Depois da coroação de Carlos VII, a missão que as vozes tinham dado a Joana estava completa. Libertar Orléans e coroar o rei: ela fizera as duas coisas em apenas quatro meses, aos dezessete anos. Mas Carlos pediu que ficasse, dizendo que ainda precisava dela, e Joana, sempre obediente, continuou lutando. Alguma coisa, porém, havia mudado. As vitórias já não vinham com tanta facilidade.

O Ataque a Paris
Em setembro de 1429, Joana quis atacar Paris, que estava nas mãos dos ingleses. Carlos VII hesitava, preferia negociar, mas acabou permitindo o ataque. Desta vez, porém, o exército falhou. Joana foi ferida na perna por uma flecha e precisou recuar. Era a primeira derrota. E as vozes já a haviam avisado, em segredo, de que ela não duraria muito mais de um ano.
23 de Maio de 1430: A Captura
Na primavera de 1430, Joana defendia a cidade de Compiègne. Durante uma batalha, os borgonheses — franceses aliados dos ingleses — a cercaram. Joana lutou bravamente e tentou escapar, mas foi puxada do cavalo e capturada. Tinha apenas dezoito anos. Os borgonheses a levaram presa, e as portas se fecharam atrás dela.

Vendida aos Ingleses
Os borgonheses venderam Joana aos ingleses por dez mil moedas, como se ela fosse uma mercadoria. E Carlos VII, o rei que ela havia coroado, não fez nada para salvá-la. Não ofereceu resgate, não negociou, não tentou libertá-la. Foi uma traição amarga, e Joana se sentiu abandonada pelos homens. Mas não abandonou Deus. Na prisão, continuou rezando e confiando.
Os ingleses a levaram para Rouen, na Normandia, e a prenderam numa torre. Acorrentaram seus pés e puseram guardas dia e noite, como se ela fosse uma criminosa perigosa. Joana estava sozinha, sem amigos e sem família por perto. Restava-lhe Deus. E Deus lhe bastava.
O Julgamento Injusto
Os ingleses queriam destruir a fama de Joana. Se conseguissem provar que ela era bruxa ou herege, as vitórias dela passariam a parecer obra do demônio — e Carlos VII, um rei coroado por uma bruxa, um rei sem valor. Por isso montaram um julgamento religioso, liderado pelo bispo Pierre Cauchon, um francês que servia aos ingleses, e reuniram dezenas de teólogos e juízes.

O julgamento começou em 21 de fevereiro de 1431. Joana tinha dezenove anos e estava sozinha diante de dezenas de homens estudados, sem advogado para defendê-la. Eles faziam perguntas complicadas, verdadeiras armadilhas de teologia, esperando que ela se contradissesse. Mas Joana, que nunca tinha estudado, respondia com uma sabedoria que espantava a todos.
— Você está em estado de graça? — perguntaram um dia. Era uma pergunta-armadilha: qualquer resposta poderia condená-la.
— Se não estou, que Deus me ponha nela — respondeu Joana. — E, se estou, que Deus me conserve.
Os juízes ficaram sem palavras.
As Roupas Masculinas
Um dos principais pontos da acusação era estranho: Joana usava roupas de homem, e os juízes diziam que isso era contra a lei de Deus. Joana explicou com calma que as usava para se proteger. Na prisão, cercada de guardas homens a toda hora, aquelas roupas eram a sua defesa. Mas os juízes não quiseram ouvir e insistiram que era pecado grave.

24 de Maio: A "Abjuração"
Depois de meses de interrogatórios duros, Joana estava exausta. Ameaçaram-na com tortura e com a fogueira, e prometeram que, se ela admitisse ter errado, receberia uma prisão mais branda. Joana, jovem e assustada, assinou um documento que não sabia ler. Disseram-lhe que era uma confissão de erro e uma promessa de nunca mais vestir roupas de homem. Ela não sabia que aquilo era uma armadilha.
Em vez da prisão mais branda, mantiveram Joana acorrentada. E, durante a noite, levaram embora as roupas femininas dela, deixando na cela apenas roupas de homem. Quando acordou, Joana não teve escolha: vestiu o que havia. Na mesma hora, os juízes a acusaram de ter quebrado a promessa e a declararam herege reincidente. Tudo havia sido armado. Eles só queriam uma desculpa para condená-la à morte.
A Sentença de Morte
Em 30 de maio de 1431, levaram Joana diante dos juízes pela última vez, e Cauchon leu a sentença: Joana era considerada herege e seria queimada na fogueira. Joana chorou — não de medo, mas de tristeza, porque lhe diziam que a Igreja a condenava, quando na verdade quem a condenava era um tribunal corrompido. Ela ainda clamou pelo rei da França, lembrando a injustiça que sofria. Mas Carlos estava longe, e não fez nada.

