Os últimos anos de Francisco foram de muito sofrimento no corpo, mas de grande alegria na alma. Ele tinha apenas uns quarenta anos, e o corpo já estava gasto: anos de fome, de frio, de trabalho duro e de doenças tinham cobrado o seu preço. Mesmo assim, Francisco não reclamava. Oferecia tudo a Deus e dizia, com um sorriso:
— Bem-vindas, minhas irmãs enfermidades.

As Doenças de Francisco
Francisco tinha vários problemas graves de saúde. Sofria de malária, que contraiu no Egito, e as febres o derrubavam. Os olhos estavam doentes, quase cegos, e a luz lhe causava uma dor terrível. O estômago, castigado pelos jejuns, doía sem parar, e as mãos e os pés também. Mas ele nunca pedia alívio. Pelo contrário, agradecia baixinho: obrigado, Senhor, por me deixar participar dos sofrimentos de Cristo.
O Retiro no Monte Alverne
Em setembro de 1224, Francisco decidiu fazer um retiro espiritual num lugar isolado chamado Monte Alverne, ou La Verna: uma montanha alta e rochosa, coberta de floresta densa. Ele queria ficar sozinho com Deus, rezar, meditar. Levou apenas alguns frades, que ficaram a distância. Francisco construiu uma cabana simples e, durante quarenta dias, jejuou e rezou quase sem parar.

Naqueles dias, Francisco meditava especialmente na Paixão de Cristo. Pensava nos sofrimentos de Jesus, na cruz, nas feridas, no amor. E rezava: Senhor, quero sentir o que Tu sentiste; quero Te amar como Tu me amaste. Francisco chorava de compaixão por Jesus e desejava unir-se por inteiro aos sofrimentos do Salvador. E Deus ouviu essa oração de uma maneira extraordinária.
14 de Setembro de 1224: Os Estigmas
Era a festa da Exaltação da Santa Cruz. Francisco rezava ao amanhecer, profundamente absorto, quando viu uma luz brilhante descer do céu. Na luz apareceu um serafim, um anjo com seis asas de fogo, e entre as asas do serafim Francisco viu Jesus crucificado. A visão era, ao mesmo tempo, linda e terrível.

Francisco ficou maravilhado e confuso, sem entender por que Cristo aparecia crucificado num serafim. A visão se aproximou. Das feridas de Cristo saíam raios de luz, e esses raios tocaram Francisco nas mãos, nos pés e no lado. Ele sentiu uma dor imensa, como se pregos atravessassem suas mãos e seus pés. Quando a visão desapareceu, Francisco olhou para si mesmo e viu: trazia no próprio corpo as marcas da crucificação de Cristo.
Francisco tentou esconder as feridas. Usava mangas compridas, cobria os pés, não queria que ninguém soubesse — por humildade, porque não buscava atenção. Mas era difícil: as feridas sangravam e manchavam as roupas, e os frades mais próximos acabaram descobrindo. Ficaram maravilhados, certos de que Deus tinha marcado Francisco com as feridas de Cristo. Francisco, porém, pedia segredo. Aquilo era entre ele e Jesus.

A Volta para Assis
Francisco desceu do Monte Alverne transformado. O corpo estava ainda mais fraco, as feridas doíam muito, e às vezes ele precisava ser carregado, porque mal conseguia andar. Mas a alma estava radiante, mais perto de Jesus do que nunca. Ele voltou para Assis, para a Porciúncula, o seu lugar amado. Ali, cercado pelos frades, Francisco viveria os últimos dias.
O Cântico das Criaturas
Em 1225, Francisco estava gravemente doente: quase cego, com dores fortes, perto da morte. Passava os dias numa cabana escura, porque a luz machucava seus olhos. Qualquer um estaria triste e desanimado. Mas Francisco, naquela escuridão, compôs o mais belo cântico de louvor à criação: o Cântico das Criaturas, também chamado Cântico do Irmão Sol. E cantava com a voz fraca, mas alegre:
Teus são o louvor, a glória, a honra e toda bênção.
Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas,
Especialmente o Senhor Irmão Sol,
Que clareia o dia e com sua luz nos alumia.
Louvado sejas, meu Senhor, pela Irmã Lua e as Estrelas,
Pela Irmã Água, pelo Irmão Fogo, pela Irmã Mãe Terra.
Louvado sejas, meu Senhor, por aqueles que perdoam por teu amor,
E suportam enfermidades e tribulações.
Louvado sejas, meu Senhor, por nossa Irmã Morte Corporal!"

