Depois de anos pregando por toda a Itália, Frei Antônio chegou em 1227 à cidade de Pádua. Era uma cidade importante e rica, mas espiritualmente doente: havia muito pecado, muita injustiça, muita gente enganada por heresias. Frei Antônio olhou para tudo aquilo e entendeu que ali havia muito trabalho a fazer. O que ele não sabia é que passaria em Pádua os seus últimos anos — e que seria lembrado para sempre como Santo Antônio de Pádua.

As Pregações em Pádua
Em Pádua, Frei Antônio pregava todos os dias, em praças, ruas e igrejas. Levantava-se de madrugada e passava o dia pregando, confessando e ensinando, comendo pouco e dormindo menos ainda. Vivia inteiro para as almas. As multidões cresciam sem parar — às vezes juntavam-se dezenas de milhares de pessoas, e era preciso pregar ao ar livre, porque igreja nenhuma dava conta de tanta gente.
Suas pregações eram como fogo do Espírito Santo. Ele apontava o pecado, chamava à conversão e explicava a Bíblia de um jeito que todos entendiam. Pecadores choravam e mudavam de vida. Homens que emprestavam dinheiro com juros cruéis devolviam o que haviam tomado dos pobres. Famílias inimigas faziam as pazes. Pouco a pouco, Pádua inteira ia se transformando.
Frei Antônio tinha um dom especial para defender a Eucaristia. Pregava que Jesus está realmente presente na Hóstia — Corpo, Sangue, Alma e Divindade — e que a Hóstia consagrada não é um símbolo nem uma simples lembrança: é Jesus mesmo. Isso era importantíssimo, porque os hereges daquele tempo diziam que era apenas pão. Frei Antônio os respondia com sabedoria e, quando Deus queria, com milagres.

O Milagre da Mula
Certo dia, um herege chamado Bonvillo desafiou Frei Antônio. Se a Hóstia era mesmo Jesus, que ele provasse. O plano do herege era este: deixaria a sua mula três dias sem comer e depois colocaria comida diante dela; Frei Antônio traria a Hóstia consagrada, e todos veriam o que a mula escolheria. Se o animal faminto deixasse a comida para reverenciar a Hóstia, Bonvillo prometia acreditar. Frei Antônio aceitou o desafio.
No dia marcado, uma multidão enorme se reuniu na praça, todos querendo ver o que ia acontecer. Bonvillo trouxe a mula, faminta depois de três dias sem comer, e colocou diante dela uma comida cheirosa e apetitosa. O pobre animal estava desesperado de fome. Então Frei Antônio chegou, trazendo com todo o cuidado a Sagrada Hóstia nas mãos.
Frei Antônio elevou a Hóstia e falou à mula:
— Em nome do Criador que eu, indigno, seguro em minhas mãos, eu ordeno a você: venha e preste a reverência devida.
E então aconteceu o milagre. A mula, apesar da fome, ignorou completamente a comida. Caminhou direto até Frei Antônio, dobrou as patas dianteiras e ajoelhou-se diante da Hóstia, baixando a cabeça em reverência.
A multidão explodiu em gritos:
— Milagre! Até a mula reconhece Jesus na Eucaristia!
Bonvillo caiu de joelhos, pedindo perdão, e declarou diante de todos que acreditava: Jesus estava realmente presente. Converteu-se naquele momento, e muitos outros hereges com ele. O milagre da mula tornou-se um dos mais famosos de Santo Antônio.

A Visão do Menino Jesus
Numa das suas viagens, Frei Antônio ficou hospedado na casa de um homem chamado Tiso, num quartinho pequeno no andar de cima. Ali ele rezava por horas, estudava e preparava as pregações. Uma noite, Tiso ouviu vozes vindas do quarto do frade e estranhou: com quem ele estaria conversando àquela hora? Cheio de curiosidade, espiou pela fresta da porta.
E viu algo extraordinário. Frei Antônio estava com um Menino lindíssimo nos braços, um Menino que brilhava e enchia o quarto de luz. Frei Antônio o abraçava, o beijava e conversava com Ele, com o rosto radiante de alegria. Era o Menino Jesus, que tinha vindo visitá-lo.
Tiso caiu de joelhos, sem conseguir dizer palavra. Quando a visão desapareceu, correu até Frei Antônio querendo entender o que tinha visto. O frade, humilde como sempre, fez-lhe um único pedido: que não contasse nada a ninguém enquanto ele vivesse. Tiso prometeu, e só revelou o segredo depois da morte do santo. É por isso que, até hoje, Santo Antônio é representado segurando o Menino Jesus nos braços.