30 de Maio de 1431: O Martírio
Na manhã daquele mesmo dia, levaram Joana à praça do mercado de Rouen, onde a lenha da fogueira já estava empilhada. Uma multidão veio assistir — alguns com ódio, muitos com compaixão. Joana tinha dezenove anos. Vivera tão pouco, e fizera tanto. Antes de subir, pediu uma cruz. Um soldado inglês, comovido, amarrou dois pedaços de madeira e lhe entregou uma cruz simples. Joana a beijou e a apertou contra o peito.
Amarraram Joana ao poste. Um padre bondoso, frei Martinho Ladvenu, ficou perto dela segurando um crucifixo erguido, para que ela pudesse olhar para Jesus até o fim. Então acenderam o fogo. As chamas subiram devagar, e a fumaça envolveu Joana. E, no meio de tudo, a voz dela se ergueu, clara, repetindo um único nome:
— Jesus! Jesus! Jesus!
Foi a sua última palavra. O nome de Jesus.
As testemunhas daquele dia contaram coisas extraordinárias. Um soldado inglês jurou ter visto uma pomba branca subir de dentro das chamas em direção ao céu. O carrasco, que já havia executado tantos condenados, saiu chorando e dizendo que estavam perdidos, porque haviam queimado uma santa. Até o bispo Cauchon viveu os anos seguintes cheio de medo. As cinzas de Joana foram lançadas no rio Sena, para que não virassem relíquias. Mas ninguém conseguiu apagar a sua memória.

1456: A Reabilitação
Vinte e cinco anos depois da morte de Joana, Carlos VII finalmente agiu. Envergonhado, pediu que o caso fosse revisto, e o Papa autorizou um novo julgamento. Ouviram centenas de testemunhas, examinaram todos os documentos, e a verdade veio à luz: o primeiro julgamento tinha sido uma fraude do começo ao fim. Em 7 de julho de 1456, Joana foi declarada inocente e reconhecida como mártir. Seu nome estava limpo, e sua honra, restaurada.
1909: Beatificação
Ao longo dos séculos, a fama de Joana só cresceu. A França a via como heroína nacional, e a Igreja estudava a sua vida com cuidado. Em 1909, o Papa Pio X a declarou beata, numa grande celebração que encheu de alegria a França inteira. A camponesa de Domrémy era agora a Beata Joana d'Arc, a Donzela de Orléans.

16 de Maio de 1920: Canonização
Em 1920, quase quinhentos anos depois da sua morte, aconteceu o que parecia impossível naquele dia triste em Rouen. Na Basílica de São Pedro, em Roma, diante de milhares de fiéis vindos de toda a França, o Papa Bento XV canonizou Joana. A menina camponesa que morrera queimada aos dezenove anos era agora Santa Joana d'Arc, santa da Igreja inteira.
Patrona da França
Em 1922, o Papa Pio XI declarou Santa Joana d'Arc padroeira secundária da França. Sua festa é celebrada em 30 de maio, o dia do seu martírio. Há igrejas dedicadas a ela e estátuas suas por toda a França; a casinha onde nasceu, em Domrémy, virou museu, e Rouen, onde morreu, guarda uma igreja em sua honra. Santa Joana é hoje uma das santas mais amadas do mundo.
O Legado de Santa Joana d'Arc
O que Santa Joana nos deixou foi um exemplo raro e completo. Ela teve coragem de enfrentar exércitos e tribunais, e obedeceu a Deus mesmo quando tudo parecia loucura. Guardou o coração puro no meio dos acampamentos de guerra e manteve a fé firme até dentro das chamas. Nas vitórias, deu toda a glória a Deus; no sofrimento, não amaldiçoou os inimigos. Amou a sua terra a ponto de dar a vida por ela, e repetia, serena, que não temia nada, porque Deus estava com ela.

Santa Joana Hoje
Ainda hoje, Santa Joana d'Arc continua inspirando gente muito diferente. Soldados a invocam como protetora, jovens a admiram como exemplo de coragem, e cristãos do mundo inteiro a veneram como mártir. A vida dela mostra uma coisa simples: Deus não escolhe os famosos nem os poderosos — escolhe os que confiam e obedecem.
As Últimas Palavras
Vale a pena lembrar: Joana tinha só dezenove anos quando morreu. Naquela idade tão nova, já havia libertado uma cidade, coroado um rei e enfrentado exércitos. E enfrentou a própria morte com uma coragem que envergonhou muitos homens adultos. Suas últimas palavras foram o nome de Jesus, repetido três vezes — o nome que a sustentou na vida inteira e a acompanhou até o céu.
Reflexão



