Depois de escaparem de Cila e Caríbdis, Odisseu e seus companheiros chegaram à ilha de Trinácia, onde pastavam os bois sagrados de Hélio, o deus sol — animais divinos, belos e perfeitos.
Circe havia avisado: quem tocasse naqueles bois despertaria a fúria do deus. Por isso Odisseu foi claro com os homens: comeriam apenas as próprias provisões e não encostariam a mão no rebanho sagrado.
Mas então uma tempestade os prendeu na ilha. Uma semana, duas, um mês. As provisões acabaram, e a fome começou a apertar.
Um dia, enquanto Odisseu dormia depois de rezar aos deuses, seus homens fizeram algo terrível.
— Companheiros — disse Euríloco, desesperado —, estamos morrendo de fome, e a carne está ali. Prefiro morrer de uma vez pela ira de um deus do que morrer devagar de fome.
Alguns lembraram da proibição, mas a fome falou mais alto. Mataram os bois mais belos, os assaram e comeram.
Quando Odisseu acordou e sentiu o cheiro de carne assada, entendeu tudo e ficou horrorizado. Mas já era tarde demais.
Lá do alto, Hélio viu tudo e exigiu justiça a Zeus, ameaçando levar sua luz para o mundo dos mortos se o crime ficasse sem resposta. Zeus prometeu punição.
Quando a tempestade finalmente passou e o navio partiu, Zeus enviou um raio. O mastro quebrou, o casco se despedaçou, e todos os homens foram lançados ao mar. As ondas os engoliram, um a um.
Odisseu viu afundarem os companheiros que haviam sobrevivido a Troia, ao Ciclope, aos Lestrigões e a Cila. Em poucos minutos, estavam todos mortos. Só ele restou, agarrado aos destroços do navio.
A maldição de Polifemo se cumpria, palavra por palavra: que ele chegasse sozinho, sem companheiros, em navio de estranhos.
Por nove dias, Odisseu flutuou no mar, sozinho e sem esperança, até dar numa ilha chamada Ogígia. Ali vivia a ninfa Calipso, linda como o amanhecer e imortal.
Calipso se apaixonou por ele no primeiro instante e pediu que ficasse para sempre, prometendo torná-lo seu esposo. Odisseu estava destroçado, sem navio e sem forças para o mar. E assim, na ilha de Calipso, sete anos se passaram.
Mas Odisseu nunca deixou de sentar-se à beira do mar, olhando o horizonte e chorando por Ítaca.
Por fim, Atena, que sempre o protegera, intercedeu diante de Zeus: Odisseu já havia sofrido demais, vinte anos longe de casa. Zeus concordou e enviou Hermes a Calipso com a ordem de libertá-lo.
Calipso obedeceu, com o coração partido, mas fez um último aviso:
— Eu lhe ofereci a imortalidade, Odisseu. Sua Penélope é mortal. Vai envelhecer e vai morrer.
— Eu sei — respondeu Odisseu. — Mesmo assim, prefiro um dia com Penélope a uma eternidade sem ela.
Calipso o ajudou a construir uma jangada, e, depois de sete anos, Odisseu voltou ao mar.
Mais uma tempestade de Poseidon, ainda furioso, quase o matou. Mas os Feácios, um povo navegador da ilha de Esquéria, o resgataram das ondas e o levaram ao rei Alcínoo.
Ali, diante da corte, Odisseu contou sua história inteira — tudo o que você acabou de ler: o Ciclope, Circe, as Sereias, os bois do sol. Os Feácios se comoveram e choraram com ele, e o rei ordenou que o levassem para casa num de seus navios, rápidos como o pensamento.
E assim, adormecido no convés de um navio estrangeiro, depois de dez anos de guerra e dez anos de mar, Odisseu chegou a Ítaca.
Mas Atena o esperava na praia com um aviso: o palácio estava tomado por pretendentes. Mais de cem homens queriam casar-se com Penélope e ficar com o trono. Comiam sua comida, bebiam seu vinho, humilhavam seu filho Telêmaco. Penélope os enrolava havia anos, mas estava ficando sem saídas.
— E Penélope? — perguntou Odisseu, com o coração apertado.
— Fiel. Vinte anos esperando por você. Mas os pretendentes exigem que ela escolha um deles.
Odisseu quis marchar direto para o palácio, mas Atena o conteve. Eram mais de cem, e ele estava sozinho. Seria preciso astúcia. A deusa o transformou num velho mendigo, enrugado e maltrapilho, que ninguém reconheceria.
Odisseu foi primeiro à cabana de Eumeu, seu fiel porqueiro, que o acolheu com bondade sem saber quem era, oferecendo comida e um canto para descansar.
Então chegou Telêmaco — agora um jovem de vinte anos. Atena desfez o disfarce por um instante, e o rapaz ficou sem ar diante daquele homem que ele conhecia dos sonhos.
— Pai? — Telêmaco o abraçou, chorando. — Vinte anos... pensávamos que você estava morto.