Os Últimos Dias
Em outubro de 1226, Francisco sentiu que ia morrer. Pediu para ser levado à Porciúncula, porque queria partir dali, do seu lugar amado. Os frades o carregaram devagar, pois ele já quase não se movia. No caminho, Francisco pediu que parassem numa colina de onde se via Assis, a cidade que ele tanto amava. Ergueu a mão e a abençoou, chamando-a de mãe, agradecendo por tudo, e se despediu dela em silêncio.
Na Porciúncula, Francisco chamou todos os frades para perto e deu os últimos conselhos, com a voz mansa. Que amassem sempre a Dona Pobreza, o tesouro deles. Que amassem a Santa Mãe Igreja e fossem obedientes. Que amassem uns aos outros como Jesus os tinha amado. Depois pediu que lessem o Evangelho da Paixão segundo João e, enquanto ouvia, chorava devagar, de amor por Jesus.

3 de Outubro de 1226: A Morte
No sábado, 3 de outubro, ao entardecer, Francisco estava morrendo. Pediu para ser deitado no chão de terra, sem nada, porque queria morrer como tinha nascido: pobre como Cristo. Pediu pão, partiu-o e repartiu com os frades, como Jesus na Última Ceia. Depois, com um fio de voz, rezou o Salmo: "Com minha voz clamo ao Senhor... liberta minha alma da prisão." A noite foi caindo devagar. E, quando escureceu, Francisco morreu em paz, cercado pelos seus irmãos.
Naquela hora, os frades testemunharam uma coisa que nunca esqueceram: milhares de cotovias, os passarinhos que Francisco tanto amava, voaram sobre a cabana, cantando na escuridão. Era como se toda a criação acompanhasse Francisco na chegada ao céu. E, quando prepararam o corpo, todos puderam ver claramente os estigmas, as feridas sagradas que ele tinha escondido por tanto tempo.

O Funeral e a Canonização
No funeral, Assis inteira chorava — e, ao mesmo tempo, se alegrava, porque sabia que tinha um santo. O corpo foi levado em procissão e parou na igreja de São Damião, para que Santa Clara e suas irmãs pudessem se despedir. Clara chorou baixinho: adeus, pai; adeus, amigo; até o céu. Depois Francisco foi enterrado em Assis, na igreja de São Jorge.
Apenas dois anos depois, em 1228, o Papa Gregório IX canonizou Francisco — um dos processos mais rápidos da história, porque para todos já era claro que ele era santo. O Papa mandou começar a construção da Basílica de São Francisco em Assis, que hoje é um dos santuários mais visitados do mundo. E os frades franciscanos continuam espalhados pelo mundo inteiro, aos milhares, vivendo o caminho que Francisco abriu.

O Legado de São Francisco
O que Francisco deixou para o mundo não cabe em poucas palavras. Ele amou Jesus acima de tudo e mostrou que a riqueza não traz felicidade. Chamou de irmão e irmã o sol, a lua, os animais e as plantas, e ensinou a ver toda a criação como família. Cantou louvores mesmo doente e morrendo, saudou a todos com "paz e bem" e quis ser sempre o menor de todos.
Hoje, São Francisco é um dos santos mais amados do mundo, querido até por quem não é católico, porque viveu o amor de um jeito que todos reconhecem. É padroeiro da Itália, da ecologia, dos animais e da paz, e o Papa Francisco escolheu esse nome em homenagem a ele. Com Francisco, aprendemos a viver com simplicidade, a amar com generosidade e a confiar em Deus com alegria.
Reflexão



