São João Bosco: O Padre dos Meninos de Turim
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São João Bosco: O Padre dos Meninos de Turim

por Vida de Santo

Idades 7-9
12 min de leitura

Numa manhã de agosto de 1815, no lugarejo dos Becchi, perto de Castelnuovo, na Itália, nasceu um menino chamado João Bosco. A família vivia do que a terra dava: um pouco de trigo, algumas uvas, o leite das vacas. Quando João ainda não tinha dois anos, seu pai, Francisco, adoeceu e morreu, e a mãe ficou sozinha com três filhos para criar.

Ela se chamava Margarida Occhiena, e o mundo a conheceria pelo nome carinhoso de Mamãe Margarida. Não sabia ler nem escrever, mas sabia trabalhar de sol a sol e sabia rezar, e ensinou aos filhos que Deus vê tudo e que ser pobre não é motivo para andar de cabeça baixa. João cresceu guardando ovelhas e escutando, à noite, as histórias que a mãe contava junto ao fogo.

O Sonho dos Nove Anos

Quando João tinha nove anos, teve um sonho que nunca mais esqueceu e que contaria até o fim da vida. Sonhou que estava num pátio largo, cheio de meninos brincando. Só que muitos brigavam e falavam palavrões, e João, que não suportava aquilo, entrou no meio da confusão distribuindo socos.

Foi então que apareceu um homem de rosto luminoso, vestido de branco, que o chamou pelo nome.

— Não é com pancadas que você vai ganhar esses meninos — disse o homem. — É com mansidão e com caridade.

João perguntou, assustado, quem era ele. O homem respondeu que era o Filho daquela Senhora que a mãe de João lhe ensinara a saudar todos os dias. Ao lado dele apareceu uma Senhora de manto reluzente, que pôs a mão no ombro do menino e apontou para o pátio.

— Olhe de novo.

João olhou. Os meninos tinham virado bichos ferozes, rosnando e mostrando os dentes. A Senhora pediu que ele olhasse mais uma vez, e então os bichos foram virando cordeirinhos mansos, que se ajuntavam em volta dos dois, quietinhos.

— Este é o seu campo — disse a Senhora. — É aqui que você vai trabalhar.

João acordou com as mãos doendo de tanto socar no sonho e correu contar tudo em casa. Um irmão riu e disse que ele ia acabar guardando cabras e ovelhas; Mamãe Margarida ficou calada e comentou baixinho que talvez aquele menino um dia fosse padre. Ninguém entendeu o sonho naquela manhã, nem o próprio João, mas ele o guardou por dentro como semente debaixo da terra.

O Menino Equilibrista

Nos dias de festa chegavam ao povoado malabaristas, mágicos e equilibristas de corda bamba. João assistia com atenção de aluno, guardava cada truque e treinava sozinho no quintal até acertar.

Quando aprendeu, armou o seu próprio espetáculo. Esticou uma corda entre duas árvores, juntou a criançada e fez de tudo: cambalhotas, moedas que sumiam no ar, assobios de passarinho. A entrada era de graça, mas tinha um preço combinado. Antes da função todos rezavam juntos e, no fim, João repetia o sermão que tinha ouvido na missa daquela manhã. Os meninos riam, aplaudiam, rezavam e voltavam no domingo seguinte.

O Padre e o Menino da Sacristia

Estudar foi difícil. João começou a escola tarde, andava léguas a pé e trabalhou de ajudante de alfaiate, de sapateiro e de padeiro para pagar os livros, ofícios que um dia serviriam para ensinar meninos pobres a ganhar a vida. Em 1835 entrou no seminário e, em 5 de junho de 1841, foi ordenado padre em Turim. Conta-se que a mãe, ao vê-lo padre pela primeira vez, não fez festa nem discurso: disse apenas que começar a celebrar a missa é começar a sofrer.

Turim crescia depressa demais, com fábricas novas abrindo e meninos de dez, doze, catorze anos chegando do campo à procura de trabalho. Muitos não achavam nada e acabavam dormindo debaixo das pontes. Quando o jovem padre visitou as prisões e encontrou ali garotos daquela idade, saiu decidido: alguém precisava chegar antes da fome e antes da rua.

No dia 8 de dezembro de 1841, Dom Bosco se preparava para a missa na sacristia da igreja de São Francisco de Assis quando ouviu uma gritaria: o sacristão estava enxotando um menino maltrapilho que entrara ali só para se aquecer e não sabia ajudar na missa.

— Deixe o menino comigo — pediu Dom Bosco. — Ele é meu amigo.

