.
— Circe transformará você também, se for assim, de mãos vazias. Leve isto.
Hermes entregou-lhe uma flor mágica chamada moli, de raízes negras e pétalas brancas como leite.
— Esta planta o protegerá da magia dela. Quando o feitiço falhar, saque a espada e avance. Circe ficará tão espantada que fará o que você pedir. Faça-a jurar pelos deuses que não lhe fará mal.
Odisseu agradeceu e seguiu em frente.
No palácio, Circe o recebeu com a mesma doçura de sempre, ofereceu comida e vinho, e Odisseu aceitou, com a flor escondida junto ao peito. Quando ele terminou, a feiticeira tocou-o com a vara.
— Vire porco — ordenou.
Nada aconteceu. Odisseu continuou homem, protegido pela moli. Circe recuou, espantada, e ele sacou a espada e avançou.
— Sou Odisseu de Ítaca. Devolva os meus homens.
Circe caiu de joelhos.
— Então é você. Hermes me disse, um dia, que Odisseu chegaria a esta ilha e venceria a minha magia.
— Jure pelos deuses que não me fará mal — exigiu Odisseu.
Circe jurou pelo rio Estige, o juramento mais sagrado que existe. Depois acenou a vara sobre o chiqueiro, e os porcos voltaram a ser homens — até mais fortes e mais jovens do que antes.
— Fiquem comigo — pediu Circe. — Você e seus homens. Descansem, comam, recuperem as forças.
Odisseu hesitou, mas seus homens estavam exaustos e feridos por dentro. Concordou em ficar um mês. Só que um mês virou dois, e três, e quatro... e um ano inteiro passou na ilha de Circe.
Foram os companheiros que um dia o chamaram à parte.
— Capitão, precisamos partir. Você se esqueceu de Ítaca? De Penélope?
Odisseu acordou como de um longo sonho. Eles tinham razão. Circe, que havia se apaixonado por ele, ficou triste, mas ajudou na partida e o avisou dos perigos que viriam.
— Primeiro, vocês passarão pelas Sereias, criaturas que cantam tão lindamente que os marinheiros se atiram ao mar para alcançá-las, e morrem. Depois, cruzarão um estreito guardado por Cila e Caríbdis: Cila é um monstro de seis cabeças, que arrebata homens dos navios; Caríbdis é um redemoinho que engole embarcações inteiras. Escolha seu caminho com muito cuidado.
Odisseu e seus homens partiram, e logo avistaram a ilha das Sereias.
Lembrando o aviso de Circe, Odisseu teve uma ideia. Queria ouvir o canto famoso — mas sem morrer por isso.
— Tapem os ouvidos com cera — ordenou aos homens. — Eu quero ouvir. Amarrem-me ao mastro e, não importa o que eu implore, não me soltem.
Os homens moldaram cera morna nos ouvidos e amarraram Odisseu firmemente ao mastro.
Quando o navio se aproximou, o canto das Sereias começou.
Era a música mais linda que Odisseu já ouvira. Prometia conhecimento, sabedoria, todos os segredos do mundo. As Sereias cantavam o nome dele, diziam saber tudo sobre Troia e sobre o seu futuro, e o chamavam para perto.
Odisseu lutou contra as cordas e implorou que o soltassem. As lágrimas escorriam; o desejo de ir era quase insuportável. Mas os homens, sem ouvir nada, apenas remaram mais depressa, obedecendo à ordem antiga.
Enfim a ilha ficou para trás, e o canto morreu na distância. Odisseu voltou a si, trêmulo e agradecido. Nenhum outro homem havia ouvido o canto das Sereias e sobrevivido.
Mas o desafio seguinte era pior. Chegaram ao estreito de Cila e Caríbdis.
De um lado, Caríbdis, o redemoinho gigante que três vezes por dia sugava o mar inteiro e depois o cuspia de volta. Qualquer navio apanhado ali seria destruído com todos a bordo. Do outro lado, no alto do penhasco, a caverna de Cila, o monstro de seis pescoços compridos, cada um com uma cabeça de três fileiras de dentes.
O estreito era apertado demais para escapar dos dois. Odisseu lembrou as palavras de Circe: Caríbdis levava o navio inteiro; Cila levava seis homens. Era uma conta terrível de fazer — mas melhor perder seis do que perder todos.
Odisseu não contou aos homens sobre Cila, para que o pânico não os paralisasse. Apenas ordenou que remassem rente ao penhasco, longe do centro, onde Caríbdis rugia sugando e cuspindo o mar.
Então, das sombras lá do alto, Cila atacou. Seis cabeças desceram como serpentes, e cada uma agarrou um homem. Odisseu viu seus companheiros sendo erguidos no ar, ainda estendendo as mãos para ele, chamando seu nome. E não havia nada que ele pudesse fazer.
Cila os levou para a caverna. Os gritos ecoaram por um instante e depois vieram o silêncio e o som das ondas. Foi a cena mais dolorosa que Odisseu testemunhou em toda a viagem.
Os sobreviventes remaram com toda a força e escaparam do estreito.
Odisseu ficou em silêncio por muito tempo. Fora ele quem escolhera o caminho, sabendo o preço. Os homens tentaram consolá-lo, dizendo que sem ele todos teriam morrido. Mas ele nunca esqueceria aqueles rostos, aquelas mãos estendidas.
A jornada cobrava um preço cada vez maior. Haviam partido de Troia com doze navios e centenas de homens; agora restava um navio com poucos mais de trinta. E Ítaca ainda estava longe — e as provações mais duras ainda estavam por vir.
Reflexão



