A Fuga para o Egito
Tempos Litúrgicos

A Fuga para o Egito

por Bíblia Sagrada

Idades 7-9
9 min de leitura

Os visitantes que tinham vindo do Oriente já estavam longe. Tinham tomado outro caminho de volta, longe de Jerusalém, e a casa de Belém ficara em silêncio outra vez. Maria dormia perto do menino. José dormia num canto, cansado do dia. A noite era comum, escura e quieta, como todas as noites de inverno naquela pequena cidade.

Foi então que um anjo do Senhor apareceu a José em sonho.

Levanta-te, e toma o menino e sua mãe, e foge para o Egito, e demora-te lá até que eu te diga; porque Herodes há de procurar o menino para o matar.

— Mateus 2:13

José abriu os olhos no escuro. Não havia barulho nenhum na rua, nenhum cavalo, nenhum soldado. Mas ele conhecia aquela voz. Já uma vez, meses antes, um anjo lhe falara em sonho e lhe dissera para não ter medo de receber Maria como esposa, e ele obedecera. Agora a voz dizia outra coisa: vá embora, e vá agora.

Ele acordou Maria com cuidado.

— Precisamos sair esta noite — disse ele. — Deus avisou. Herodes vai procurar o menino.

Maria não discutiu. Não perguntou como fariam, nem quanto tempo ficariam fora, nem de que iriam viver. Levantou-se, enrolou o filho em panos quentes e começou a juntar as poucas coisas que tinham. Um cobertor. Um pouco de pão. O odre de água. As ferramentas de José, porque um carpinteiro sem ferramentas não come em lugar nenhum do mundo.

Antes do primeiro galo, a porta se fechou atrás deles.

Belém ficou para trás no escuro. Eles desceram pelas colinas em direção ao sul, evitando as estradas grandes, onde há gente demais e perguntas demais. Maria ia no jumento, com o menino apoiado no peito. José caminhava ao lado, com uma mão nas rédeas e os olhos no caminho.

Depois de alguns dias, as colinas acabaram e começou a planície da costa. E depois da planície começou o deserto.

O deserto entre Israel e o Egito é largo e duro. É uma terra de pedras cor de areia, de arbustos secos, de poços que às vezes existem e às vezes não. De dia, o sol pesava nas costas. De noite, o frio entrava por baixo do cobertor e ninguém dormia direito. Havia poucos lugares onde parar e beber, e entre um e outro caminhava-se a manhã inteira sem ver mais nada além da linha do horizonte tremendo de calor.

Maria ia cantando baixinho para o menino. Eram cantigas antigas, as mesmas que a mãe dela cantava, e o menino dormia embalado pelo passo do jumento. José olhava para trás de vez em quando. Nunca havia ninguém atrás. Ainda assim, ele olhava.

Era uma estrada muito antiga, aquela. Séculos antes, Jacó e seus filhos tinham descido para o Egito, fugindo da fome. Séculos depois, Moisés tinha tirado o povo de lá e o levado pelo deserto de volta para casa. Agora um carpinteiro, uma moça e um bebê desciam outra vez, sem saber que estavam repetindo a história inteira do seu povo.

Chegaram ao Egito depois de muitos dias de viagem.

O Egito era outro mundo. Tinha um rio enorme e verde cortando a areia, tinha campos de trigo até onde a vista alcançava, tinha templos de pedra com estátuas maiores que casas. As pessoas falavam outra língua. Escreviam com desenhos. Comiam coisas que Maria não conhecia.

Mas havia também, espalhadas por aquelas cidades, comunidades judaicas antigas: famílias que tinham ido morar no Egito havia gerações, que guardavam o sábado e rezavam os mesmos salmos. Foi entre elas que a Sagrada Família encontrou lugar. Alguém emprestou um cômodo. Alguém arrumou trabalho para o carpinteiro. Não era a casa deles, mas dava para viver.

E viveram. Durante anos, Jesus foi crescendo longe da sua terra. Deu os primeiros passos num chão estrangeiro. Aprendeu as primeiras palavras ouvindo duas línguas ao mesmo tempo. Brincou na porta de uma oficina que não ficava em Belém nem em Nazaré, e Maria o chamava para dentro quando o sol começava a cair.

Era uma família de refugiados, como tantas outras. Ninguém no Egito sabia quem era aquele menino.

O tempo passou, e na Judeia o rei Herodes morreu.

Então o anjo do Senhor apareceu outra vez a José em sonho, ali mesmo no Egito.

Levanta-te, e toma o menino e sua mãe, e vai para a terra de Israel; porque já estão mortos os que procuravam a morte do menino.

— Mateus 2:20

José obedeceu do mesmo jeito que tinha obedecido da primeira vez: sem demorar e sem reclamar. Juntaram as coisas, agradeceram aos vizinhos e refizeram o caminho ao contrário, atravessando outra vez o deserto, agora com um menino que já sabia andar e que perguntava por tudo.

O evangelista Mateus, contando essa viagem, lembrou uma palavra antiga do profeta Oseias, escrita muito antes sobre o povo de Israel e que ali se cumpria de um jeito novo:

Do Egito chamei o meu Filho.

— Mateus 2:15

Quando chegaram perto da fronteira, José ouviu as notícias. Quem reinava agora na Judeia era Arquelau, filho de Herodes, um homem tão duro quanto o pai. José ficou com medo de voltar para Belém.

Nessa mesma noite foi avisado em sonho mais uma vez. Em vez de descer para a Judeia, tomou o caminho do norte, para as colinas verdes da Galileia. E foi morar numa cidade pequena, sem importância nenhuma, onde ele e Maria já tinham vivido antes: uma aldeia chamada Nazaré. Assim se cumpriu o que fora dito pelos profetas, que ele seria chamado Nazareno.

Ali Jesus cresceu. Ali aprendeu o ofício de José, o cheiro da madeira, o peso do martelo. Ali passou quase trinta anos, numa casa comum, numa rua comum, e os vizinhos o chamavam simplesmente de o filho do carpinteiro.

A viagem tinha terminado. A família estava em casa.

❤️ ✝️ ❤️

Reflexão

José foi avisado de noite, num sonho, e obedeceu antes de entender. Nem sempre Deus explica o caminho inteiro de uma vez; às vezes Ele pede apenas o próximo passo, e a confiança está em dá-lo.

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