Na Itália medieval, havia uma pequena cidade chamada Gubbio. Era uma cidade bonita, com casas de pedra, muralhas antigas e um mercado animado. Mas Gubbio tinha um problema terrível. Nas colinas ao redor vivia um lobo — e não era um lobo comum. Era enorme, feroz e perigoso. Ele atacava os rebanhos, devorava ovelhas e cabras, matava vacas e cavalos. E, pior ainda, o lobo também atacava pessoas.

Os habitantes de Gubbio viviam com medo. Muito medo. Ninguém ousava sair da cidade sozinho, ninguém ia trabalhar nos campos, ninguém levava os animais para pastar. As portas da cidade ficavam trancadas, e as pessoas só saíam em grandes grupos, armadas com lanças e espadas.
— Viram o lobo ontem? — sussurravam nas ruas.
— Sim. Estava perto da porta norte. Enorme como um bezerro, com olhos vermelhos.
— Giovanni tentou ir buscar lenha, e o lobo quase o pegou. Escapou por pouco.
O terror se espalhava. Para eles, o lobo era como um demônio.

Os homens de Gubbio tentaram matar o lobo. Saíram em grupos armados, com lanças, espadas, arcos e flechas. Mas o lobo era esperto demais, rápido demais, feroz demais. Atacava de surpresa, aparecia quando menos esperavam e depois desaparecia nas colinas. Alguns homens voltaram feridos, e alguns juravam que suas flechas simplesmente não acertavam, como se o lobo fosse protegido por algo maligno.
— É o diabo em forma de lobo — diziam uns.
— Estamos amaldiçoados — choravam outros.
A cidade estava desesperada. O que mais poderiam fazer?

Naquela época, São Francisco de Assis estava viajando pela região. Francisco era conhecido em toda a Itália: o santo pobre que havia deixado as riquezas para viver como Jesus, pregando o amor, a paz e o cuidado com a criação de Deus. Ele tinha um dom especial — amava todas as criaturas. Pássaros, coelhos, peixes, até insetos: chamava todos de irmãos e irmãs. As pessoas diziam que Francisco conversava com os animais, e que eles o entendiam e obedeciam.
Quando Francisco chegou perto de Gubbio, o povo correu ao seu encontro.
— Francisco! Um lobo terrível está nos aterrorizando. Ele mata nossos animais, já matou gente, e não podemos mais sair da cidade.

Francisco ouviu tudo com calma, os olhos cheios de compaixão.
— Onde está esse lobo? — perguntou.
— Nas colinas. Mas não vá até lá, Francisco. Ele vai matá-lo.
— Deus me protegerá — disse Francisco, simplesmente. — Vou falar com o lobo.
— Falar? — as pessoas se espantaram. — Ninguém fala com um monstro.
Francisco sorriu.
— Todas as criaturas de Deus podem entender o amor. Vou encontrá-lo.
Os frades que viajavam com ele ficaram preocupados e pediram que levasse ao menos uma arma. Francisco apenas fez o sinal da cruz.
— A cruz de Cristo é minha única arma. O amor é minha única proteção. Vamos.

Francisco saiu da cidade caminhando em direção às colinas. Alguns cidadãos corajosos o seguiram de longe, querendo ver o que ia acontecer — mas mantendo uma boa distância. Francisco andava sozinho, devagar, rezando. Suas mãos estavam vazias: sem arma, sem escudo. Apenas um homem pequeno, num hábito marrom simples.
De repente, no meio das árvores, o lobo apareceu. Era enorme, maior que os maiores cães. Os dentes eram longos e afiados, os olhos amarelos brilhavam de fúria, a boca aberta mostrava as presas. O lobo viu Francisco e disparou na direção dele.
— Corra, Francisco! Corra! — gritaram as pessoas de longe.

