Havia um rei chamado Acrísio, que governava a cidade de Argos, na Grécia. Ele era poderoso e rico, mas tinha apenas uma filha, Dânae, e nenhum filho homem para herdar o trono.
— Terei um herdeiro? — perguntou Acrísio ao Oráculo de Delfos, o templo sagrado onde uma sacerdotisa falava as profecias dos deuses.
A Pítia entrou em transe, e falou com uma voz que não era a sua. Acrísio não teria nenhum filho homem. Mas sua filha teria um filho, e esse neto, um dia, seria a causa da morte do rei.
Acrísio ficou gelado de horror. Seu próprio neto o mataria? Ele não deixaria isso acontecer.

Acrísio teve então uma ideia terrível. Se Dânae nunca se casasse, nunca teria filhos, e sem neto a profecia não poderia se cumprir. Ele mandou construir uma câmara de bronze, um quarto subterrâneo de paredes de metal, e lá trancou a própria filha.
Dânae chorou e implorou.
— Pai, por favor, não me tranque aqui!
Mas Acrísio não voltou atrás.
— É para o seu próprio bem — mentiu ele. — E para o bem do reino.
Dânae ficou presa na câmara de bronze. Apenas uma pequena abertura no teto deixava entrar luz e ar. As servas traziam comida, mas ela não podia sair. Os anos foram passando, e Dânae vivia sozinha, olhando pela abertura para o céu distante, sonhando com a liberdade.

Do alto do Monte Olimpo, porém, Zeus, o rei dos deuses, olhava para a Terra. E ele viu Dânae, bela e solitária em sua prisão, e se apaixonou.
Mas como visitá-la, se a câmara de bronze não tinha porta e as paredes eram impenetráveis? Zeus usou seus poderes divinos e se transformou em algo que podia passar pela pequena abertura do teto: uma chuva de ouro. Gotas douradas e brilhantes desceram pela abertura, e Dânae olhou maravilhada enquanto aquela luz dançava ao seu redor. Era Zeus, visitando-a de forma mágica.
E dessa visita divina Dânae ficou à espera de um bebê. O filho que ela carregava era filho de Zeus, o rei dos deuses.

Meses depois, Dânae deu à luz um menino lindo e saudável, e o chamou de Perseu. Por um tempo, conseguiu mantê-lo escondido. Mas bebês choram, e um dia Acrísio ouviu o choro vindo da câmara de bronze.
— Impossível! — rugiu ele, mandando abrir a câmara. — Como você tem um bebê?
— Zeus me visitou — disse Dânae com calma, segurando Perseu. — Este é o filho do rei dos deuses. Seu neto.
Acrísio empalideceu. A profecia. O neto que o mataria havia nascido. Mas era filho de Zeus: se o rei fizesse mal ao bebê com as próprias mãos, Zeus o destruiria.
— Não posso matá-los — murmurou Acrísio. — Mas também não posso deixá-los aqui.
E ele teve outra ideia terrível.

Acrísio mandou construir uma caixa de madeira grande, quase um pequeno barco. Colocou Dânae e o bebê Perseu lá dentro.
— Se os deuses realmente protegem esta criança — disse friamente —, que eles os salvem.
E mandou lançar a caixa fechada ao mar.
Dânae apertou Perseu contra o peito enquanto a caixa batia nas ondas. A água entrava pelas frestas, e tudo balançava.
— Por favor, Zeus — orou ela. — Você é o pai desta criança. Salve-nos.
E Zeus ouviu. Ele acalmou os mares, e Poseidon, o senhor dos oceanos, criou uma corrente suave que carregou a caixa em segurança pelas águas. Por dias ela flutuou. Dânae amamentava o pequeno Perseu, uma chuva mansa lhes dava água doce, e peixes saltavam para dentro da caixa, trazendo alimento. Até que, finalmente, a caixa chegou à ilha de Sérifos.

Um pescador humilde chamado Díctis estava no mar quando viu a caixa boiando e a puxou com sua rede. Ao abri-la, ficou espantado: dentro havia uma mulher e um bebê, molhados, mas vivos.
— Quem são vocês? — perguntou ele com gentileza.
— Sou Dânae, princesa de Argos — respondeu ela. — E este é meu filho, Perseu. Fomos expulsos por meu pai.
Díctis era bondoso.
— Venham morar em minha casa. Cuidarei de vocês como se fossem minha família.
E assim Perseu cresceu na ilha de Sérifos. Díctis o tratou como filho, e o menino aprendeu a pescar, a nadar, a ser corajoso e bom. Os anos passaram, e Perseu se tornou um jovem forte e belo. Ele ainda não sabia que era filho de Zeus, mas havia nele algo especial, uma força e uma nobreza naturais.

Mas havia um problema na ilha de Sérifos. Polidectes, o rei da ilha e irmão de Díctis, viu Dânae e a quis como esposa.
— Case-se comigo — exigiu ele.
— Não — respondeu Dânae com firmeza. — Sou grata pela hospitalidade, mas não o amo.
Polidectes ficou furioso, pois ninguém o rejeitava. E havia um obstáculo no caminho dele: Perseu. O jovem, agora forte, protegia a mãe.
— Minha mãe disse não. Respeite a decisão dela.
Polidectes passou a odiar Perseu. Se conseguisse se livrar do rapaz, pensava ele, Dânae ficaria sozinha e teria de aceitar o casamento. E assim o rei armou um plano malicioso.

Polidectes anunciou que ia se casar — o que era mentira — e convidou todos os nobres da ilha para o banquete de noivado. Cada convidado deveria trazer um presente: um cavalo.
Os ricos da ilha tinham cavalos de sobra. Mas Perseu e Díctis eram pescadores humildes e não tinham nenhum. Perseu, orgulhoso, foi falar com o rei.
— Senhor, não tenho cavalo para dar. Mas trarei qualquer outro presente que você desejar.
Polidectes sorriu por dentro. Era exatamente o que queria ouvir.
— Qualquer presente?
— Qualquer um — prometeu Perseu, sem pensar.
— Então — disse Polidectes devagar — traga-me a cabeça da Medusa.
A sala inteira ficou em silêncio. Medusa. Uma das três Górgonas, monstros terríveis com serpentes no lugar dos cabelos. A Medusa cujo olhar transformava qualquer pessoa em pedra. Era uma missão de morte: ninguém que saíra à procura dela havia voltado.

Díctis puxou Perseu de lado.
— Não aceite. É uma armadilha. Polidectes quer que você morra.
Mas Perseu era jovem e tinha dado sua palavra.
— Prometi. Trarei a cabeça da Medusa, ou morrerei tentando.
— Filho — disse Dânae, chorando —, ninguém sobrevive à Medusa. Um olhar, e você vira uma estátua de pedra.
— Então não olharei para ela — respondeu Perseu, decidido. — Encontrarei um jeito.
Naquela noite, Perseu foi à praia se preparar para partir. Não tinha armas, não tinha plano, não sabia sequer onde a Medusa vivia. Mas tinha algo que só então começava a entender: o sangue de Zeus corria em suas veias, pois Dânae finalmente lhe contara a verdade. Quando o sol nasceu, ele ergueu os olhos para o céu.
— Pai, se você é mesmo Zeus, se eu sou mesmo seu filho, ajude-me agora. Preciso de orientação para esta missão impossível.
E Zeus ouviu. A história continua na Parte 2, quando Perseu recebe a ajuda dos deuses, enfrenta as estranhas Greias e, por fim, encontra a Medusa.

Reflexão



