O Brasil de Quatrocentos Anos Atrás
Para conhecer esta história, precisamos viajar muito longe no tempo, até o Brasil de quase quatrocentos anos atrás. Naquela época não havia cidades grandes como as de hoje. No litoral do Nordeste ficavam os engenhos, fazendas enormes onde se plantava cana e se fazia açúcar, e ao redor deles viviam famílias de colonos portugueses e muitos povos indígenas. Em quase todo engenho havia uma capela, e era ali que a vida acontecia: os batizados, os casamentos, a missa de domingo.
Mas aqueles também eram tempos de guerra. Em 1630, soldados vindos da Holanda invadiram Pernambuco e, pouco a pouco, tomaram boa parte do Nordeste, incluindo as terras do Rio Grande, onde hoje fica o estado do Rio Grande do Norte. Os holandeses seguiam outra religião e não gostavam da fé católica. Com o passar dos anos, a vida dos católicos naquelas terras foi ficando cada vez mais difícil e perigosa.
Padre André
Muito antes disso, por volta de 1572, tinha nascido em São Vicente, no litoral de São Paulo, um menino chamado André de Soveral. Quando cresceu, André decidiu dar a vida a Deus: aos vinte e um anos entrou para os padres jesuítas, estudou latim e teologia e aprendeu também a língua dos índios potiguares, para poder conversar com eles e anunciar-lhes o Evangelho.
Depois de anos como missionário, André se tornou padre do povo de Cunhaú, um vale de engenhos no sul do Rio Grande, onde chegou por volta de 1614. Ali ele passou décadas fazendo o que um bom pastor faz: batizava as crianças, visitava os doentes, ensinava o catecismo, celebrava a missa. Era já um homem de cabelos grisalhos, conhecido e querido por todos, quando os dias mais escuros chegaram.
O Aviso na Porta da Capela
Em julho de 1645, apareceu em Cunhaú um homem chamado Jacob Rabe, um soldado alemão que trabalhava para os holandeses. Ele dizia trazer ordens importantes do governo holandês de Recife e mandou pregar um aviso na porta da capela: no domingo, depois da missa, todos os moradores deviam ficar reunidos para ouvir as tais ordens.
No domingo, dia 16 de julho, o povo do vale veio para a missa como sempre vinha: famílias inteiras, de mãos vazias, sem nenhuma arma. Quem trazia um cajado de caminhada deixava-o do lado de fora, na entrada da capela de Nossa Senhora das Candeias. Lá dentro, o Padre André de Soveral começou a celebrar a missa diante de cerca de setenta fiéis.
Foi então que Jacob Rabe mostrou sua verdadeira intenção. A um sinal seu, as portas da capela foram fechadas, e os soldados e guerreiros que ele trouxera atacaram o povo indefeso.
O Domingo de Cunhaú
O Padre André entendeu, num instante, que ninguém sairia dali com vida. Ele não gritou nem correu. Com a voz firme de quem passou a vida inteira confiando em Deus, voltou-se para o seu povo e o convidou a rezar, pedindo perdão dos pecados e entregando tudo nas mãos do Senhor.
— Meus filhos, peçamos perdão a Deus — disse ele. — Estamos indo ao encontro do Pai.
E assim, rezando, o velho padre morreu junto com o seu povo, naquela manhã de domingo. Entre os fiéis estava um lavrador chamado Domingos de Carvalho, que também permaneceu firme na fé até o fim. A capela de Cunhaú, que tinha visto tantos batizados e casamentos, tornou-se naquele dia a porta do céu para dezenas de mártires.
O Pastor de Natal
A notícia do que acontecera em Cunhaú correu pelo Rio Grande e encheu todos de medo. Perto de Natal vivia outro sacerdote, o Padre Ambrósio Francisco Ferro, um português que era o pároco daquela gente. Ele sabia do perigo que corria, pois os padres eram os mais visados de todos. Podia ter fugido para bem longe, mas escolheu ficar: um pastor não abandona o rebanho na hora do lobo.
Meses depois, os moradores da região foram capturados por Jacob Rabe, que agora vinha acompanhado de soldados e de guerreiros comandados por um chefe chamado Antônio Paraopaba. No dia 3 de outubro de 1645, à beira do rio, num lugar chamado Uruaçu, o Padre Ambrósio e dezenas de fiéis foram mortos por causa da fé que não quiseram abandonar. Havia entre eles homens, mulheres e até crianças, gente simples cujos nomes quase todos se perderam, mas que Deus conhece um por um.
Louvado Seja o Santíssimo Sacramento
Entre os mártires de Uruaçu estava um jovem chamado Mateus Moreira. Ele não era padre nem homem importante: era um leigo, um cristão comum, como tantos que se sentam nos bancos da igreja. Ferido de morte, quando já lhe restava um último fio de vida, Mateus reuniu as forças que tinha e disse bem alto as palavras que os católicos daquele tempo usavam para saudar Jesus na Eucaristia:
— Louvado seja o Santíssimo Sacramento!
Foram suas últimas palavras. Mateus morreu louvando a Jesus escondido no pão consagrado, o mesmo Jesus que ele tinha recebido tantas vezes na comunhão. Por isso, até hoje, quando essa frase é dita nas igrejas do Brasil, ela guarda um eco daquele dia: é a voz de um mártir que amou a Eucaristia mais do que a própria vida.
Os Primeiros Santos do Brasil
Os anos passaram, os holandeses acabaram expulsos do Brasil, e o povo do Rio Grande do Norte nunca esqueceu seus mártires. De geração em geração, avós contaram aos netos a história do domingo de Cunhaú e da tarde de Uruaçu. A Igreja estudou tudo com muito cuidado, durante séculos, para ter certeza de que aquelas pessoas tinham morrido de verdade por causa da fé.
No dia 5 de março do ano 2000, em Roma, o Papa João Paulo II declarou beatos o Padre André de Soveral, o Padre Ambrósio Francisco Ferro, o leigo Mateus Moreira e seus vinte e sete companheiros. E no dia 15 de outubro de 2017, na Praça de São Pedro, diante de uma multidão que agitava bandeiras do Brasil, o Papa Francisco os declarou santos. São os protomártires do Brasil, ou seja, os primeiros mártires da nossa terra, e sua festa é celebrada todo dia 3 de outubro.
Moral da História



