Por volta do ano 385, numa aldeia da Britânia Romana, onde hoje fica a Inglaterra, nasceu um menino chamado Maewyn Succat, que mais tarde seria conhecido como Patrício. Sua família era cristã: o avô era padre, e o pai, diácono. Mas o jovem Patrício não levava a fé a sério. Ele mesmo se dizia cristão só de nome, e achava que não precisava de Deus. Vivia despreocupado, brincando e estudando, com uma vida boa, sem imaginar o que Deus preparava para ele.

O Sequestro
Quando Patrício tinha dezesseis anos, algo terrível aconteceu. Piratas irlandeses atacaram a sua aldeia: saquearam as casas, puseram fogo e capturaram pessoas. Patrício foi sequestrado, arrastado para um navio e levado para a Irlanda como escravo. De uma hora para outra, estava longe de casa, longe da família, completamente sozinho.

Escravo na Irlanda
Na Irlanda, Patrício foi vendido a um fazendeiro druida. Os druidas eram os sacerdotes pagãos dos celtas. Patrício foi obrigado a cuidar de ovelhas nas montanhas, no frio, na chuva e no vento, quase sempre sozinho, muitas vezes com fome. Sem família, sem amigos, sem esperança, a vida dele se tornou dura e triste.

Mas foi ali que algo extraordinário começou. Na solidão das montanhas, Patrício se lembrou de Deus. Ele pensava: quando eu era livre, desprezava Deus; agora que sou escravo, preciso dele. E começou a rezar. Rezava ao acordar, rezava enquanto trabalhava, rezava antes de dormir, no frio, na chuva, no sofrimento. Ele mesmo escreveu, anos depois, que chegava a rezar cem vezes por dia e quase cem vezes por noite. Devagar, o coração daquele jovem foi se enchendo de Deus.

A Voz de Deus
Depois de seis anos de escravidão, Patrício ouviu uma voz em sonho:
— Patrício, você vai voltar para casa. Caminhe até o mar: lá um barco espera por você.
Patrício acordou com o coração disparado. Sabia que era Deus falando. E decidiu fugir, confiando inteiramente naquela promessa.

A Fuga
Patrício fugiu e caminhou cerca de duzentas milhas, mais de trezentos quilômetros, atravessando florestas, montanhas e rios, sem mapa, sem bússola, quase sem comida. Mas Deus o guiava. Quando finalmente chegou ao mar, lá estava, exatamente como a voz havia dito, um barco.

Patrício pediu aos marinheiros que o levassem, e eles recusaram, mandando que fosse embora. Então Patrício se afastou e rezou. Pouco depois, um dos marinheiros gritou chamando-o de volta: podia vir com eles, afinal. Patrício embarcou, agradecendo a Deus, que havia providenciado tudo como prometera.

O Retorno para Casa
Depois de muitas aventuras, Patrício conseguiu voltar para casa. A família o recebeu com lágrimas de alegria, pois todos pensavam que ele estivesse morto. Patrício abraçou os pais. Estava em casa, seguro, livre. Poderia ter uma vida tranquila dali em diante. Mas Deus tinha outros planos.

Uma noite, Patrício teve outro sonho. Viu um homem vindo da Irlanda, trazendo muitas cartas, e uma delas dizia: "A Voz dos Irlandeses". Então ele ouviu vozes que pediam:
— Por favor, jovem santo, venha e caminhe entre nós outra vez.
Eram os irlandeses, o povo que o havia escravizado, chamando-o de volta. Patrício acordou chorando. Entendeu que Deus queria que ele voltasse à Irlanda, para levar o Evangelho justamente àqueles que o tinham feito sofrer.

A Preparação
Patrício decidiu obedecer a Deus, mas sabia que precisava se preparar. Foi para a Gália, onde hoje é a França, e estudou com São Germano de Auxerre. Aprendeu teologia, mergulhou na Bíblia, cresceu na fé. Foi ordenado diácono, depois sacerdote e, por fim, consagrado bispo. Ao todo, foram uns quinze anos de preparação para a grande missão da sua vida.

Ano 432: De Volta à Irlanda
Em 432, Patrício tinha quarenta e sete anos. Segundo a tradição, o Papa Celestino I o enviou como bispo missionário à Irlanda. E Patrício voltou à terra do seu cativeiro, ao povo que o havia escravizado. Mas não voltou com raiva: voltou com amor. Não levava vingança: levava o Evangelho. Queria libertar os irlandeses, não de correntes de ferro, mas do pecado.

A Evangelização da Irlanda
Patrício percorreu a Irlanda inteira, pregando em todo lugar, para reis e para escravos. Enfrentou a oposição dos druidas e muitas perseguições. As antigas histórias contam que ele chegou a ser preso muitas vezes, e sempre acabava livre para continuar a missão. Ele batizava multidões, ordenava sacerdotes, fundava igrejas e estabelecia mosteiros, semeando a fé por onde passava.

