Em 6 de janeiro de 1412, numa pequena aldeia francesa chamada Domrémy, nasceu uma menina chamada Joana — Jeanne, na língua dela. Seus pais, Jacques e Isabelle, eram camponeses pobres e piedosos, donos de uma pequena fazenda. Joana tinha quatro irmãos, e a casa era simples, trabalhadora e católica.
Naquele tempo, a França vivia uma guerra terrível contra a Inglaterra, tão longa que ficou conhecida como a Guerra dos Cem Anos. Soldados passavam saqueando e queimando aldeias, e o povo sofria muito. Mesmo assim, Joana crescia serena, rezando bastante e ajudando os pais no que podia.

1425: As Vozes Celestiais
Quando Joana tinha treze anos, aconteceu algo extraordinário. Era verão, e ela estava no jardim do pai, por volta do meio-dia, quando viu uma luz muito clara e ouviu uma voz. A voz era gentil e, ao mesmo tempo, cheia de força.
— Joana, seja boa e piedosa. Vá à igreja com frequência.
Joana ficou assustada.
— Quem é você?
— Sou o Arcanjo São Miguel. Deus me enviou até você.
Nos dias e meses seguintes, as vozes voltaram. Não era apenas São Miguel: vinham também Santa Catarina de Alexandria e Santa Margarida de Antioquia, cercadas de luz, belas e coroadas. No início, elas só aconselhavam: que Joana rezasse, fosse pura, confiasse em Deus. E Joana obedecia. Rezava ainda mais, ia à Missa todos os dias e fez voto de pertencer somente a Deus.

A Missão Impossível
Aos dezesseis anos, as vozes deram a Joana uma missão que parecia grande demais para ela.
— Joana, você deve ir ao encontro do Delfim Carlos, o príncipe da França. Deve libertá-lo dos inimigos e levá-lo a Reims, para ser coroado rei.
Joana ficou sem ar.
— Eu? Sou apenas uma menina pobre. Não sei lutar. Como posso fazer isso?
— Deus estará com você. Não tenha medo.
Joana chorou, porque a missão parecia impossível. Mas ela sabia, no fundo do coração, que quando Deus chama é preciso obedecer.
Joana procurou o capitão da região, Robert de Baudricourt.
— Senhor, Deus me enviou. Preciso chegar até o Delfim Carlos. Preciso salvar a França.
Baudricourt riu dela.
— Você? Uma camponesa? Volte para casa, menina.
Joana voltou, mas as vozes insistiam. Ela retornou a Baudricourt uma vez, e outra, e mais outra, até que ele por fim cedeu.
— Está bem. Vou lhe dar uma escolta. Mas, se falhar, a culpa é sua.

A Viagem ao Delfim
Em fevereiro de 1429, Joana tinha dezessete anos. Cortou o cabelo curto e vestiu roupas de homem, para viajar com mais segurança, e partiu com seis homens numa jornada de quase quatrocentos e cinquenta quilômetros, atravessando território inimigo. Foram onze dias de viagem, dormindo pouco, cruzando rios gelados e desviando de soldados. Joana não demonstrava medo: rezava o tempo todo. E assim chegaram sãos e salvos a Chinon, onde estava o Delfim Carlos.
O Encontro com o Delfim
Carlos, o Delfim, era um príncipe fraco e indeciso, e a França parecia quase perdida. Paris estava ocupada, Orléans cercada pelos ingleses, e restava pouca esperança. Antes de receber Joana, Carlos resolveu testá-la. Escondeu-se no meio dos cortesãos e colocou outro homem sentado no trono. Se ela vinha mesmo da parte de Deus, pensava ele, haveria de reconhecê-lo.

