Por volta do ano 540, nasceu em Roma um menino chamado Gregório. Sua família era uma das mais ricas e importantes da cidade: a casa deles ficava no alto do monte Célio, com salões enormes, jardins e criados. Mas não era uma família rica só de moedas. A mãe de Gregório, Sílvia, era uma mulher de muita oração, e várias pessoas daquela casa se tornariam santas.
Gregório cresceu, estudou muito e se tornou um homem importante. Por volta dos trinta anos, já era prefeito de Roma, o cargo mais alto da cidade, responsável por cuidar de tudo e de todos. Eram tempos difíceis: guerras, enchentes do rio Tibre e falta de comida. Gregório trabalhava bem, e todos diziam que ele teria um futuro brilhante.
Mas, no silêncio do coração, Gregório sentia que Deus o chamava para outra vida. Um dia, ele tomou uma decisão que espantou Roma inteira: deixou o cargo de prefeito, vendeu o que tinha para ajudar os pobres e transformou a própria casa no monte Célio num mosteiro, dedicado a Santo André. O jovem mais poderoso da cidade vestiu o hábito simples de monge e passou a viver de oração, estudo e trabalho. Mais tarde, ele diria que aqueles foram os anos mais felizes da sua vida.
Certo dia, conta uma tradição muito antiga, Gregório passeava pelo mercado de Roma quando viu algo que lhe partiu o coração: meninos sendo vendidos como escravos. Eles tinham a pele muito clara, os cabelos louros e olhos tristes. Gregório nunca tinha visto gente daquela terra.
— De onde vêm esses meninos? — perguntou ele.
— São anglos, vindos da ilha da Britânia — responderam.
Gregório olhou de novo para aqueles rostos e disse, pensativo:
— Não são anglos, são anjos. Rostos assim deviam conhecer o Deus do céu.
Naquele momento, nasceu no coração dele um sonho: levar a fé de Jesus até a terra distante daqueles meninos, onde quase ninguém tinha ouvido falar do Evangelho. Ele mesmo quis partir como missionário, mas o povo de Roma não deixou; gostavam demais dele para vê-lo partir. O sonho, porém, ficou guardado, esperando a hora certa.
O papa percebeu o valor daquele monge sábio e o enviou como seu representante a Constantinopla, a capital do império no Oriente. Gregório serviu bem e depois voltou para o seu querido mosteiro. Mas a paz durou pouco. No ano 590, uma peste terrível se espalhou por Roma, e o próprio papa, Pelágio II, morreu doente. O povo, o clero e o senado escolheram o novo papa no mesmo instante e todos disseram um só nome: Gregório.
Gregório não queria de jeito nenhum. Achava-se indigno e chegou a pensar em fugir da cidade para escapar da eleição. No fim, entendeu que aquela era a vontade de Deus e aceitou de coração obediente. Conta a tradição que, naqueles dias de peste, ele conduziu uma grande procissão de oração pelas ruas de Roma e, ao passar perto do túmulo do imperador Adriano, viu no alto um anjo guardando a espada na bainha, sinal de que a peste ia terminar. Por causa disso, aquele castelo redondo à beira do rio se chama até hoje Castelo Sant'Angelo, o Castelo do Santo Anjo.
Como papa, Gregório continuou vivendo como monge: comida simples, roupa simples, oração constante. Nas cartas que escrevia, não assinava com títulos grandiosos. Escolheu para si um nome que dizia tudo: servus servorum Dei, o servo dos servos de Deus. Até hoje os papas usam esse título, herdado dele.
E como ele serviu. Nos anos de fome, Gregório abria os celeiros da Igreja e mandava distribuir trigo para o povo. Fazia listas com os nomes dos pobres da cidade para que ninguém ficasse esquecido, pagava para libertar prisioneiros e negociava a paz quando os lombardos ameaçavam Roma. Dizem que não conseguia sentar-se para jantar sabendo que alguém passava fome na sua rua.
Um dia, chegou a hora do velho sonho. Gregório escolheu quarenta monges do seu mosteiro, colocou à frente deles um monge chamado Agostinho e os enviou numa longa viagem até a ilha da Britânia, a terra dos meninos do mercado. Os monges chegaram ao reino de Kent, onde o rei Etelberto os recebeu, ouviu a mensagem de Jesus e acabou pedindo o batismo. Aos poucos, a fé se espalhou pela ilha inteira. A Inglaterra aprendeu a rezar, e tudo começou com um olhar de compaixão num mercado de Roma.
Gregório também cuidava da oração da Igreja com um carinho especial. Organizou as missas, escreveu livros que ensinaram gerações de padres e bispos, e incentivou o canto bonito nas igrejas, aquele canto calmo que parece uma oração voando. Séculos mais tarde, esse jeito de cantar recebeu o nome de canto gregoriano, em honra dele, pois a tradição sempre ligou o seu nome a essa música.
Mesmo doente nos últimos anos, ele nunca parou de trabalhar e escrever. São Gregório morreu em 12 de março do ano 604, depois de catorze anos como papa. A Igreja o declarou Doutor da Igreja, um dos quatro grandes mestres do Ocidente, e o povo lhe deu o mesmo título de São Leão: Magno, o Grande. Grande não por ter mandado muito, mas por ter servido mais que todos.
Moral da História