O rapazinho voltou devagar, com medo de apanhar de novo. Chamava-se Bartolomeu Garelli, era órfão, trabalhava em obras e não sabia ler. Dom Bosco perguntou se ele sabia assobiar. Bartolomeu arregalou os olhos, respondeu que sim, e os dois riram ali mesmo — aquilo já bastava para começar. No domingo seguinte ele trouxe alguns amigos; depois eram vinte, depois trinta, e em poucos anos seriam centenas.

O Oratório Andarilho

Com o tempo, Dom Bosco batizou a obra de Oratório de São Francisco de Sales, um santo conhecido pela doçura. Aos domingos havia missa, catecismo, pão, jogos e muita gritaria — e era a gritaria que criava problema: os vizinhos reclamavam e os donos pediam o terreno de volta. Durante cinco anos aquele bando atravessou Turim de um canto a outro, rezando num pátio hoje e num campo amanhã.

Na Páscoa de 1846, quando já parecia não haver lugar nenhum na cidade inteira, um senhor chamado Pinardi ofereceu um galpão velho no bairro do Valdocco. O telhado era baixo, o chão era de terra e chovia dentro, mas Dom Bosco aceitou na mesma hora. Naquele domingo, mais de trezentos meninos entraram correndo no galpão, e o Oratório finalmente teve endereço.

Mamãe Margarida em Valdocco

Nesse mesmo ano Dom Bosco adoeceu tão gravemente que quase morreu. Assim que melhorou, subiu a pé até os Becchi e pediu à mãe uma coisa enorme: que descesse com ele para Turim e cuidasse dos seus meninos. Margarida tinha cinquenta e oito anos e uma casa tranquila. Fez a trouxa e foi.

Em Valdocco ela cozinhou, remendou roupa, cuidou de febres e puxou orelhas quando preciso. Vendeu o pouco que tinha de valor, até as lembranças do casamento, para comprar comida e panos. Os meninos, que na maioria não tinham mãe nenhuma, passaram a chamá-la de Mamãe Margarida, e o nome ficou.

Conta a tradição salesiana que, numa tarde de roupa lavada estragada e horta pisoteada, ela disse ao filho que ia voltar para os Becchi. Dom Bosco não discutiu: apenas olhou para o crucifixo na parede. A mãe acompanhou o olhar, enxugou as mãos no avental e voltou para o fogão. Serviu ali dez anos, até morrer, em 25 de novembro de 1856.

Razão, Religião, Carinho

Dom Bosco resumia o seu jeito de educar em três palavras: razão, religião e carinho. Razão, porque explicava as regras em vez de simplesmente mandar. Religião, porque queria que cada menino conhecesse Deus sem ter medo dele. Carinho, porque de nada adianta ser justo se o outro não se sente amado. Por isso ele passava o dia no meio dos rapazes e, aos recém-chegados, dizia que ali podiam correr, pular e fazer todo o barulho que quisessem, contanto que não pecassem.

Num tempo em que muitos patrões exploravam aprendizes, ele abriu oficinas dentro de casa e assinou contratos que protegiam os meninos: quem saía de Valdocco saía sabendo um ofício. E um rapaz dali, Domingos Sávio, aprendeu tão bem a lição da casa — estar sempre alegre e fazer bem o dever de cada dia — que morreu santo aos catorze anos.

Uma Família que Cresceu

O trabalho ficou grande demais para um padre só. No dia 18 de dezembro de 1859, Dom Bosco reuniu jovens formados no próprio Oratório e fundou com eles a Sociedade de São Francisco de Sales, os salesianos. Em 1868 ficou pronta em Valdocco a igreja de Maria Auxiliadora; ele gostava de repetir que quem construía aquilo era Nossa Senhora, e não ele. Em 1872, junto com Maria Domingas Mazzarello, fundou as Filhas de Maria Auxiliadora, e três anos depois os primeiros missionários salesianos embarcaram para a América do Sul.

Dom Bosco trabalhou até não poder mais, curvado, com os olhos cansados de escrever cartas pedindo ajuda para os seus meninos. Na madrugada de 31 de janeiro de 1888 ele morreu em Valdocco, aos setenta e dois anos. Havia pedido que dissessem aos rapazes uma coisa só: que os esperava a todos no Paraíso.

Em 1929 o Papa Pio XI o declarou beato e, no domingo de Páscoa de 1º de abril de 1934, proclamou-o santo. Cem anos depois da sua morte, o Papa João Paulo II lhe deu o título que resume a vida inteira: Pai e Mestre da Juventude.

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Moral da História

Dom Bosco descobriu ainda menino que ninguém se conquista no grito. Ele não esperou os meninos melhorarem para gostar deles: gostou primeiro, e por isso eles mudaram. Você também pode começar assim com quem estiver por perto, oferecendo alegria antes de exigir qualquer coisa.

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