Karol Józef Wojtyla nasceu no dia 18 de maio de 1920, na pequena cidade de Wadowice, na Polônia. Era o filho mais novo de Karol Wojtyla, um militar aposentado, e de Emilia Kaczorowska. Tinha um irmão mais velho, Edmund, que se tornou médico, e teve uma irmã, Olga, que morreu antes de ele nascer. A família era simples, mas profundamente católica, e a mãe levava o pequeno Karol à igreja todos os dias. Ninguém imaginava, porém, que a vida daquele menino seria marcada por sofrimentos desde muito cedo.

As Primeiras Perdas
Karol tinha apenas oito anos, quase nove, quando sua mãe morreu de uma doença do coração. Foi uma dor imensa para um menino tão pequeno, que a amava mais do que tudo. Anos depois, ele mesmo contaria, com saudade: "Não tive tempo suficiente para ter consciência do papel de mãe."
O pai assumiu sozinho a educação dos filhos, e fez isso com um carinho enorme. Karol pai era um homem de oração profunda: acordava cedo para rezar e ensinou ao filho, com o próprio exemplo, a amar a Deus acima de todas as coisas.

Mas as tristezas não pararam por aí. Quando Karol tinha doze anos, seu irmão Edmund, que tinha vinte e seis, morreu de escarlatina. Edmund era médico e pegou a doença cuidando dos seus pacientes, sem abandonar ninguém. Karol perdia agora o irmão, depois de já ter perdido a mãe, e ele e o pai ficaram sozinhos no mundo.
Essas dores profundas foram moldando o coração de Karol devagar. Ele aprendeu que a vida traz sofrimento, mas que Deus está presente também dentro do sofrimento, segurando a nossa mão.
O Jovem Brilhante
Apesar de tantas perdas, Karol cresceu como um jovem cheio de vida. Na escola, era aluno excelente e tirava as melhores notas em quase todas as matérias. E não era só estudioso: jogava futebol como goleiro, nadava, esquiava e descia rios de canoa. Ele acreditava que um corpo saudável ajuda a alma a ficar saudável também. Tinha ainda um talento raro para línguas, e ao longo da vida aprendeu latim, grego, alemão, francês, italiano, inglês, espanhol e outras mais.
Mas a grande paixão de Karol era o teatro. Ele adorava atuar e participava de peças na escola e na cidade. Tinha uma memória extraordinária, capaz de decorar peças inteiras, e subia ao palco com tanta convicção que muitos apostavam que ele seria ator profissional. Ele mesmo pensou seriamente nessa carreira. Deus, porém, tinha outros planos para aquele jovem artista.
A Segunda Guerra Mundial
Em 1939, Karol tinha dezenove anos e acabava de entrar na Universidade Jaguelônica, em Cracóvia, para estudar literatura polonesa. Mas no dia 1º de setembro de 1939 a Alemanha nazista invadiu a Polônia, e a Segunda Guerra Mundial começou. Os nazistas fecharam a universidade, prenderam professores e proibiram os poloneses de estudar. Hitler queria apagar a cultura da Polônia e transformar seu povo em servos sem memória.

Karol foi obrigado a trabalhar numa pedreira. Todos os dias carregava pedras pesadas e quebrava rochas, debaixo de sol forte no verão e de frio cortante no inverno. Era um trabalho forçado, humilhante e perigoso, e muitos morriam ali, de cansaço ou nas mãos dos guardas.
Mas Karol encontrou um jeito de transformar aquele sofrimento. Ele rezava enquanto trabalhava, oferecia cada dia difícil pela sua Polônia e guardava por dentro uma dignidade que ninguém conseguia tirar dele.
O Seminário Clandestino
Foi durante esses anos terríveis que Karol percebeu sua verdadeira vocação: ele queria ser padre. Só que os nazistas tinham fechado os seminários, prendiam sacerdotes e matavam religiosos. A resposta veio de um homem corajoso, o Arcebispo de Cracóvia, Dom Adam Sapieha, que continuou formando padres em segredo, num seminário clandestino.
Karol entrou nesse seminário escondido em 1942, aos vinte e dois anos. Estudava à noite, assistia a aulas secretas e lia, em porões, os livros que os nazistas tinham proibido. Se fosse descoberto, poderia ser preso ou morto. Mas sua fé era maior que o medo.

