No dia 25 de março de 1347, em Siena, na Itália, nasceu uma menina que os pais chamaram Caterina — Catarina. Ela era a vigésima quarta filha de um casal de tintureiros, numa família enorme, de vinte e cinco filhos. O pai, Jacopo, tingia tecidos, e a mãe, Lapa, ajudava no trabalho. Catarina nasceu gêmea, mas a irmãzinha morreu ainda pequena. Ninguém imaginava que aquela menina mudaria a Igreja e o mundo.

A Visão aos Seis Anos
Quando Catarina tinha apenas seis anos, aconteceu algo extraordinário. Ela caminhava pela rua com um irmão mais velho quando, de repente, parou e ficou olhando para o céu. Ali, viu Jesus Cristo, sentado num trono glorioso, vestido como Papa, acompanhado de São Pedro, São Paulo e São João. Jesus olhou para ela, sorriu e a abençoou.
Catarina ficou parada, extasiada, sem conseguir tirar os olhos daquilo. O irmão a chamava, puxava a sua mão, mas ela não ouvia. Quando a visão finalmente desapareceu, Catarina voltou a si e chorou, porque queria que aquilo nunca acabasse.
— O que você viu? — perguntou o irmão.
— Eu vi Jesus — respondeu ela, simplesmente.
Desde aquele dia, Catarina nunca mais foi a mesma.

O Voto de Virgindade
Aos sete anos, Catarina tomou uma decisão espantosa para uma criança: fez, em segredo, um voto de virgindade.
— Jesus, eu prometo nunca me casar. Quero ser só Sua.
A partir dali, passou a viver de um jeito diferente. Enquanto as outras meninas brincavam de bonecas, Catarina procurava cantinhos escondidos para rezar, jejuava e fazia pequenas penitências, tudo em silêncio.
A Pressão para Casar
Aos doze anos, veio uma tristeza: a irmã Bonaventura, que era casada e gostava de ensinar Catarina a se arrumar e ficar bonita, morreu. Depois disso, a família começou a pressionar. Diziam que ela já tinha idade de casar e que iam arranjar um bom marido — naquela época, as meninas casavam muito cedo. Mas Catarina recusou:
— Eu não vou me casar. Sou prometida a Cristo.
Os pais não aceitaram a recusa. Obrigavam-na a se enfeitar, a pentear os longos cabelos, e procuravam pretendentes. Catarina sofria, mas resistia. Até que tomou uma atitude radical: cortou todo o cabelo. Naquele tempo, o cabelo era o grande símbolo da beleza de uma moça, e sem ele os pretendentes não a quiseram mais.

Os pais ficaram furiosos com aquilo. Como castigo, tiraram o quarto dela e a puseram para trabalhar como criada na própria casa, dizendo que, se não queria casar, então que trabalhasse. Catarina obedeceu com humildade. Trabalhava, servia e continuava rezando, transformando a cozinha em mosteiro e a casa em convento.
— Eu posso fazer uma cela dentro de mim — dizia. — Onde quer que eu esteja, estou com Jesus.
A Visão do Pai
Por fim, Deus mesmo interveio. Um dia, o pai de Catarina viu uma pomba branca, símbolo do Espírito Santo, pousada sobre a cabeça da filha enquanto ela rezava. Ficou tão impressionado que chamou a esposa:
— Lapa, não podemos mais forçá-la. Deus a escolheu.
Devolveram o quarto a Catarina e a deixaram viver como quisesse. Aos quinze anos, ela transformou o próprio quarto numa cela de eremita.
Três Anos de Solidão
Dos quinze aos dezoito anos, Catarina viveu quase sem sair do quarto. Rezava por horas, dormia pouquíssimo, comia quase nada e fazia penitências duras. Por que tanta severidade? Porque ela queria a união total com Cristo e desejava participar dos Seus sofrimentos.

Durante esses três anos, Catarina viveu experiências místicas extraordinárias: visões frequentes de Jesus, de Maria e dos santos, longas conversas em que Jesus a ensinava, tentações terríveis do demônio, que ela vencia com a oração, e provações que a purificavam. Foi como uma escola de santidade, em que Deus a preparava, em silêncio, para uma missão muito grande.
O Casamento Místico
Em 1367, quando Catarina tinha vinte anos, aconteceu o momento mais extraordinário até então. Era terça-feira de Carnaval, o último dia antes da Quaresma, e Siena inteira estava na rua, em festa. Catarina, porém, estava no quarto, rezando. De repente, Jesus apareceu a ela, acompanhado de Nossa Senhora, São João Evangelista, São Paulo e São Domingos.
Jesus olhou para Catarina com um amor imenso e disse:
— Catarina, você me prometeu ser minha esposa. Agora eu venho desposá-la.
Nossa Senhora tomou a mão de Catarina e a colocou na mão de Jesus. E Jesus pôs no dedo dela um anel de ouro com um diamante no centro — um anel que Catarina veria pelo resto da vida, mas que era invisível para todos os outros.
— Eu, seu Criador e Salvador, a desposo na fé — disse Jesus. — Guarde essa fé intacta até vir a Mim no Céu.