Joana entrou no salão cheio de nobres ricamente vestidos. Nunca tinha visto o Delfim e não sabia como era o seu rosto. Mesmo assim, caminhou direto até Carlos, escondido entre os outros, e ajoelhou-se diante dele.
— Gentil Delfim, Deus me enviou para ajudá-lo.
Carlos ficou espantado.
— Como você me reconheceu?
— Deus me mostrou.
Depois, conversando em particular, Joana revelou a Carlos coisas que só ele conhecia: uma oração secreta que ele fizera, dúvidas guardadas no fundo do coração. Carlos então se convenceu de que ela vinha mesmo da parte de Deus.
A Armadura e a Espada
Ainda assim, Carlos mandou que teólogos examinassem Joana. Durante três semanas, fizeram perguntas sobre tudo, querendo saber se aquilo vinha mesmo de Deus. Joana respondia com simplicidade e sabedoria, e no fim eles declararam que não haviam encontrado nela nada de mau. Carlos decidiu então confiar-lhe um exército.

Fizeram para Joana uma armadura completa, branca e brilhante, como a de um cavaleiro. E ela disse uma coisa curiosa:
— Há uma espada enterrada atrás do altar da igreja de Santa Catarina de Fierbois. Tragam essa espada para mim.
Ninguém sabia de espada nenhuma naquele lugar. Mas foram procurar e a encontraram exatamente onde Joana dissera: uma espada antiga, com cinco cruzes gravadas na lâmina. Joana a recebeu como um presente do céu.
O Estandarte
Joana, porém, não queria matar ninguém. As vozes lhe disseram que carregasse um estandarte e não usasse a espada para ferir. Ela mandou fazer então uma bandeira branca, com a imagem de Jesus e de Maria e as palavras "Jesus, Maria" bordadas.
— Amo quarenta vezes mais o meu estandarte do que a minha espada — dizia ela. — Eu o carrego para não matar ninguém. Nunca matei homem algum.

Orléans Sitiada
Havia meses a cidade de Orléans estava cercada pelos ingleses. Se caísse, a França inteira estaria perdida. Joana disse a Carlos que Deus a enviara para libertar Orléans, e em abril de 1429 partiu à frente de um exército. Tinha apenas dezessete anos e comandava milhares de soldados — e os soldados a amavam, certos de que era enviada de Deus. Joana os fazia confessar, rezar e deixar as palavras feias, e aos poucos transformou um exército indisciplinado numa tropa piedosa.
A Libertação de Orléans
Em 29 de abril, Joana entrou em Orléans, e o povo chorava de alegria ao ver a Donzela que vinha salvá-los. Nos dias seguintes, ela atacou os fortes ingleses ao redor da cidade. Lutou com coragem, escalou muralhas, levantou bem alto o estandarte. Uma flecha a feriu no ombro, mas ela não desistiu: cuidou do ferimento e voltou para junto dos seus soldados.

Em 8 de maio de 1429, apenas nove dias depois da chegada de Joana, Orléans estava livre, e os ingleses se retiraram. Era uma vitória que ninguém julgava possível. Pelas ruas, o povo gritava:
— Milagre! A Donzela nos libertou!
Joana ajoelhou-se e chorou, agradecendo a Deus. Não se vangloriou nem tomou para si a glória. Tudo, dizia ela, pertencia a Deus.
Rumo a Reims
Depois de Orléans, Joana venceu batalha após batalha: Jargeau, Meung, Beaugency, Patay. Os ingleses fugiam assustados e a chamavam de bruxa, mas Joana não era bruxa nenhuma — era uma menina que rezava. Em julho, ela disse a Carlos que era hora de ir a Reims para a coroação. Reims ficava em território dominado pelos inimigos, e o plano parecia loucura. Joana, porém, insistiu: era ali que Deus queria vê-lo coroado.

17 de Julho de 1429: A Coroação
A jornada até Reims foi um cortejo de vitórias: as cidades abriam as portas, os inimigos se afastavam. Em 17 de julho, na catedral de Reims, Carlos VII foi coroado rei da França. Joana estava lá, de pé, segurando o seu estandarte. Quando a coroa pousou na cabeça de Carlos, ela chorou baixinho. Tinha cumprido a missão que Deus lhe dera: libertara Orléans e coroara o rei, tudo em apenas quatro meses.
Depois da coroação, Joana perguntou ao rei se podia voltar para casa, pois as vozes tinham dito que a sua missão estava completa. Mas Carlos pediu que ficasse, dizendo que ainda precisava dela. Joana, obediente, ficou. No fundo do coração, porém, pressentia que os dias que viriam seriam bem diferentes.
Reflexão



