Em 1181 ou 1182, na cidade de Assis, na Itália, nasceu um menino chamado Giovanni, que quer dizer João. Seu pai, Pietro Bernardone, era um rico comerciante de tecidos que fazia muitos negócios na França, terra que amava. Por isso mudou o nome do filho para Francesco — Francisco. O menino cresceu com as melhores roupas, a melhor comida e tudo o que poderia querer, e gostava muito daquela vida.

O Príncipe da Festa
Francisco era o jovem mais popular de Assis. Alegre e generoso, adorava cantar e reunir os amigos, e gastava o dinheiro do pai sem pensar duas vezes, comprando comida e vinho para todos. Suas festas duravam a noite inteira, e sua voz atravessava as ruas da cidade. Todo mundo gostava dele e dizia que era o rapaz mais divertido e mais bem vestido de Assis. Mas, no fundo do coração, Francisco sentia que faltava alguma coisa.

O Sonho de Ser Cavaleiro
Francisco tinha um grande sonho: ser cavaleiro. Naquele tempo, os cavaleiros eram os heróis das histórias, homens que lutavam em batalhas e conquistavam glória. Francisco se imaginava de armadura brilhante, montado num cavalo branco, voltando para casa coberto de fama. Em 1202, quando tinha cerca de vinte anos, chegou a oportunidade: Assis entrou em guerra contra a cidade vizinha de Perúgia. Francisco se alistou, conseguiu uma armadura cara e despediu-se dos amigos dizendo:
— Vou voltar como herói!
A Derrota e a Prisão
Mas a batalha foi um desastre. Assis perdeu, e Francisco foi capturado e levado para uma prisão, onde passou mais de um ano numa cela escura, fria e suja. O jovem das festas agora vivia atrás das grades. E, no entanto, aconteceu uma coisa estranha: Francisco não perdeu a alegria. Enquanto os outros prisioneiros choravam e reclamavam, ele cantava.
— Por que você está alegre numa prisão? — perguntavam.
— Porque um dia vou ser príncipe de um grande reino — respondia Francisco.
Ele ainda não sabia, mas estava falando como um profeta.

A Doença
Por fim a família pagou o resgate, e Francisco voltou para casa. Mas voltou doente: a prisão tinha arruinado sua saúde, e ele passou meses de cama, fraco e com febre. Durante aquela doença comprida, começou a pensar na vida como nunca tinha pensado antes. Para que servia a riqueza? Para que serviam as festas? Um dia ele ia morrer — e depois? Quando finalmente se recuperou, já não era o mesmo.
A Primeira Mudança
Francisco tentou voltar à vida antiga, às festas e aos amigos, mas a diversão já não tinha o mesmo gosto. Numa noite, no meio de uma festa, ele ficou de repente quieto, parado, pensativo.
— Francisco, o que aconteceu? — perguntaram os amigos.
— Eu não sei... estava pensando — respondeu ele, confuso.
Os amigos riram e quiseram saber se ele estava apaixonado.
— Estou — sorriu Francisco. — Apaixonado pela noiva mais bela e nobre do mundo.
Ele falava da Dona Pobreza, mas ainda não sabia disso.

O Encontro com o Leproso
Um dia, Francisco cavalgava pelo campo quando viu, no caminho, algo que o encheu de medo: um leproso. A lepra era uma doença terrível que desfigurava o corpo, e naquele tempo todos fugiam dos leprosos, com nojo e com medo. Francisco sempre tinha fugido também.
Mas dessa vez algo diferente aconteceu.
Uma voz falou no coração de Francisco: desça do cavalo, vá até ele. Francisco lutou consigo mesmo — tinha nojo, tinha medo —, mas a voz insistia. Por fim, ele obedeceu. Desceu do cavalo, caminhou até o leproso e fez uma coisa que ninguém esperava: abraçou aquele homem e beijou suas feridas. O leproso chorou de emoção, porque ninguém nunca o tinha abraçado.

Francisco montou de novo no cavalo e partiu. Mas, quando olhou para trás, o leproso tinha desaparecido, e ele compreendeu no coração que tinha abraçado o próprio Jesus. A partir daquele dia, Francisco passou a visitar os leprosos: levava comida, limpava suas feridas, abraçava um por um. Os amigos ricos ficaram horrorizados e perguntavam se ele tinha enlouquecido. Mas Francisco estava mais feliz do que nunca.
A Igreja de São Damião
Um dia, Francisco entrou numa igrejinha velha e abandonada chamada São Damião, que estava quase caindo aos pedaços. Ajoelhou-se diante do crucifixo e rezou. Então, no silêncio, ouviu uma voz que vinha do Cristo na cruz:
— Francisco, vá e repare a minha casa, que está caindo em ruínas.
Francisco ficou assustado e maravilhado ao mesmo tempo. Jesus tinha falado com ele.
— Sim, Senhor — respondeu. — Vou consertar esta igreja.
Ele ainda não entendia que Jesus não falava apenas daquela igrejinha, mas da Igreja inteira.

O Conflito com o Pai
Francisco decidiu reconstruir São Damião, mas precisava de dinheiro para comprar pedras e materiais. Então fez uma coisa impulsiva: pegou tecidos caros da loja do pai, vendeu tudo e levou o dinheiro ao padre de São Damião. O padre, porém, ficou com medo, porque sabia que Pietro ficaria furioso, e não quis aceitar. E tinha razão. Quando o pai de Francisco descobriu, explodiu de raiva.
— Você roubou de mim! Está envergonhando a nossa família. O que aconteceu com você?
Francisco tentou explicar que Jesus lhe tinha pedido para reconstruir a Sua casa, mas o pai não quis ouvir. Chamou o filho de louco e o trancou num quarto da casa. Quando Pietro saiu a negócios, a mãe de Francisco abriu a porta, e ele fugiu para se esconder em São Damião.

O Julgamento Público
Pietro não aceitava perder nem o filho nem o dinheiro. Levou Francisco diante do bispo da cidade e, na praça pública, cheia de gente, acusou o próprio filho, exigindo o dinheiro de volta e o retorno dele para casa. O bispo, Dom Guido, olhou para Francisco com compaixão e disse com calma:
— Francisco, devolva o dinheiro do seu pai. Confie em Deus.
E então Francisco fez algo que ninguém esperava.
A Renúncia Total
Diante de todos, Francisco tirou as roupas do corpo, todas, e as colocou aos pés do pai. Depois disse, com voz firme:
— Até agora chamei Pietro Bernardone de pai. De agora em diante posso dizer livremente: Pai Nosso que estais nos Céus. É a Ele que entrego todo o meu tesouro e toda a minha esperança.
O pai ficou sem palavras, e a multidão também. O bispo, comovido, cobriu Francisco com a própria capa. Francisco não tinha mais nada — e, de um jeito misterioso, tinha tudo.

Francisco saiu da cidade cantando, vestindo apenas uma túnica simples que alguém lhe deu. Não tinha dinheiro, não tinha casa, não tinha nada, e mesmo assim ia radiante de alegria. Na estrada, encontrou bandidos que o espancaram e levaram o pouco que ele trazia — e ele continuou cantando.
— Quem é você? — perguntaram os bandidos, confusos.
— Sou o arauto do Grande Rei! — respondeu Francisco, alegre.
E seguiu seu caminho, louvando a Deus.
Reflexão



