À medida que Felipe envelhecia, algo extraordinário acontecia. Por fora, ele continuava alegre e brincalhão. Por dentro, Deus operava milagres através dele. Felipe tentava esconder esses dons, porque não queria atenção nenhuma — mas era impossível esconder tudo. As pessoas viam, e se maravilhavam.

Os Êxtases na Missa
Quando Felipe celebrava a Missa, coisas extraordinárias aconteciam. Muitas vezes ele entrava em êxtase — é quando a alma fica tão unida a Deus que o corpo quase para. Felipe ficava imóvel, absorto, com o rosto radiante. E às vezes, contam as testemunhas, ele levitava, flutuando acima do chão. Os fiéis que viam ficavam atônitos.
Por causa disso, Felipe passou a celebrar a Missa sozinho, bem cedinho, para não causar comoção. Mesmo assim as pessoas descobriam e vinham assistir. Um dia, tentaram deixá-lo escondido numa capela particular — e, durante a Missa, ele levitou tão alto que bateu a cabeça no teto. Quando voltou a si, com um galo na testa, Felipe riu:
— Bem feito! Isso vai me ensinar humildade.

O Calor no Peito
Vocês lembram do coração de Felipe, que se expandiu no dia de Pentecostes? Aquele calor o acompanhou pela vida inteira. Quando rezava com intensidade, o peito ficava tão quente que ele abria a camisa mesmo no inverno, pedia água fria, e às vezes escancarava a janela enquanto nevava lá fora. As pessoas próximas sentiam o calor que vinha dele, como se houvesse um forno dentro do seu peito. Mas era o fogo do amor de Deus.
Lendo Corações
Felipe tinha o dom de ler os corações: sabia o que as pessoas pensavam e sentiam. Muitas vezes, antes mesmo de alguém falar, ele já conhecia o problema.
— Você veio confessar aquele pecado, não é? — dizia.
A pessoa ficava espantada, sem entender como ele sabia. Felipe sorria:
— Jesus me contou. Ele ama você e quer perdoar.
Certa vez, um jovem foi se confessar escondendo um pecado grave. Confessou os pequenos, mas guardou o grande. Felipe olhou para ele e perguntou baixinho:
— E aquele outro? Você não vai me contar?
O jovem ficou pálido. Como ele sabia? Felipe explicou que Deus lhe tinha mostrado, porque o amava demais para deixá-lo esconder aquilo. O jovem confessou tudo, chorou, e saiu transformado.

Profecias e Milagres
Felipe também anunciava coisas que ainda iam acontecer. Dizia a alguém que um acontecimento importante viria em tal dia — e vinha. Certa vez, disse a um cardeal que ele seria Papa. O cardeal riu, achando impossível, porque era jovem demais. Anos depois, tornou-se o Papa Clemente VIII.
Felipe também rezava pelos doentes, sem nenhum alarde, e muitos eram curados de maneira que os médicos não sabiam explicar. Conta-se até que devolveu à vida, por alguns instantes, um jovem que tinha acabado de morrer: o rapaz abriu os olhos, conversou com Felipe, fez as pazes com Deus e então partiu em paz. Felipe nunca aceitava os agradecimentos.
— Foi Jesus — dizia. — Não fui eu.

A Congregação do Oratório
O Oratório crescia cada vez mais, com tantos jovens e padres envolvidos que foi preciso dar uma estrutura àquilo tudo. Em 1575, o Papa Gregório XIII aprovou oficialmente a Congregação do Oratório. Era uma comunidade nova e diferente: os oratorianos não faziam votos solenes como as outras ordens, não tinham regra rígida, e viviam juntos em comunidade, mas com liberdade.
Felipe queria que a Congregação fosse mesmo diferente. "Somos família, não exército", dizia. Cada casa do Oratório era independente, sem um superior geral. E o espírito era o dele: os padres oratorianos deviam ser alegres e acessíveis, bons pregadores, amigos da música, dedicados aos jovens, humildes e simples.
Igreja Nova
O Oratório precisava de uma igreja maior, e Felipe começou a construção da Chiesa Nuova, a Igreja Nova, em Roma. Foi um projeto enorme, que levou anos. Felipe acompanhava tudo — com humor, claro. Um dia, viu um operário fazendo algo errado e comentou:
— Meu amigo, até eu, que não sou pedreiro, sei que isso vai cair.
O homem riu e consertou.

