Nazaré era uma cidade pequena, encostada nos montes da Galileia. Tinha casas de pedra clara, ruas estreitas e um poço onde as mulheres enchiam os cântaros logo cedo. Não havia palácio nenhum ali, nem soldados, nem gente importante de passagem. Era um lugar comum, desses por onde se atravessa sem reparar em nada.
Numa dessas casas morava uma moça chamada Maria. Ela estava prometida em casamento a José, um carpinteiro da família do rei Davi, e vivia dias iguais aos das outras moças de Nazaré. Moía o trigo, remendava as roupas, rezava baixinho quando o sol se deitava atrás dos montes. Ninguém na cidade imaginava nada de extraordinário a respeito dela, mas Deus a conhecia pelo nome.
Foi para essa cidade pequena que Deus enviou o anjo Gabriel.
Não houve trovão nem trombeta. O anjo simplesmente entrou onde Maria estava, e o cômodo ficou cheio de uma luz mansa, parecida com a que entra pela janela bem cedinho. Então ele falou com ela.
Maria ficou parada onde estava. Não gritou, não correu, não chamou ninguém. Ela se perturbou muito com aquelas palavras e ficou pensando que saudação seria aquela, porque nunca ninguém havia falado com ela daquele jeito.
O anjo percebeu o susto e continuou mais devagar.
— Não tenha medo, Maria. Você achou graça diante de Deus.
E então contou o motivo da visita. Maria teria um filho, e o nome dele seria Jesus. Aquele menino seria grande, seria chamado Filho do Altíssimo, e o seu reino não teria fim.
Maria escutou tudo até o fim, sem pressa. Depois fez a pergunta que qualquer pessoa faria no lugar dela.
— Como será isso, se eu ainda não sou casada?
A pergunta de Maria não era uma desconfiança. Ela acreditava em Deus e queria apenas entender o caminho que Ele estava abrindo debaixo dos seus pés.
O anjo respondeu que o Espírito Santo desceria sobre ela e que o poder do Altíssimo a cobriria com a sua sombra. Por isso o menino que ia nascer seria santo e seria chamado Filho de Deus. Gabriel ainda lhe deu um sinal, para que ela não ficasse sozinha com uma notícia tão grande. Isabel, sua prima, já bem idosa, esperava um filho havia seis meses, ela de quem todos diziam que nunca teria filho nenhum.
Houve então um silêncio dentro daquela casa de Nazaré.
Deus tinha feito um convite e agora esperava. O anjo não foi enviado para dar uma ordem, e sim para receber uma resposta, e a resposta precisava ser livre. Por um instante o mundo inteiro ficou quieto, esperando o que uma moça de uma cidade pequena ia dizer.
Maria juntou as mãos e disse sim do jeito mais simples do mundo.
E o anjo se afastou dela.
A luz mansa foi embora devagarinho. O cômodo voltou a ser um cômodo, com o cântaro no canto e a roupa dobrada em cima do banco. Lá fora, Nazaré continuava igual: as cabras, o poço, o cheiro de pão saindo dos fornos. Ninguém na cidade tinha escutado coisa alguma. E, no entanto, dentro daquela casa pequena o mundo inteiro acabara de mudar, porque uma pessoa tinha dito sim a Deus.
Reflexão