— Você cresceu tanto, meu filho. Agora vamos retomar a nossa casa. Mas guarde segredo: ninguém pode saber que voltei.
No palácio, os pretendentes festejavam como sempre, comendo e rindo à custa do dono da casa. Quando o mendigo entrou, zombaram dele e chegaram a atirar-lhe restos de comida.
Mas Penélope desceu ao salão. Continuava linda depois de vinte anos, com fios de prata nos cabelos e uma tristeza antiga nos olhos. Ela viu o mendigo e o tratou com gentileza, dizendo que ao menos alguém naquela casa devia ser bondoso com um estrangeiro.
Odisseu quase se revelou ali mesmo. Mas se conteve. E ouviu Penélope anunciar aos pretendentes que no dia seguinte, enfim, faria a escolha que tanto exigiam.
Naquela noite, a velha ama Euricleia lavou os pés do "mendigo", como mandava a hospitalidade. E, enquanto lavava, viu uma cicatriz antiga na perna — a cicatriz que Odisseu carregava desde menino.
Euricleia congelou, e o nome subiu-lhe à boca. Odisseu tapou-lhe os lábios delicadamente.
— Silêncio, minha boa ama. Ninguém pode saber. Amanhã tudo se resolve.
Euricleia chorou de alegria em silêncio, e guardou o segredo.
No dia seguinte, Penélope apresentou seu teste aos pretendentes.
— Eis o arco de Odisseu. Nenhum homem além dele jamais conseguiu curvá-lo. Aquele que armar este arco e atirar uma flecha através de doze machados alinhados, esse terá a minha mão.
Os pretendentes riram, achando fácil. Mas, um por um, tentaram e falharam: nenhum conseguia sequer curvar o arco para prender a corda. Era rígido demais, forte demais. Aos poucos, o riso foi morrendo no salão.
Então o mendigo se levantou e pediu para tentar. Os pretendentes caçoaram, mas Telêmaco ordenou que o deixassem.
Odisseu pegou o arco — o seu arco, que não tocava havia vinte anos — e o examinou com carinho, como um músico examina um velho instrumento. Depois, sem esforço, curvou-o e prendeu a corda. O arco cantou sob seus dedos.
Os pretendentes pararam de rir.
Odisseu tomou uma flecha, mirou, e atirou. A flecha atravessou os doze machados, perfeitamente.
No salão, um silêncio absoluto.
Então Atena desfez o disfarce. As rugas desapareceram, os trapos viraram armadura, e diante de todos estava Odisseu, rei de Ítaca.
— Vocês invadiram a minha casa. Cortejaram a minha esposa, insultaram o meu filho, devoraram os meus bens. Agora chegou a hora de pagar.
Os pretendentes correram às armas — mas Telêmaco havia retirado todas do salão na véspera. Odisseu atirava, e cada flecha encontrava seu alvo. Telêmaco, Eumeu e os servos fiéis lutaram ao lado dele. Os homens que por anos haviam saqueado aquela casa caíram todos naquele dia. A justiça de Odisseu foi dura e completa.
Quando tudo terminou, Penélope desceu. Os servos diziam que era Odisseu, que ele havia voltado. Mas Penélope era prudente. Vinte anos de espera, tantas decepções. Como ter certeza?
Ela olhou bem para aquele homem e disse, calmamente, à ama:
— Euricleia, tire a cama de Odisseu do nosso quarto e prepare-a para o nosso hóspede.
— Tirar a cama? — Odisseu ficou atônito. — Impossível. Eu mesmo a construí. Um dos pés é uma oliveira viva, plantada no chão. Aquela cama não pode ser movida.
Penélope sorriu, e as lágrimas desceram. Ninguém no mundo conhecia aquele segredo, a não ser Odisseu.
— É você — disse ela. — É realmente você.
Penélope correu para os braços de Odisseu, e os dois choraram abraçados. Vinte anos de separação terminavam ali.
— Perdoe a minha cautela — pediu ela. — Tantos tentaram se passar por você.
— Sua cautela é a sua sabedoria — respondeu Odisseu. — Você é tão astuta quanto eu.
Naquela noite, conversaram até tarde. Ele contou as aventuras todas; ela contou os anos de resistência. E Atena, com carinho, fez a noite durar mais do que as outras, para dar àqueles dois um pouco do tempo que haviam perdido.
E assim terminou a Odisseia, a jornada mais longa e perigosa da mitologia. Foram vinte anos: dez lutando em Troia, dez tentando voltar. Odisseu enfrentou o Ciclope, os Lestrigões, a feiticeira Circe, as Sereias, Cila e Caríbdis, a ira de Poseidon e mais de cem pretendentes. Perdeu todos os navios e todos os companheiros.
Mas nunca desistiu de voltar para casa, para Penélope, para Ítaca. E, no fim, a astúcia, a perseverança e o amor venceram todos os obstáculos. Odisseu, Penélope e Telêmaco viveram em paz — uma família, enfim, completa.
Reflexão



