Belém era uma aldeia pequena. Tinha talvez mil habitantes, casas de pedra encostadas umas nas outras, um poço, currais escavados na encosta e uma estrada que subia para Jerusalém e descia para o sul. Fora da Judeia, quase ninguém tinha ouvido falar dela. Era o tipo de lugar onde todo mundo sabe o nome de todo mundo, e onde as mulheres, no fim da tarde, se conhecem pela voz com que chamam os filhos para dentro.
Naquele inverno, alguma coisa estranha tinha acontecido em Belém. Homens de roupas caras, vindos de muito longe, atravessaram a aldeia procurando uma criança. Depois foram embora tão de repente quanto tinham chegado, e por um caminho esquisito, dando a volta pelo deserto em vez de subir a estrada de Jerusalém. Numa aldeia daquele tamanho, as pessoas comentaram durante dias. Depois pararam de comentar. A vida voltou ao que era.
E, numa daquelas noites, sem avisar ninguém, um carpinteiro carregou as ferramentas, a mulher e o bebê e desapareceu na escuridão.
A nove quilômetros dali, em Jerusalém, o rei Herodes esperava.
Ele tinha pedido aos visitantes do Oriente que voltassem a lhe contar onde a criança estava, e eles tinham prometido. Herodes esperou um dia. Esperou dois. Mandou perguntar nas hospedarias, mandou vigiar as portas da cidade. Os homens não voltaram. Tinham ido embora por outro caminho, e a essa altura já estavam longe demais para serem alcançados.
Herodes era um rei velho, doente e apavorado. Tinha governado a Judeia por mais de trinta anos e tinha feito coisas grandiosas: reconstruiu o Templo de Jerusalém, ergueu um porto no meio do mar, levantou fortalezas no alto de rochedos impossíveis. E tinha feito também outra coisa, ao longo de todos aqueles anos, sempre que sentia o trono tremer debaixo dele: mandava matar quem pudesse tomá-lo. Assim morreram a própria esposa e três dos seus filhos. Herodes não temia exércitos. Temia sucessores.
Agora lhe diziam que num povoado de pastores tinha nascido um rei.
Ele não sabia o nome da criança. Não sabia a casa, nem a rua, nem o rosto. Sabia apenas a aldeia e, mais ou menos, a idade. E ordenou o que um homem sem limites ordena quando não sabe o suficiente: que não sobrasse nenhum.
Os soldados desceram de Jerusalém a pé, ao entardecer, para chegar com o escuro.
Não houve aviso. Não houve tempo para esconder ninguém nas cisternas, nem para correr pelos campos. Belém não tinha muralha, nem guarda, nem quem pudesse dizer não a um soldado do rei. Em poucas horas os soldados fizeram o que tinham sido mandados fazer, casa por casa, e depois subiram de volta pela mesma estrada, e o barulho das sandálias deles foi ficando pequeno na noite até sumir.
Quando amanheceu, Belém continuava lá. As pedras, o poço, os currais, o cheiro de fumaça fria. Só faltava uma coisa, e era a única coisa que se ouvia numa aldeia daquelas desde antes do sol: as crianças pequenas. Nenhuma voz de menino no pátio. Nenhuma criança chamando. As portas ficaram abertas, e ninguém foi trabalhar naquele dia.
Não sabemos quantos eram. Belém era minúscula, e os estudiosos calculam que os meninos de até dois anos fossem pouquíssimos — vinte no máximo, talvez só meia dúzia. Não é um número grande. Nunca foi um número. Eram filhos, cada um com o seu nome, e cada nome tinha sido escolhido por alguém com muito cuidado.
Quando o evangelista Mateus escreveu essa página, ele não tentou explicar. Não disse que tudo ficaria bem, nem que havia um motivo. Ele fez outra coisa: foi buscar, num livro escrito seiscentos anos antes, a voz que já tinha chorado aquele choro.
Raquel era a esposa amada de Jacó, mãe de José e de Benjamim, uma das grandes mães de Israel. Ela tinha morrido de parto na estrada, e o livro do Gênesis diz que foi sepultada no caminho de Efrata, que é Belém. O túmulo dela ficava ali, à beira daquela mesma estrada, a poucos passos das casas.
O profeta Jeremias tinha imaginado Raquel acordando dentro do seu túmulo, séculos depois, para chorar pelos descendentes que passavam acorrentados a caminho do exílio. Mateus retomou a imagem. A mãe antiga, enterrada na beira da estrada de Belém, chorando outra vez pelos filhos de Belém. E a frase que o evangelho escolheu guardar é a mais dura de todas: não quer ser consolada. Naquele dia, ninguém tinha o direito de pedir àquelas mulheres que parassem de chorar.
Mas o profeta Jeremias não tinha terminado no versículo do choro. Logo no versículo seguinte, no mesmo capítulo, está escrito:
Mateus citou só o versículo do choro, o quinze. Quem conhecia o profeta sabia o que vinha depois, e sabia que a promessa continuava de pé mesmo quando ninguém conseguia ouvi-la.
Herodes achou que tinha resolvido o problema.
Ele morreu pouco tempo depois, na sua casa de inverno em Jericó, doente e desconfiado até o último dia. O reino que ele tinha defendido daquele jeito foi dividido entre os filhos que ainda restavam, e em menos de oitenta anos não existia mais nada dele: nem trono em Jerusalém, nem o Templo que ele reconstruiu. Sobrou o nome. E o nome dele só é lembrado no mundo inteiro por causa de uma noite em Belém.
Enquanto isso, do outro lado do deserto, numa cidade do Egito que a Bíblia nem se dá ao trabalho de nomear, um menino de colo aprendia a andar.
O poder de Herodes não venceu. Ele nem chegou perto.
Ninguém escreveu os nomes das crianças de Belém. Elas eram pobres demais e pequenas demais para entrar em qualquer registro do império, e o mundo tinha tudo para esquecê-las em uma geração.
Só que a Igreja não esqueceu. Logo nos primeiros séculos, aqueles meninos começaram a ser venerados como mártires — os primeiros de todos, mortos por causa de Cristo antes mesmo de saberem falar. Já que os nomes deles tinham se perdido, a Igreja lhes deu um nome comum, e é por esse nome que eles são chamados desde então: os Santos Inocentes. A festa deles é no dia 28 de dezembro, três dias depois do Natal, bem no meio da alegria, porque a Igreja decidiu não celebrar o nascimento de Jesus fingindo que essa parte não aconteceu.
Um poeta cristão chamado Prudêncio, nascido no século quarto, escreveu sobre eles versos que a Igreja depois reuniu num hino e canta até hoje, e neles chama aquelas crianças de flores dos mártires: as primeiras flores da Igreja, colhidas pelo vento na própria manhã em que abriram.
Durante mais de mil anos, na missa daquele dia, a Igreja fazia uma coisa que quase nunca fazia numa festa. Calava o Glória e calava o Aleluia. Era um silêncio de propósito, guardado ano após ano pelas mães de Belém.
Reflexão