Os Milagres Extraordinários
Durante a vida, Frei Antônio operou muitos e muitos milagres, e alguns ficaram famosos. Contam que, no funeral de um homem avarento, ele afirmou que o coração do morto não estava no peito, mas no cofre, junto do dinheiro que ele tanto amara — e, quando abriram o cofre, lá estava o coração. Contam também que um jovem, arrependido de ter chutado a própria mãe, cortou a perna em desespero; Frei Antônio rezou, recolocou a perna no lugar, e ela ficou perfeita. Houve ainda o caso de uma mulher que levou escondida uma Hóstia num vidro: o vidro se partiu, e a Hóstia permaneceu intacta. E o sermão aos peixes, esse já contamos na primeira parte.
O Dom da Bilocação
Santo Antônio recebeu de Deus até o dom raríssimo da bilocação: aparecer em dois lugares ao mesmo tempo. Certa vez, estava pregando numa igreja de Pádua quando lembrou que precisava estar, naquele mesmo instante, no coro do convento para cantar um ofício. E as pessoas testemunharam que ele apareceu no coro, cantou a sua parte e, ao mesmo tempo, continuava pregando na igreja. Deus fazia maravilhas através do seu servo.
A Saúde Piorada
Tanto trabalho, porém, foi esgotando Frei Antônio. Ele pregava demais, jejuava demais, dormia de menos. Veio a doença chamada hidropisia, que inchava o corpo e dificultava a respiração, e com ela as dores e a fraqueza. Mesmo assim, ele não parava: continuava pregando, confessando e servindo, dizendo que, enquanto tivesse fôlego, haveria de pregar.
13 de Junho de 1231: A Morte
Em junho de 1231, Frei Antônio estava muito doente e sentiu que ia morrer. Pediu para ser levado ao convento das Irmãs Clarissas em Arcela, perto de Pádua, e ali, num quartinho simples, preparou-se com calma para o encontro com Deus. Confessou-se, recebeu a Eucaristia, cantou hinos e rezou.

Na tarde de 13 de junho, os frades rezavam ao redor da cama de Frei Antônio. De repente, ele ergueu os olhos, e seu rosto se iluminou.
— Vejo o meu Senhor — murmurou.
E, cantando um hino a Nossa Senhora, o "Ó Gloriosa Domina", Frei Antônio morreu em paz. Tinha apenas trinta e seis anos. Viveu pouco tempo, mas encheu esse pouco tempo de muito amor.
Conta-se que, naquele exato momento, as crianças de Pádua, sem que ninguém lhes dissesse nada, começaram a correr pelas ruas gritando:
— O santo morreu! O santo morreu!
E dizem que os sinos das igrejas tocaram sozinhos, como se o céu mesmo anunciasse que o servo de Deus tinha chegado à casa do Pai.
O Funeral
O funeral foi imenso. Pádua inteira chorava: ricos e pobres, nobres e gente simples, adultos e crianças, todos sentiam que haviam perdido um pai e um protetor. O corpo foi levado em procissão solene, acompanhado por milhares de pessoas, e durante o funeral aconteceram vários milagres: doentes foram curados e aflitos encontraram a paz.
30 de Maio de 1232: Canonização Recorde
Menos de um ano depois da morte, aconteceu algo extraordinário: o Papa Gregório IX canonizou Frei Antônio. Foi a canonização mais rápida da história até então — normalmente esses processos levavam décadas ou séculos. Mas os milagres eram tantos, e a santidade tão clara, que o Papa não teve dúvida. Frei Antônio era agora Santo Antônio de Pádua.

