Depois de receber os estigmas invisíveis em 1375, Catarina intensificou o seu trabalho. Já não ficava só em Siena: viajava pela Itália, pregando — sim, uma mulher pregando no século XIV, algo revolucionário. Convertia pecadores, fazia as pazes entre famílias inimigas, aconselhava bispos, corrigia padres, orientava reis. E, acima de tudo, teve a coragem de dizer verdades ao próprio Papa.

O Cativeiro de Avignon
Na época de Catarina, a Igreja vivia uma crise profunda: o Papa não estava em Roma. Desde 1309, quando o Papa Clemente V se mudou para Avignon, na França, dizendo que Roma era perigosa demais, os papas tinham ficado por lá. Já se passavam quase setenta anos, e sete papas seguidos haviam governado a Igreja de Avignon, longe do túmulo de São Pedro.
Aquilo causava um escândalo enorme. Roma era a sede de São Pedro, o coração da cristandade, e o Papa deveria estar lá. Muitos diziam que os papas tinham virado prisioneiros dos franceses e que Avignon era luxuosa, mundana e corrompida. A Igreja sofria com divisões e confusão. E foi então que Catarina — uma mulher leiga, de vinte e oito anos — decidiu fazer alguma coisa.
As Cartas ao Papa
Catarina começou a escrever cartas ao Papa Gregório XI. Cartas ousadas, diretas, sem rodeios. Pedia que ele voltasse a Roma, que era o seu lugar; que deixasse o luxo de Avignon e voltasse à simplicidade; que fosse corajoso, fizesse reformas, corrigisse os abusos e purificasse a Igreja.

Imagine: uma mulher leiga, sem estudos, escrevendo daquele jeito ao Papa. Muita gente ficou chocada e perguntava quem ela pensava que era. Mas Catarina não se importava, porque não buscava glória para si: buscava a glória de Deus e o bem da Igreja.
— Se eu me calo por medo, traio a verdade — dizia. — Falo porque Deus me manda falar.
O Encontro com o Papa
Em 1376, aconteceu algo extraordinário: o Papa Gregório XI chamou Catarina a Avignon, porque queria conhecê-la pessoalmente. Ela viajou com vários discípulos — era a primeira vez que saía da Itália — e chegou ao luxuoso palácio papal.
O encontro impressionou a todos. De um lado, Catarina, mulher simples, dominicana leiga; do outro, o líder da cristandade, cercado de cardeais e nobres. Catarina não se intimidou. Ajoelhou-se, beijou os pés do Papa — e depois o olhou nos olhos e disse verdades que ninguém mais ousava dizer.
— Santo Padre, Deus me revelou que o senhor fez um voto secreto de voltar a Roma — disse ela. — Cumpra o seu voto. Volte. A Igreja precisa. Não tenha medo dos perigos, porque Deus o protegerá.
Era verdade: o Papa tinha feito esse voto e nunca o contara a ninguém. Ele ficou profundamente impressionado. Como Catarina poderia saber, senão por revelação de Deus?

O Papa Volta a Roma
Depois de meses de oração e da insistência de Catarina, o Papa se decidiu. No dia 13 de setembro de 1376, deixou Avignon e embarcou para Roma. Todos ficaram atônitos, e os cardeais franceses protestaram, dizendo que era perigoso demais. Mas o Papa estava firme: Catarina tinha razão, e Deus o chamava de volta.
Em 17 de janeiro de 1377, depois de quase setenta anos, o Papa entrou em Roma. As multidões celebraram, os sinos tocaram, a cidade inteira fez festa. E todos sabiam que Catarina tinha sido o instrumento fundamental daquilo: uma leiga de vinte e nove anos conseguira o que cardeais e reis não tinham conseguido.
O Grande Cisma
Em 1378, o Papa Gregório XI morreu, e os cardeais elegeram um novo Papa, Urbano VI. Mas então surgiu um problema terrível: os cardeais franceses não o aceitaram e elegeram outro papa em Avignon, Clemente VII. Agora havia dois homens se dizendo Papa, um em Roma e um em Avignon. Foi o Grande Cisma do Ocidente, uma divisão que partiu a Europa ao meio e mergulhou a Igreja na confusão.
Catarina sofreu imensamente com aquilo e trabalhou sem descanso pela unidade: escreveu cartas, viajou, aconselhou, rezou. Defendeu Urbano VI, o Papa de Roma, como o legítimo, mas não deixou de corrigir também os erros dele.
— Santo Padre, o senhor é o Papa verdadeiro — dizia. — Mas a sua dureza afasta as pessoas. Seja firme, e seja também caridoso.

