Entre as colinas do norte da Itália, perto da cidade de Bérgamo, existe uma aldeia chamada Sotto il Monte, que quer dizer "debaixo do monte". Foi lá que, no dia 25 de novembro de 1881, nasceu um menino chamado Angelo Giuseppe Roncalli. Ele era o quarto dos treze filhos da casa, o primeiro menino depois de três irmãs mais velhas, numa família de lavradores que plantava em terras que nem eram suas.
Na casa dos Roncalli, a mesa era comprida e a comida era simples: quase todo dia, polenta, que é um angu de milho bem quentinho. Dinheiro era pouco, mas ninguém batia àquela porta sem receber alguma coisa, nem que fosse um pedaço de pão e um lugar perto do fogo. Foi ali, entre o cheiro da terra e as orações da noite, que Angelo aprendeu a ser bom.
Aos onze anos, Angelo entrou no seminário de Bérgamo para estudar e se preparar para ser padre. Aos catorze, começou um caderno onde anotava suas orações, seus propósitos e até as próprias teimosias, para tentar melhorar um pouquinho a cada dia. Ele continuou escrevendo naquele diário a vida inteira, e muitos anos depois essas páginas viraram um livro famoso, o Diário da Alma.
Em 1904, Angelo foi ordenado sacerdote. Quando veio a Primeira Guerra, serviu como enfermeiro, carregando feridos em macas, e depois como capelão, consolando soldados com medo e saudade de casa. Ali ele aprendeu, de perto, o quanto a guerra machuca as pessoas, e guardou isso no coração para sempre.
Mais tarde, o Papa o enviou como seu representante para terras distantes: a Bulgária, a Grécia e a Turquia. Eram lugares onde quase ninguém era católico, mas Dom Angelo fazia amigos em toda parte, porque tratava cada pessoa com respeito, fosse ela de qual religião fosse. Nos anos escuros de outra guerra, ele usou seus carimbos e seus contatos para ajudar muitas famílias perseguidas a escapar do perigo.
Depois foi enviado à França e, em 1953, já de cabelos brancos, tornou-se cardeal e Patriarca de Veneza. Ele gostava de andar pela cidade, conversar com os gondoleiros e abençoar as crianças, e pensava que terminaria ali os seus dias, como um pastor no meio do seu povo.
Mas em outubro de 1958 o Papa Pio XII morreu, e os cardeais se reuniram em Roma para escolher o sucessor. No dia 28 de outubro, a fumaça branca subiu, e o escolhido era ele: Angelo Roncalli, com 76 anos de idade. Escolheu chamar-se João, e muita gente pensou que, por ser tão idoso, seria apenas um papa de passagem, que não mudaria nada.
Como as pessoas se enganaram. João XXIII tinha um sorriso largo, uma barriga redonda e um coração ainda maior. Logo no primeiro Natal, foi visitar as crianças doentes num hospital de Roma, e no dia seguinte entrou numa prisão para ver os presos, dizendo que, como eles não podiam ir até ele, ele tinha ido até eles. O povo começou a chamá-lo de um jeito carinhoso: o Papa Bom.
Certo dia, rezando, o Papa João teve uma ideia que surpreendeu o mundo: convidar os bispos do planeta inteiro para se reunirem em Roma e conversarem sobre como anunciar Jesus ao mundo de hoje. Essa grande reunião se chama concílio, e a dele ficou conhecida como Concílio Vaticano II. Dizem que ele explicava a ideia assim: queria abrir as janelas da Igreja para deixar entrar ar fresco.
No dia 11 de outubro de 1962, a Praça de São Pedro amanheceu coberta de gente. Mais de dois mil bispos, vindos de todos os continentes, entraram em procissão na basílica, e o concílio começou. Era um dia de festa como poucos na história da Igreja.
Naquela mesma noite, milhares de pessoas voltaram à praça carregando velas e tochas, que tremeluziam como um tapete de estrelas. No céu, redonda e clara, brilhava a lua. O Papa João apareceu na janela do seu quarto para saudar o povo e, olhando para cima, disse com graça:
— Até a lua se apressou esta noite para olhar este espetáculo.
Depois, com a voz mansa de um avô, ele fez um pedido que ninguém mais esqueceu:
— Voltando para casa, vocês vão encontrar as crianças. Façam um carinho nelas e digam: este é o carinho do Papa.
E o povo voltou para casa naquela noite levando, nas mãos, um carinho do Papa para cada criança.
Naqueles anos, os países grandes viviam desconfiados uns dos outros, com armas terríveis guardadas, e o mundo inteiro tinha medo de uma nova guerra. Então, em abril de 1963, o Papa João escreveu uma carta chamada Pacem in Terris, que quer dizer "paz na terra". Ele não a escreveu só para os católicos, mas para todas as pessoas de boa vontade, pedindo que os povos se tratassem como irmãos e resolvessem suas diferenças conversando, nunca guerreando.
O Papa João já estava muito doente quando terminou essa carta, e sabia disso. Mesmo assim, continuava sereno e bem-humorado, confiando em Deus como quem confia no pai. No dia 3 de junho de 1963, ele morreu em Roma, enquanto multidões rezavam por ele na praça.
O mundo inteiro chorou o Papa Bom, até gente que não era católica, porque bondade todo mundo entende. A grande reunião que ele começou continuou depois dele e renovou a vida da Igreja. E no dia 27 de abril de 2014, numa Praça de São Pedro outra vez lotada, o Papa Francisco o declarou santo, junto com São João Paulo II.
Hoje, quando alguém recebe um carinho antes de dormir, pode se lembrar daquela noite de lua em Roma. São João XXIII continua ensinando que um gesto pequeno de ternura pode atravessar o mundo inteiro.
Moral da História