A Língua Incorrupta
Em 1263, trinta e dois anos após a morte, decidiram trasladar — quer dizer, mudar de lugar — os restos de Santo Antônio. Quando abriram o túmulo, o corpo já tinha se desfeito, como é natural. Mas houve uma surpresa que deixou todos maravilhados: a língua do santo estava perfeitamente conservada, vermelha e macia, como se ainda estivesse viva.
São Boaventura, o grande santo franciscano que estava presente, tomou a língua nas mãos e exclamou, comovido:
— Ó língua bendita, que sempre louvou o Senhor e ensinou os outros a louvá-lo! Agora se vê o quanto você foi preciosa diante de Deus.
A língua que pregara tão maravilhosamente foi preservada por Deus, e até hoje pode ser vista na Basílica de Santo Antônio, em Pádua, onde milhões de peregrinos a veneram.
Santo Antônio e as Coisas Perdidas
Você sabe por que pedimos a Santo Antônio quando perdemos alguma coisa? A história mais famosa é a do livro de salmos. Um noviço fugiu do convento levando o livro de orações de Santo Antônio — e, naquele tempo, os livros eram raríssimos, copiados à mão, um verdadeiro tesouro. Santo Antônio rezou pedindo que o livro voltasse. O noviço, tomado de arrependimento e de um grande susto na consciência, devolveu o livro e ainda voltou para o convento. Desde então, Santo Antônio é invocado para encontrar o que se perdeu.

Mas o significado é mais profundo do que parece. Santo Antônio não ajuda apenas a achar objetos perdidos: ele intercede pelas almas perdidas — pessoas perdidas no pecado, na dúvida, no desânimo. Ele as ajuda a se reencontrarem e a voltarem para Deus. É por isso que essa devoção é tão bonita.
Doutor da Igreja
Em 1946, o Papa Pio XII declarou Santo Antônio Doutor da Igreja, com o título de Doutor Evangélico. É que os sermões e ensinamentos dele explicam o Evangelho com uma clareza rara, unindo a sabedoria dos grandes teólogos com a simplicidade de quem fala ao coração do povo.
A Basílica de Pádua
Em Pádua, o povo construiu uma basílica magnífica dedicada a Santo Antônio, uma das igrejas mais bonitas do mundo. Lá estão o túmulo do santo, a língua incorrupta e outras relíquias, guardadas em capelas belíssimas. Cerca de cinco milhões de peregrinos visitam a basílica todos os anos, o que faz dela um dos santuários mais procurados do mundo inteiro.
Santo Antônio Hoje
Hoje, Santo Antônio é um dos santos mais populares e amados do mundo, com um carinho especial no Brasil e em Portugal. Milhões de pessoas rezam a Trezena — treze dias de oração antes da festa de 13 de junho — e pedem a sua intercessão para encontrar coisas perdidas, para conseguir um bom casamento, pela conversão dos pecadores e por tantas outras necessidades da vida.

O Pãozinho de Santo Antônio
Há também uma tradição muito bonita: o Pãozinho de Santo Antônio. Em agradecimento pelas graças recebidas, as pessoas doam pães para serem distribuídos aos pobres. A tradição nasceu porque Santo Antônio amava os pobres e sempre repartia comida com os necessitados. Hoje, milhões de pães são distribuídos todos os anos em nome dele.
As Terças-feiras de Santo Antônio
A terça-feira é o dia dedicado a Santo Antônio, e muitas igrejas celebram nesse dia uma Missa especial em sua honra, com bênçãos e novenas. A tradição vem de longe: foi numa terça-feira que Santo Antônio foi sepultado, e naquele dia aconteceram tantos milagres que o povo nunca mais esqueceu.
O Legado de Santo Antônio
O que fica da vida de Santo Antônio? Fica o exemplo de um gênio que permaneceu simples, de um pregador que converteu milhares de pessoas com a palavra e com o amor. Fica a sua defesa apaixonada de Jesus presente na Eucaristia, o seu zelo pelas almas, os milagres que Deus operou por suas mãos. Ele morreu jovem, aos trinta e seis anos, mas o seu legado atravessou quase oitocentos anos e continua vivo em todos os continentes.
Reflexão