Durante o dia, para não levantar suspeitas, Karol continuava trabalhando, agora numa fábrica de produtos químicos. À noite, estudava teologia e filosofia em segredo, dormindo só algumas horas. Mesmo cansado, vivia com uma alegria quieta, porque sabia que estava seguindo a vontade de Deus.
Em 1944, os nazistas fizeram uma grande batida em Cracóvia e saíram prendendo os homens jovens da cidade. Os soldados bateram na porta da casa onde Karol estava, mas não o encontraram: ele conseguiu se esconder e escapou. Depois desse susto, o Arcebispo abrigou Karol no palácio episcopal até o fim da guerra.

Mais Uma Perda
Em 1941, no tempo em que Karol ainda trabalhava na pedreira, seu pai morreu de um ataque do coração. Karol tinha apenas vinte anos, e agora estava completamente só. Pai, mãe, irmão, irmã: todos tinham partido.
Ele chegou em casa e encontrou o pai já sem vida, ajoelhado ao lado da cama, como se tivesse morrido rezando. Karol passou a noite inteira velando o corpo, em oração. Mais tarde, ele confessou: "Nunca me senti tão sozinho." Mas daquela dor tão funda nasceu uma intimidade ainda maior com Deus. Karol entendeu que, dali em diante, Deus seria a sua família.
A Guerra Termina
Em janeiro de 1945, o exército soviético expulsou os nazistas de Cracóvia. A guerra chegava ao fim, e a Polônia respirava de novo. Mas a alegria durou pouco: o país saiu das mãos dos nazistas para cair nas mãos dos comunistas. Os soviéticos ocuparam a Polônia e instalaram um governo que também perseguiria a Igreja, só que de outro jeito. Mesmo assim, havia esperança. Os seminários puderam reabrir, e Karol enfim podia estudar à luz do dia.

A Ordenação Sacerdotal
Karol terminou os estudos de teologia com brilho. Estudava de dia e de noite, lia dezenas de livros e enchia cadernos de anotações cuidadosas. E então chegou o grande dia: em 1º de novembro de 1946, Festa de Todos os Santos, Karol Wojtyla foi ordenado padre, aos vinte e seis anos.
Na cerimônia, ele se deitou com o rosto no chão durante a Ladainha dos Santos, em sinal de entrega total a Deus. Quando o Arcebispo pousou as mãos sobre a sua cabeça, Karol sentiu no coração que agora pertencia inteiramente a Cristo. Celebrou sua primeira Missa na cripta de São Leonardo, na Catedral de Wawel, e rezou ali pelas almas dos seus pais e do seu irmão.
Padre Karol
Logo depois da ordenação, Padre Karol foi enviado a Roma para fazer o doutorado. Estudou na Pontifícia Universidade de São Tomás de Aquino, o Angelicum, e escreveu sua tese sobre a fé em São João da Cruz. Morava no Colégio Belga, rezava horas por dia e, nos momentos livres, visitava as igrejas e as catacumbas de Roma. Apaixonou-se pela Cidade Eterna, pela história da Igreja, pelos mártires e pelos Papas. Em 1948, defendeu a tese com nota máxima.

De volta à Polônia, Padre Karol foi nomeado vigário em Niegowić, uma aldeia pobre no campo. Foi lá que ele aprendeu a ser pastor de almas: visitava os doentes, ensinava o catecismo, celebrava as Missas. Os camponeses gostavam muito daquele padre jovem, humilde, alegre, sempre disponível. Depois ele foi transferido para Cracóvia, para a Paróquia de São Floriano. E foi ali que começou o seu trabalho extraordinário com os jovens, como você vai descobrir na próxima parte desta história.
Reflexão