O Trevo e a Santíssima Trindade
Para ensinar, Patrício usava um jeito simples e brilhante. A Santíssima Trindade é difícil de explicar: como Deus pode ser um só e, ao mesmo tempo, três Pessoas? Patrício pegava um trevo de três folhas, o shamrock, e mostrava ao povo:
— Vejam: três folhas, mas um só trevo. Assim é Deus: Pai, Filho e Espírito Santo, três Pessoas, um só Deus.
O povo entendia, porque era simples e dava para ver com os próprios olhos.

As Serpentes da Irlanda
Existe uma lenda famosa sobre São Patrício: dizem que ele expulsou todas as serpentes da Irlanda, e que elas fugiram para o mar. De fato, até hoje não há serpentes na Irlanda. Mas será verdade ao pé da letra? Provavelmente não: os estudiosos mostram que nunca houve serpentes por lá, porque a ilha se separou do continente antes de elas chegarem.

O que a lenda quer dizer, então? As serpentes representam o paganismo: os falsos deuses, a idolatria. Quando se conta que Patrício "expulsou as serpentes", quer-se dizer que ele converteu a Irlanda ao cristianismo e livrou o povo do veneno espiritual do paganismo. É uma história simbólica, mas com uma verdade profunda dentro dela.
O Monte Croagh Patrick
Conta-se também que Patrício subiu uma montanha, chamada até hoje de Croagh Patrick, e lá jejuou por quarenta dias e quarenta noites, como Jesus no deserto, rezando pela conversão da Irlanda. Dizem que ali ele travou uma tremenda batalha espiritual contra o mal, e que venceu pela oração, pelo jejum e pela fé.

O Fogo de Páscoa
Numa Páscoa, conta a tradição, o rei Laoghaire tinha feito uma lei: ninguém podia acender fogo antes que ele acendesse o fogo sagrado dos druidas. Mas Patrício, naquela noite, acendeu uma grande fogueira pascal no alto de uma colina, visível de longe. O rei ficou furioso com aquele desafio e mandou chamar Patrício ao palácio.

Os druidas tentaram apagar o fogo de Patrício, e não conseguiram. Tentaram mostrar poderes maiores, e falharam diante de todos. Patrício rezava, e o rei viu naquilo o poder de Deus. Laoghaire não se converteu por completo, mas permitiu que Patrício pregasse livremente na sua terra, e muitos da corte abraçaram a fé.

Anos de Fecundidade
Patrício trabalhou na Irlanda por quase trinta anos. As antigas crônicas falam de milhares e milhares de batizados, de mais de mil sacerdotes ordenados, de muitos bispos consagrados e de centenas de igrejas fundadas. Os mosteiros que ele estabeleceu se tornaram centros de estudo e de oração. E a Irlanda se transformou: de terra pagã, virou a "Ilha dos Santos".

A Morte e o Legado
Em 17 de março, provavelmente do ano 461, Patrício morreu, com cerca de setenta e seis anos. Passou os últimos dias em Saul, onde havia construído a sua primeira igreja, e partiu em paz, rodeado de discípulos. Foi sepultado em Downpatrick, e a Irlanda inteira chorou o seu pai espiritual.

A Irlanda Cristã
Graças a São Patrício, a Irlanda se tornou profundamente cristã. Nos séculos seguintes, produziu incontáveis santos, e os seus mosteiros preservaram os livros e o conhecimento durante tempos de guerra e invasões. Monges irlandeses partiram depois para evangelizar a Europa, e a Irlanda passou a ser chamada de "Ilha dos Santos e dos Sábios". Tudo isso brotou da semente que Patrício plantou.

O Dia de São Patrício
Hoje, o dia 17 de março é o Dia de São Patrício, celebrado na Irlanda e no mundo todo, com desfiles, festas, roupas verdes e trevos. Mas o mais importante é o que se celebra por trás da festa: um santo que amou os seus inimigos, que voltou para evangelizar quem o escravizou e que transformou uma nação inteira pelo poder do Evangelho.

A Oração de São Patrício
A tradição atribui a Patrício uma oração linda, chamada "Lorica", a Couraça de São Patrício. Ela pede que Cristo nos envolva por todos os lados, a cada momento do dia:
Cristo atrás de mim, Cristo dentro de mim,
Cristo abaixo de mim, Cristo acima de mim,
Cristo à minha direita, Cristo à minha esquerda,
Cristo quando me deito, Cristo quando me sento,
Cristo quando me levanto.
(Couraça de São Patrício)
Patrono da Irlanda
São Patrício é o padroeiro da Irlanda. É lembrado também como protetor dos missionários e de todos os que um dia se sentiram rejeitados ou longe de casa, como ele se sentiu. Sua festa, em 17 de março, é celebrada por milhões de pessoas ao redor do mundo.

Reflexão