"O Diálogo"
Foi nesse período turbulento que Catarina compôs a sua obra extraordinária: "O Diálogo", também chamado "Livro da Divina Providência". É uma longa conversa entre ela e Deus Pai, que Catarina ditava em êxtase enquanto os secretários escreviam.
"O Diálogo" é uma obra-prima da teologia mística. Fala da providência de Deus, do discernimento, da obediência e da oração, e traz a famosa imagem de Cristo como a ponte que liga a terra ao Céu. É um livro profundo, belo e inspirado, que se tornou um clássico da espiritualidade cristã e é estudado até hoje.
As Palavras de Catarina
Catarina deixou frases que atravessaram os séculos. A mais famosa é: "Seja quem Deus quis que você fosse, e você ateará fogo ao mundo." Ela dizia também que nada de grande se faz sem muito sofrimento, que não podemos ter amor a Deus sem amor ao próximo, e resumia a sua humildade numa frase misteriosa e linda, dita a Deus: "Eu sou aquela que não é; Tu és Aquele que é."
Os Últimos Meses em Roma
Em novembro de 1379, a pedido do Papa Urbano VI, Catarina mudou-se para Roma, para trabalhar pela unidade da Igreja. Mas estava exausta. Os anos de jejuns, viagens, trabalho e sofrimento tinham consumido o seu corpo. Mesmo assim, continuava rezando, escrevendo e servindo.

Em janeiro de 1380, enquanto rezava na Basílica de São Pedro, Catarina sentiu de repente um peso enorme, como se a igreja inteira desabasse sobre os seus ombros. Era uma visão mística: ela carregava sobre si o peso da Igreja. Desmaiou, foi levada para casa e ficou parcialmente paralisada, sem conseguir mais andar.
Nos últimos meses, Catarina sofreu muito. Sentia dores fortes e já não conseguia comer, apenas beber água. Mas não se queixava. Oferecia tudo, dizendo que queria sofrer pela Igreja, pelos pecadores e pelo Papa.
— Dou a minha vida — dizia. — Se a minha morte trouxer paz à Igreja, eu aceito.
A Morte
No dia 29 de abril de 1380, Catarina chegou ao fim. Tinha apenas trinta e três anos, a mesma idade de Jesus. Estava cercada pelos discípulos e amigos espirituais. Pediu perdão pelas suas faltas, abençoou a todos e deu os últimos conselhos, com a voz já fraquinha.

Suas últimas palavras foram as mesmas de Jesus na cruz:
— Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito.
E repetia ainda, baixinho, "Sangue... Sangue...", pensando no Sangue de Cristo que salva. Ao meio-dia, a mesma hora em que Jesus agonizava, Catarina morreu em paz. Viveu pouco tempo, mas viveu intensamente cada dia.
Depois da morte, aconteceu algo extraordinário: os estigmas, invisíveis em vida, tornaram-se visíveis. Todos puderam ver as marcas nas mãos, nos pés e no lado. E o corpo não se decompôs: permaneceu incorrupto, exalando um perfume suave.
O Funeral
O funeral foi enorme, e Roma inteira chorou a santa que chamava de mãe. Mas, no meio das lágrimas, havia também gratidão, porque todos sabiam que ganhavam uma intercessora poderosa no Céu. O corpo de Catarina foi sepultado em Roma e depois trasladado para a Igreja de Santa Maria sopra Minerva, onde permanece até hoje, num relicário belíssimo.
Canonização
Em 1461, oitenta e um anos depois da sua morte, o Papa Pio II canonizou Catarina. Siena e Roma festejaram juntas: a leiga que mudou a Igreja era agora, oficialmente, Santa Catarina de Siena.

Padroeira da Itália
Em 1939, o Papa Pio XII declarou Santa Catarina Padroeira da Itália, ao lado de São Francisco de Assis. Era um reconhecimento muito bonito: aquela que tanto trabalhara pela paz na Itália tornava-se a padroeira da nação.
Doutora da Igreja
Em 4 de outubro de 1970, o Papa Paulo VI declarou Santa Catarina Doutora da Igreja — uma das primeiras mulheres da história a receber esse título, junto com Santa Teresa de Ávila, proclamada no mesmo ano. Doutora da Igreja quer dizer que os seus ensinamentos são tão preciosos que a Igreja inteira deve estudá-los.
Era um reconhecimento incrível. Catarina, mulher leiga e sem estudos, tornava-se mestra da Igreja universal. A vida dela prova que Deus não olha títulos, olha corações: não importam o gênero, a educação ou a posição, importa a disponibilidade para Deus.
O Legado e Siena Hoje
Santa Catarina deixou um legado imenso: a ousadia santa de quem corrige por amor, a união mística com Deus, "O Diálogo" e centenas de cartas, o serviço aos leprosos e moribundos, e a façanha histórica de trazer o Papa de volta a Roma. Hoje, Siena honra a sua filha mais famosa: a casa onde Catarina nasceu virou santuário, o quarto onde teve as visões virou capela, e milhares de pessoas os visitam todos os anos. Pelo mundo inteiro, igrejas, escolas e hospitais levam o seu nome.

Os ensinamentos de Catarina continuam atuais: a Igreja precisa sempre se renovar, os líderes devem ser santos, os leigos e as mulheres têm um papel fundamental, corrigir com amor é dever de quem ama, e servir os pobres é servir o próprio Cristo.
E a frase mais famosa dela resume tudo: "Seja quem Deus quis que você fosse, e você ateará fogo ao mundo." Catarina foi exatamente quem Deus quis. Não chegou a ser freira, foi leiga; não estudou, mas foi sábia; não era rica nem poderosa, mas mudou Roma, a Igreja e o mundo — porque disse a Deus um sim inteiro.
Reflexão