Catarina ficou tomada de alegria. Era a esposa mística de Cristo, unida a Ele para sempre. O anel, que só ela via, era um lembrete constante. Nunca mais se sentiu sozinha: Jesus era o seu Esposo, o seu companheiro, o seu tudo.
Saindo do Quarto
Depois do casamento místico, Jesus deu uma ordem a Catarina:
— Agora, saia. Vá servir os seus irmãos.
Catarina ficou confusa e disse que queria ficar ali com Ele para sempre. Jesus explicou:
— Você me serve servindo os outros. Amar a Deus e amar o próximo são coisas inseparáveis. Saia do quarto e vá aos doentes, aos pobres, aos pecadores.
Catarina obedeceu. Saiu do quarto e voltou ao mundo — mas não para viver uma vida comum, e sim para servir. Juntou-se às Mantellate, a terceira ordem dominicana para mulheres leigas: mulheres que viviam no mundo, mas seguiam a regra de São Domingos, vestiam hábito branco e preto e serviam os pobres e os doentes.

Servindo os Doentes
Catarina passou a servir nos hospitais de Siena, escolhendo justamente os casos mais difíceis: os leprosos, os que tinham feridas horríveis, os que estavam morrendo, aqueles de quem ninguém queria cuidar. Lavava as feridas, limpava, alimentava, sem nojo e sem medo, com um amor que espantava a todos. Certa vez, cuidava de uma leprosa muito difícil, uma mulher ingrata, que vivia reclamando e a insultava.
Um dia, a leprosa chegou a cuspir em Catarina. Ela não se irritou: limpou-se com calma e continuou servindo, como se nada tivesse acontecido. A mulher ficou impressionada e perguntou por que Catarina a suportava.
— Porque eu vejo Jesus em você — respondeu ela. — Servir a você é servir a Ele.
A mulher se converteu, pediu perdão e morreu em paz. Era assim: enquanto cuidava dos corpos, Catarina transformava as almas.
Os Discípulos
A fama de santidade de Catarina se espalhou, e as pessoas começaram a procurá-la para pedir orações, conselhos e direção espiritual — padres, nobres e gente simples. Formou-se um grupo ao redor dela, que ficou conhecido como "La Bella Brigata", a Bela Brigada: discípulos, seguidores e amigos espirituais.

Entre eles estava Raimundo de Cápua, um frade dominicano e teólogo sábio, que se tornou confessor e secretário de Catarina e mais tarde escreveu a biografia dela. Como Catarina não tinha aprendido a escrever, ela ditava e Raimundo e outros discípulos escreviam. Foram centenas de cartas, para papas, reis, bispos e pecadores.
A Peste Negra em Siena
Em 1374, a terrível peste negra chegou a Siena. Era uma doença horrível, que matava milhares: as pessoas morriam nas ruas, os hospitais lotavam, e médicos, padres e famílias inteiras fugiam da cidade. Mas Catarina ficou. Ela e os seus discípulos cuidaram dos doentes dia e noite, sem parar e sem medo.
Catarina tomava para si os casos mais graves, aqueles em que ninguém tocava. Lavava, alimentava, confortava. Muitos morreram nos braços dela, mas não morreram sozinhos: ela os preparava com carinho, chamava quem pudesse ouvir as suas confissões e lhes dava esperança, falando baixinho do Céu que os esperava. Dezenas de pessoas que ela acompanhou se converteram antes de partir. Catarina salvava os corpos quando podia — e cuidava sempre das almas.

Os Estigmas Invisíveis
Em 1375, Catarina rezava numa igreja em Pisa quando teve uma visão extraordinária. Jesus crucificado apareceu diante dela, e das Suas cinco chagas — mãos, pés e lado — saíram cinco raios de luz, que atingiram as mãos, os pés e o lado de Catarina. Ela sentiu uma dor imensa, como se estivesse sendo atravessada, e desmaiou.
Quando acordou, não havia ferida nenhuma à vista, mas as dores eram reais e constantes. Eram estigmas invisíveis. Catarina tinha pedido a Jesus que as marcas não aparecessem:
— Senhor, eu não quero que vejam. Quero permanecer escondida.
Jesus atendeu. As dores ficaram com ela, mas as marcas só se tornaram visíveis depois da sua morte.
Reflexão