Mas Francisco não correu. Não se moveu, não mostrou medo. Em vez disso, levantou a mão e fez o sinal da cruz no ar, na direção do lobo. E então, com voz firme mas gentil, falou:
— Vem cá, Irmão Lobo. Em nome de Cristo, eu te ordeno: não faças mal a mim nem a ninguém.
Algo incrível aconteceu. O lobo parou. Vinha correndo, pronto para atacar — e, quando Francisco falou, parou na mesma hora. Fechou a boca, baixou as orelhas e, devagar, como um cachorro manso, caminhou até Francisco. E deitou aos pés dele.
As pessoas que assistiam de longe mal acreditavam no que viam. Ficaram em silêncio, maravilhadas. Francisco olhou para o lobo com gentileza — sem medo, sem raiva, com amor.
— Irmão Lobo — começou —, você tem feito muito mal nesta região. Destruiu as criaturas de Deus e até matou pessoas, que são feitas à imagem de Deus. Por esses crimes, você merecia ser caçado como um ladrão e assassino. As pessoas o odeiam e querem a sua morte.
O lobo mantinha a cabeça baixa, como se estivesse envergonhado.
— Mas eu quero fazer a paz entre você e eles — continuou Francisco. — Irmão Lobo, se você prometer não atacar mais ninguém, nem pessoas nem animais, eu farei com que o povo de Gubbio lhe dê comida todos os dias.

— Porque eu sei, Irmão Lobo — disse Francisco com doçura —, que você faz todo esse mal por causa da fome. Quando um animal está faminto, faz coisas terríveis. Não é verdade?
O lobo levantou a cabeça, olhou para Francisco e acenou, como se dissesse que sim.
— Então prometa, Irmão Lobo, que nunca mais fará mal a ninguém. E eu prometo que você nunca mais passará fome.
Francisco estendeu a mão.
— Dê-me sua pata, como sinal da sua promessa.
E o lobo levantou a pata e a colocou na mão de Francisco. Como um acordo. Um aperto de mãos. Uma promessa.

As pessoas que assistiam ficaram atônitas. Alguns choravam, outros riam de alívio.
— É um milagre! Francisco domou o lobo.
Francisco sorriu.
— Não fui eu, mas Cristo, que vive em mim. Agora venham. Vamos levar nosso Irmão Lobo para a cidade.
Francisco tomou o caminho de volta para Gubbio, e o lobo caminhou ao seu lado, manso como um cão de estimação. Quando chegaram, o sino da igreja tocou, e toda a população se reuniu na praça principal. As pessoas viam com os próprios olhos: o lobo terrível estava tranquilo como um cordeiro, andando ao lado de Francisco.

Francisco falou ao povo:
— Escutem. O Irmão Lobo prometeu fazer a paz. Ele não atacará mais ninguém, nem pessoas nem animais. Mas vocês devem prometer alimentá-lo todos os dias, porque ele atacava por fome, não por maldade. Ele será um guardião para a cidade, e vocês o tratarão com gentileza. Concordam?
— Sim! Concordamos — respondeu o povo. — Louvado seja Deus.
Francisco voltou-se para o lobo.
— E você, Irmão Lobo? Promete manter sua palavra?
O lobo acenou com a cabeça e, mais uma vez, colocou a pata na mão de Francisco, diante de todo o povo. Um grande aplauso encheu a praça, e havia lágrimas de alegria em muitos rostos. O pacto estava feito.

A partir daquele dia, algo maravilhoso aconteceu em Gubbio. O lobo passou a viver na cidade. Ia de porta em porta, e as pessoas lhe davam comida. Ele era gentil, nunca mais atacou ninguém, nunca mais mostrou os dentes com raiva. As crianças brincavam perto dele, as mulheres o acariciavam quando passava, e os homens que antes queriam matá-lo agora o cumprimentavam: bom dia, Irmão Lobo. O lobo se tornou querido por todos, como se fosse o cachorro da cidade inteira. E ele parecia feliz. Sua fome tinha acabado, e sua solidão também. Já não era odiado — era amado.

O lobo viveu em Gubbio por dois anos. Dois anos de paz e harmonia. E então, de velhice, morreu tranquilamente. Quando o lobo morreu, a cidade inteira chorou. Fizeram um funeral para ele e o enterraram com respeito e carinho.
— O Irmão Lobo nos ensinou muito — diziam as pessoas. — Ele nos mostrou que até os inimigos podem virar amigos.
— E São Francisco nos ensinou que o amor é mais forte que a violência.
A história se espalhou por toda a Itália e muito além, e se tornou uma das histórias mais amadas sobre São Francisco.


Reflexão