A Chiesa Nuova foi decorada por artistas famosos, com pinturas lindíssimas e arquitetura magnífica. Mas Felipe continuou no seu quartinho simples. A igreja podia ser rica, para a glória de Deus; ele preferia viver pobre.
— Deus merece o melhor — dizia. — Eu mereço o mínimo.
Amizades Santas
Felipe tinha amigos extraordinários. Entre eles, São Carlos Borromeu, o grande reformador, que o visitava com frequência; Santo Inácio de Loyola, o fundador dos jesuítas, de quem Felipe quase se tornou companheiro; e São Félix de Cantalice, um capuchinho alegre como ele. Conhecia cardeais e nobres, mas seus amigos mais queridos eram os pobres. Felipe tratava todos do mesmo jeito, príncipes e mendigos.

Os Últimos Anos
Nos últimos anos, Felipe ficou fisicamente fraco. Já passava dos setenta e não podia mais andar muito, mas continuava alegre. Sentava-se em sua cadeira e recebia visitantes o dia inteiro: conversava, aconselhava, ouvia confissões. E continuava fazendo piadas, sem nunca perder o humor.
— Estou velho, mas não chato — dizia, rindo.
25 de Maio de 1595: A Morte
No dia 25 de maio de 1595, Felipe passou o dia bem. Celebrou a Missa, ouviu confissões, conversou com os amigos. À noite, jantou alegremente com seus filhos espirituais e foi para o quarto descansar. Mas, perto da meia-noite, começou a passar mal. Os padres vieram correndo, e Felipe compreendeu, com serenidade, que a sua hora tinha chegado.
Felipe abençoou os padres reunidos ao seu redor. Todos choravam e pediam que ele não os deixasse. Mas ele sorria, com o rosto em paz.
— Não chorem. Estou indo para casa. Para Jesus.
Levantou as mãos para o céu, devagar. E, na madrugada, Felipe morreu em paz, aos setenta e nove anos. Morreu como viveu: com alegria e serenidade.

Logo depois da morte, contam os que estavam presentes, uma luz suave parecia envolver o corpo de Felipe, e o quarto se encheu de um perfume que ninguém sabia de onde vinha. Para todos ali, era um sinal delicado de que Felipe estava com Deus.
O Funeral
A notícia se espalhou depressa, e Roma inteira foi ao funeral: cardeais e nobres, mas principalmente os pobres e os jovens, que choravam pelo pai e amigo que tinham perdido. E, no meio das lágrimas, havia também um consolo que todos repetiam: agora temos um santo no céu. O corpo ficou exposto, e milhares de pessoas vieram se despedir.

Canonização e Legado
Em 1622, apenas vinte e sete anos após sua morte, Felipe foi canonizado — no mesmo dia que Santo Inácio de Loyola, Santa Teresa de Ávila e São Francisco Xavier. Mais tarde, São Felipe Neri foi declarado padroeiro de Roma, ao lado de São Pedro e São Paulo. Uma honra e tanto para o padre brincalhão das ruas.
O Legado de São Felipe Neri
São Felipe deixou um legado precioso. Ensinou a evangelizar pela alegria e mostrou que a santidade não é carrancuda. Renovou a música sacra, dedicou a vida aos jovens e transformou Roma espiritualmente, uma conversa de cada vez. Escondeu seus dons para permanecer humilde e provou que a santidade está ao alcance de todos.
Hoje, São Felipe Neri é amado no mundo inteiro. Sua festa, no dia 26 de maio, é celebrada com alegria, a Congregação do Oratório continua o seu trabalho, e o seu espírito segue vivo: alegria, música, caridade, juventude. Como ele mesmo dizia, com aquele sorriso: "Sejam bons, se puderem."
Reflexão



